MUITAS MÃES

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André Calazans · Rio de Janeiro, RJ
29/3/2010 · 2 · 3
 

Esta história foi contada por minha falecida avó, e se passou numa pequena vila na região do Alentejo, em Portugal. É sobre uma triste menina que fora criada por dois tios após a morte do pai, quando ainda era muito pequena. Da mãe, nunca tivera notícias, e isto lhe causara uma profunda angústia em sua alma. Sempre que abordava o assunto, desconversavam. Era como se fosse algo assim proibido, e que devesse permanecer para sempre oculto, banido de toda e qualquer lembrança. Os tios a tratavam muito bem, enchiam-na de mimos e carinhos, assim como as namoradas que tiveram e suas esposas mais tarde. Mas ela não deixava de sentir a dor da ausência de quem lhe dera a vida, potencializada pelo cruel silêncio que permanecia em torno da figura materna.

Certo dia, quando já não era bem uma menina, mas quase uma moça – bastante bonita e triste – ela encontrou em uma movimentada feira de rua a velha senhora que prestara serviços domésticos a sua família no passado. Embora o tempo tivesse sido bastante impiedoso com a serviçal - mais do que se pudesse considerar normal - lembrava-se exatamente de sua feição amável e sofrida. Então, de repente, toda a sua infância retornou. Ela agradeceu aos céus aquele providencial esbarrão, que a colocou face a face com uma importante figura de seu passado. Apesar de seus tios não terem percebido, a menina afeiçoara-se bastante àquela senhora. E a despeito de não reclamar quando a empregada fora dispensada, a fim de não se intrometer em assunto de gente grande, ela tornara-se ainda mais triste sem a sua acalentadora presença.

Quanto tempo fazia mesmo ? – enquanto a menina tentava se lembrar, a velha senhora catava as flores que dela derrubara, sem se preocupar com suas próprias compras espalhadas pelo chão. Em dado momento as duas se abaixam e seus olhares se encontram. É quando a velha se dá conta do largo sorriso de sua interlocutora – coisa rara – e a reconhece, sem se preocupar em represar as lágrimas.

- Oh, minha pequena, é você mesma ? Como cresceu ! Estás tão linda !
- Eu nunca ia esquecer da senhora ! – diz a menina, abraçando-a fortemente.

As duas caminham de mãos dadas até um largo próximo, e falam em poucos minutos o que ocorrera em muitos anos. A velha conta o episódio de sua dispensa, até hoje pouco esclarecido. Era como se seus tios não quisessem mais sua presença, depois de prestar serviços de forma impecável durante mais de quinze anos. E como lhe doera abandonar aquela casa, principalmente por causa da pequena menina. Elas se mantêm caladas, emocionadas durante alguns minutos, até que a garota quebra o silêncio:

- Então você conheceu meus pais ... do papai, não sei se é sonho ou verdade, eu tenho algumas lembranças. Sempre me disseram que ele era muito parecido com os tios. Ele morreu tão novo ...
- Pois é, minha filha, levado tão cedo por Deus. Mas essas coisas a gente não discute com Ele, simplesmente acata.
- Ele era jardineiro, não era ?
- Não, minha querida, ele era muito mais que um jardineiro. O seu pai era um escultor das flores, conhecido em toda a região. Fazia arranjos, jardins, quintais – o melhor de todos, dizia-se na época.
- E a minha mãe, como é que era ? Você conheceu ela, não é mesmo ?

Depois de hesitar algum tempo, a velha responde:

- Este assunto eu prometi aos seus tios nunca conversar com ninguém, principalmente com você – diz a mulher, de forma um pouco rude.
- Mas por quê ? Por que eu não posso saber como ela era ? Ela morreu ou nos deixou ? Quem sabe não está viva ainda ...

A senhora se emociona com o tom e a expressão daquela criaturinha meiga e triste. Passara-se muito tempo, é verdade. Que mal teria revelar-lhe alguma coisa sobre sua origem ? O sol estava bastante forte, num verão particularmente quente e prolongado. A velha parecia incomodar-se cada vez mais. Alega indisposição e, antes de se despedir, retira um pedaço de papel da bolsa e rabisca qualquer coisa.

- Minha pequena, vai até os fundos dessa igreja e olha o jardim que teu pai lá construiu. Fica com Deus !

A menina estava com uma estranha intuição em relação ao local. Ela esquece seus afazeres e segue por um longo caminho alternado por flores, oliveiras e sobreiros. Vez em quando, surgiam singelas casas agrupadas. Após uma hora de intensa caminhada, ela está exausta, mas também excitada. Enxerga ao longe a belíssima igreja, em estilo medieval, a reinar no alto de uma pequena colina, no centro de um vilarejo. Ela não entra na construção, dirigindo-se diretamente aos fundos, conforme instruído pela velha senhora. Quando pisa o local, fica assombrada. Não tinha condições de descrever o imenso e exuberante jardim que ali encontrara. Flores de diversos tamanhos, cores e formas compunham lindos arranjos simétricos e pareciam engolir o espectador despreparado.

Durante uns quinze minutos ela observa o espetáculo paralisada, como se vítima de uma hipnose. Seus membros formigam, e a mente parece absorvida por aquelas flores, que a embriagam com suas matizes de cores e aromas exóticos. A sensação aumenta, e logo todo o seu corpo e mente estão envolvidos. Ela acaba por tombar ao chão, mas continua vendo e sentindo as flores através de imagens contínuas que invadem seu pensamento. Em seu delírio, enxerga as flores crescendo, movendo-se e ganhando formas e rostos femininos. Cada uma delas parecia ter características e personalidades peculiares, abarcando todos os sentimentos conhecidos. As criaturas se aproximam, cercam-na e começam a louvá-la, numa espécie de ritual primitivo. Em seguida, voltam ao jardim, recolhendo-se a suas estáticas formas originais, mas deixando uma fragrância ímpar no ambiente.

- Ei, minha filha, você está bem ?

A moça acorda com a voz do padre a acariciar-lhe a alma. Repentinamente, ela se recompõe.

- Desculpe, acho que dormi e acabei sonhando ...

- Fique tranquila. As pessoas que vêm aqui pela primeira vez realmente se impressionam com este jardim. Foi feito há uns quinze anos por um homem muito bom, que também era meu amigo. Ele costumava vir aqui sempre, admirar sua própria obra . Você não quer entrar um pouco ? - convida, estendendo a mão amistosa.

A pequena e bela mulher entra na igreja, conversa e depois reza durante um bom tempo. Ao sair de lá, já não era tão triste.

Sobre a obra

Texto do livro "O Enforcado e Outras Histórias".

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Autoria
André Calazans
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Greyce Kelly Cruz
 

quem é o autor dese livro?
ah
parabéns pelo texto!!!

Greyce Kelly Cruz · São Luís, MA 30/3/2010 12:03
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André Calazans
 

Olá, Gookz, sou o autor do livro, que será lançado em breve aqui no Rio de Janeiro. Obrigado !

André Calazans · Rio de Janeiro, RJ 30/3/2010 22:58
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ayruman
 

Sucessos amigo.
Aqui só no aprecio.
Luz e Paz. jbconrado

ayruman · Cuiabá, MT 31/3/2010 21:55
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