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Movediço Blues
Fifo Ribeiro · Porto Alegre (RS) · 1/12/2008 11:38 · 1 comentários ·  
Um movediço blues soava na noite.

Andava a passos largos, de modo a apressar a companhia do sol.

As cervejas estranhamente geladas.

Estúpidas.

Ainda havia trabalho a fazer, sabia. Mas sempre havia, e haverá até o dia do nunca.

Parou numa esquina de observar o Movimento da Rua - estava tudo tão parado, não seria difícil se aperceber quando ele chegasse, agitado, com suas suntuosas curvas e efemeras pegadas.

*

Um movediço blues soava na madrugada - estática, dissonante.

Sacou a navalha, roubou dois corações de uma só vez. Colocou-os no bolso, justo, e caminhou, calmo.

As cervejas estranhamente cheias, múltiplas, transbordavam.

Andava a passos largos, não sabia bem por quê.

Já não havia trabalho a fazer. (Mas que besteira, sempre havia, e haveria até o dia do quando.)

Esses passos largos deixaram um longo e espaçado rastro de sangue, espaçando cada vez mais, à medida que os corações vazavam no bolso, e o sangue ia continuamente se esvaziando.

Mas o coração assim, sozinho, não é nada.

No peito, justo, o seu batia encolhido num canto esquerdo qualquer.

Logo se apercebeu: por que tornava a roubar corações, se o que precisava no momento era: pulmão.

E corações assim, sozinhos, não são nada.

E o amor assim, falado, é nada também.

Parou numa esquina a observar o Repouso das Coisas - estava tudo tão frenético, não seria difícil se aperceber quando ele chegasse em forma de folha morta no chão.

*

O movediço blues ainda soava enterrado na manhã.

O café estava estranhamente amargo.

Sentou e esticou as pernas, de modo ocupar mais espaço no mundo.

Ainda havia trabalho a fazer, mas sentia o sono roçando a nuca, lambendo dentro da orelha.

As pálpebras estavam ensopadas de mel, quisera agora ter algumas lágrimas.

Piscava a passos largos, de modo a antecipar e afastar a companhia dos sonhos.

Pagou a conta ou saiu sem pagar - estava tudo tão claro!

Parou em frente ao espelho a observar sua própria versão - estava tudo tão refletido, não seria difícil achar que se é a inversão de alguma coisa.

Lembrou-se também de lamentar nunca estar consciente naquele momento exato em que o sono vinha visitar/


/e naquele momento escorregadio, tendo o testemunho das cores todas dançando juntas, dos olhos distraídos de sonhos verdes, vermelhos, castanhos e amarelos - chegou a cogitar devolver aos donos todos aqueles corações armazenados no sótão, pois havia descoberto que assim, sozinhos, trancados, no meio da poeira aqueles corações não tinham valor nenhum.

Assim como o amor perdido na bagunça do verbo.

*

Esqueceu de apagar as luzes.
Mas naquele dia um movediço blues estamparia de negro
a densa cortina dos seus sonhos vívidos.


tags: Porto Alegre RS textos-ficcao blues movedico coracao trafico-de-orgaos amor noite cerveja cafifo ribeiro fifo
 
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Autoria   Cafifo Ribeiro

- inspirado aqui:
http://www.overmundo.com.br/banco/noite-triste
Data   01/12/2008
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muito bom seu texto.votado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca (SP) · 5/12/2008 11:03 
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