Lívia abriu a porta de casa e colocou as sacolas do mercado sobre o chão da cozinha. Enquanto reerguia o tronco parou. Seus olhos se moveram para o canto inferior direito do globo. Largou os sacos plásticos sem esvaziá-los logo, ao contrário do costume, e seguiu resoluta para a sala. Lá Leonardo comia pudim sentado na poltrona enquanto assistia a um jornal sensacionalista.
- Acabou.
- Não, é só intervalo.
Lívia faz expressão de impaciência.
- Estou me referindo ao nosso relacionamento.
- Como assim?
- Não te amo mais.
- Hã?!? Você só pode estar brincando. Essa tarde mesmo você me ligou duas vezes para dizer que me amava e que estava com saudade. Por acaso era mentira?
- Não.
- Então pára com essa brincadeira de mau gosto.
- Naquela hora eu te amava, mas agora não amo mais.
- Hm. Deixa eu ver se entendi. Desde abril de 2004 você me amava, inclusive essa tarde, mas quando foi ao mercado tudo mudou. O empacotador devia ser um filé.
- Quando fui ao mercado não. Quando coloquei as compras no chão da cozinha.
- Lívia, pára de palhaçada.
- Estou falando sério. Acabou, Leonardo, não te amo mais.
- Assim, sem mais nem menos. Quando colocou as sacolas de compra no chão da cozinha deixou de me amar, tchau e bênção. Expirou o prazo de validade do amor naquele instante. Não olhei no seu rótulo o prazo de validade, esqueci, por isso fui pego de surpresa.
- Vou arrumar minha mala e vou embora.
- Lívia, pára de surtar! Isso não faz o menos sentido! Estamos ótimos!
- Concordo. Não costumamos ter atritos. Também não temos uma vida monótona. Tampouco deixamos de nos entender na cama. Gostamos dos mesmos programas e nos divertimos muito. Você é uma ótima companhia, provavelmente a melhor que já tive. Estar com você é certeza de diversão, mas simplesmente não te amo mais.
- Nossa! Não estou acreditando no que estou ouvindo. Você é louca e escondeu bem esse tempo todo.
- Ai, Leonardo. A incapacidade masculina de compreender sentimentos me assusta. Sentimentos não seguem lógica ou fórmula, apenas acontecem. Você pode ser idealmente o cara perfeito, e provavelmente é, mas simplesmente não te amo mais e não há razão para isso, até porque razão e sentimento são coisas completamente distintas. Não busque lógica no que sinto. Não te amo mais. Tenho que ir embora. É uma pena, fico triste, pois era realmente feliz contigo.
- Mas criatura, se você era, e ainda é, feliz comigo, por que ir embora!?!
- Porque agora não serei mais. Não te amo mais, então por agradável que seja sua companhia não estarei feliz como sua mulher. Podemos continuar nos vendo, saindo como amigos e transando de vez em quando, tipo amantes ou amigos coloridos, mas não posso continuar sendo sua esposa ou namorada, pois não te amo mais e não ficarei com alguém que não ame. Agora te amo só como amigo. Um amigo pelo qual sinto tesão, na verdade.
- Meu Deus, mas o que é o marido, se não um amigo pelo qual se sente tesão?
- Marido é marido. Amigo pelo qual se sente tesão é um amigo, pelo qual se sente tesão.
- Ah... e por acaso você tem algum amigo pelo qual sinta tesão?
- Meu ou seu?
- Ah, tem meu e seu!?!
- Ué, Leonardo, convivemos com muitas pessoas bonitas.
- Ah... é...? Pois saiba que sempre fui vidrado no rabo da Catarina e nos peitos da Isadora. Duas gostosas! Meu sonho sempre foi juntar as duas numa só. Isso sem falar na Daniele, que não tem a bunda da Catarina ou a comissão de frente da Isadora, mas tem um conjunto que... puta que pariu! Que gostosa!
- É, elas são bonitas mesmo.
- E você não se incomoda que eu sinta tesão por elas!?!
- Não, não te amo mais. Não tenho mais sentimento de posse. Pode olhar e comer quem você quiser. Aliás, sempre me preocupei com a forma da Dani te olhar. Aproveite que agora você está livre.
Leonardo se levanta da poltrona e começa a andar de um lado para o outro. Lívia o observa em silêncio. Seu marido passa a falar enquanto continua repetindo a mesma trajetória. Vai e vem, vai e vem, no ritmo do seu nervosismo.
- Louca! Você é louca! Completamente louca!
- Posso ir embora?
- Vai sua louca, vai! Agora eu que não quero mais viver com um ser perturbado como você!
Lívia volta para a cozinha, guarda as compras na dispensa e na geladeira. Vai ao quarto, arruma a mala. Ao passar pela sala para sair vê Leonardo prostrado na poltrona, com olhos perdidos e abandonados. Dá-lhe dois beijinhos nas bochechas, fala “tchau. Vamos ver se marcamos uma praia domingo”, deixa o molho de chaves na mesa de jantar e vai embora.
Conto vencedor da última rodada do Clube da Leitura. Narra uma situação na qual, de súbito, o amor acaba.
Epa! Que deprimente levar um chute na bunda, assim, subitamente!
Deprimente é a história. Já o conto mereceu ser vencedor no Clube da Leitura e merece vencer quaisquer outras rodadas.
rsrsrssrs mto bommmmmm,
isso é TPM meu caro.....TPM braaaaaaaba ! kkk
um conto hilario e... possivel ! rsrsrs
bjsssssssss;)
Parece absurdo, mas as mulheres, em sua maioria, são inconstantes exatemente do mesmo jeito que a personagem principal. Por isso, o conto é tão eficiente. Parabéns, Renato!
André Buda®" · Rio de Janeiro, RJ 23/3/2009 11:58
Teu conto é muito bom, rapaz, foi bacana você ter me visitado. Meus sinceros aplausos e Abraços.
Carlos Magno.
Rapaz! que maravilha de texto.
Lí quase de um fôlego só.
Muito interessante. Pode acontecer mesmo.rsrsrsssrsr.
Conheço histórias assim.
Só que no conto é mais fácil arrumar as malas e ir embora.
Votado
Belo conto.
Chego a tempo de publicá-lo.
Com muito prazer.
Conto interessante, temática contemporânea, ótima narrativa
enfim valeu a leitura, parabéns.
vera greenhalgh
É, o cara realmente perdeu, coitado. Mas quem sabe ainda tem a Daniele, a Isadora e a Catarina ... Parabéns, meu caro !
André Calazans · Rio de Janeiro, RJ 26/3/2009 01:05Excelente essa morte súbita cheia de vida... abraço.
Juscelino Mendes · Campinas, SP 4/4/2009 22:48Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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