Aquela mulher que todos os dias desfila com macacão de mecânico é aos olhos dos outros um senhor João, mas a verdade é que aquela é Paixão. Durante o dia ela trabalha como mecânica e à noite cumpre com o dever de mãe e boa esposa. Mas na sua cidade as pessoas não entendem como fêmea faz serviço de macho.
Acontece que Paixão tentou outros serviços que perante a sociedade são coisas para mulher fazer. Tentou trabalhos como doméstica, balconista, assistente de dentista, mas nenhum deu certo. E já cansada de procurar emprego aceitou desafio de se tornar mecânica.
Paixão conhece as ferramentas e todo o resto do serviço. Aprendeu tudo muito rápido e consegue fazer duas coisas ao mesmo tempo, talvez por ser mulher. Para sua tristeza muitos homens que querem fazer revisão no carro, por causa do machismo, não atribuem a ela nem um pouco de credibilidade.
Inicialmente Paixão sofria com a exclusão nas conversas dos colegas de trabalho que diziam que aqueles eram assuntos de homem, mas, com seu jeitinho feminino foi invadindo o “clubinho” masculino e conquistando a admiração dos companheiros pelo grande conhecimento sobre o assunto de homem, que em questão era mulher, e Paixão conhecia muito bem esse universo.
Ela não queria ser vista apenas como a frágil mocinha que serve apenas para lavar e passar, queria também o reconhecimento como uma mecânica que recebe dignamente seu salário pela excelência de seu trabalho. Mesmo suja de graxa Paixão cumpre sua outra grande obrigação que se resume à família. Cuida muito bem dos filhos e do marido, que por ironia do destino, trabalha como chefe de cozinha num restaurante da cidade.
Além de dona de casa e mecânica, nas horas vagas ela desempenha outro ofício que é o de costurar as roupas de algumas amigas, que não perdem a oportunidade de comentarem “se você dá tão bem com a agulha, larga a chave de fenda”.
Mas esses comentários não surtiam efeito em Paixão, que as considerava alienadas e submissas.
Paixão é considerada uma mulher bem informada, entende sobre política, economia, cultura, sabe muito sobre moda e, paradoxalmente sobre esporte e carros, conhecimento que ela vai adquirindo com seus novos colegas, ela quase nunca aplica o que sabe nas conversas com as amigas, pois esses assuntos são substituídos por fofoca. Sempre que a procuram para dar uma ajustada em algum vestidos e afins, caem logo na conversa da vida alheia e pessoal.
Paixão até fazia uma comparação a uma colcha de retalhos, é como se todas a história que ouvisse quando juntadas a transformassem em uma coisa só: Mulher. A colcha às vezes tem a beleza ofuscada por causa de alguma estampa feia, assim como a história de algumas mulheres que a procuravam, que também tinham detalhes feios.
Muitas mulheres passam por preconceitos e estereótipos e Paixão entende bem essas coisas. Há outras, no entanto, que superam obstáculos e vencem preconceitos e Paixão sabe mais ainda sobre isso.
Do tipo que trabalha fora; cuida da família e da casa; faz uns bicos pra conseguir um trocado a mais para o esmalte e o batom; é ainda analista de um tanto de outras mulheres que levam a vida como ela. Paixão vai se destacando com um diferencial na labuta de todos os dias. Ela não liga paro o que eu e você pensamos.
O que há de semelhante entre Paixão e a vida que ela leva é que ambas são belas e duramente criticadas pela sociedade machista que não consegue enxergar a possibilidade do “novo”.E assim todos os dias ela desfila com seu macacão sujo e grande que esconde o delineado formato de seu corpo. De longe, aos olhos dos outros é um senhor João, mas de perto com seu jeito mulher de ser é PAIXÃO.
Se trabalhar dignamente o resto não interessa. Essa é a estória de Paixão, que de longe parece um João mais de perto é simplesmente Paixão.
Muito bom seu postado. E de "Paixão" o mundo anda cheio. É que os olhos da maioria dos homens preferem não enxergar...
Saúde e Paz. jbconrado.
Viva Paixão, Viva Binha Nery, Viva o ser-mulher! Quero agradecer o carinho e a visita e convidá-la a visitar http://po-de-poesia.blogspot.com e conhecer outros poemas de outros integrantes do Pó de Poesia. Bjs!!!
marcio rufino · Belford Roxo, RJ 19/12/2009 17:24
Um libelo sobre a vontade que toda a mulher tem de se libertar do jugo e domínio masculino, descobrir suas verdadeiras aptidões e partir pra luta sem medo de ser feliz !
Um beijo !
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