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Na falta de um preconceito explícito, um blefe!
YNDaniel · São Paulo (SP) · 11/7/2008 20:55 · 94 votos · 15 comentários ·  
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overponto
Grafite perto da minha casa
Grafite perto da minha casa
Da série: "Crônicas do impossível"

Era a época dos jogos universitários. Festa, alvoroço, euforia, hormônios e à flor da pele, uma loucura.

Depois de participar de duas corridas, fomos eu, o Rei, o deus que dorme, Marx e Weber, assistir os outros jogos.

Fomos ver o jogo de futebol. A Universidade do Peixe, contra a Universidade do Santo. Um jogaço. Estávamos todos eufóricos, com exceção do meu amigo, o Rei. Dum repente, o atacante Peixe dá um chute e a bola passa a milímetros da trave.

Weber, na arquibancada, no degrau acima do qual estávamos, grita:

"Ô rei! Essa tava pra você heim? Essa você não errava!"

O Rei finge que não ouviu.

Marx, do nosso lado completa.

"Faltou mais melanina pra acertar esse gol"

Essa, o Rei também finge que não ouviu.

Acaba o jogo. Vence a Universidade do Peixe.

Próximo jogo: o de basquete masculino.

O ginásio tão lotado que não cabia nem pensamento.

Universidade Federal do Papagaio contra Universide da Juventude.

No último quarto, um jogador da Papagaio, com dois metros de altura, faz uma jogada Michael Jordan. Dá aquela pedalada espetacular no ar e enterra a bola com uma categoria de trivialidade tendendo ao zero.

Weber dá um grito.

"Pqp!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Ces viram???????? Mas também, olha a cor. Tá no sangue"

O Marx olha para o Rei e pergunta:

"Ô Rei, cê num entrou na seleção de basquete?"

Ele responde na maior calma do mundo.

"Não..."

Acaba o jogo. Saímos do ginásio. Do lado de fora está tocando uma mistura de hip hop/rap/rock forte. RUN DMC e Aerosmith.

Marx, sem ser demandando, emite o comentário.

"Essa música é muito boa"

O Weber, não deixa por menos e faz uma inferência provocativa e irreverente.

"Ô Rei, vocês dominam tudo. É futebol, é basquete, é atletismo, é música. Ces têm que deixar alguma coisa pra gente!"

Aí, sua majestade sobe em suas imaginarías tamancas de Luís 14 e dispara:

"P. q. pariu!!!!! Eu sou negro e sou matemático!!!!! Sou o mais novo doutorado da história do departamento de matemática!!!!!! Não sei sambar, não sei jogar futebol, não jogo basquete!!!!!! Não danço hip hop!!!! Será que deu pra entender????!!!! Seus p.!!!!! Sou um matemático negro!!!!!! Negro!!! Não sou afro-decendente e nem moreninho!!!!! Sou um negro humano-descendente!!!!! Cês tão ouvindo!!!!!? Seus reis do preconceito! Parem com esses blefes idiotas, seus "fermazinhos" de merda!!!"

Parênteses: Fermat foi um matemático que levou outros matemáticos a insanidade ao escrever, na margem de um livro de aritmética, de Diofante, os seguintes dizeres:

"Eu descobri uma demonstração maravilhosa, mas a margem deste papel é muito estreita para contê-la."

Escreveu : xn + yn = zn , onde n representa 3, 4, 5, ...

Até hoje não se sabe, se o matemático indutor de insanidade alheia, realmente havia demonstrado a fórmula ou simplesmente blefado. Isto, porque o dito cujo morreu antes que alguém pudesse lhe questionar sobre o paradeiro da bendita demonstração.
A fórmula, escrita por volta de 1637, demorou mais de trezentos e cinquenta anos para ser demonstrada. Foram necessárias 50 folhas de papel A4 (desconheço o tamanho da letra utilizada).

Fecha parênteses.

Marx, Weber, e uma boa parte dos que estavam saindo do ginásio, ficaram congelados. O Rei, percebendo a reação de todos, começou a rir e, apontando para o alto falante, sentenciou.

"E essa música também é um blefe!"

Naquele momento fui obrigado a discordar de sua majestade.

"Aí não, ô Rei. RUN DMC e Aerosmith, juntos, não é blefe coisa nenhuma. Se liga!"
sobre a obra
Esta é uma de minhas crônicas que classifico como "Crônica do impossível". Momentos em que a realidade e a ficção se interligam e ficam ali: no limiar da loucura.


tags: São Paulo SP textos-ficcao fermat diofante afro negro basquete futebol matematica doutorado
 
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Autoria   Y.N. Daniel.
Escritor, cronista, ensaísta e programador nas horas vagas.
Data   11/7/2008
Arquivo   4 Kb ·18 downloads
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YND, confesso que no início de seu escrito, o preconceito escrito me incomodou, mas vendio o próprio, o preconceito, li até o fim e que grata surpresa... Texto divertido, inteligente e com propósito
Parabéns pelo trabalho.
votos e abraço!
Cristiano Melo · Brasília (DF) · 10/7/2008 13:10 
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digo: vencido
Cristiano Melo · Brasília (DF) · 10/7/2008 13:10 
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YNDaniel No Brasil, a questão do preconceito racial é extremamente escorregadia.
Obrigado por ter lido!
:D
YNDaniel · São Paulo (SP) · 10/7/2008 13:34 
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Votei!
Parabéns pelo trabalho e Boa sorte!
Eu estou com uma Mostra de Cinema na agenta Cultural, http://www.overmundo.com.br/agenda/mostra-curta-todo-brasil-traz-cinema-independente-a-camara , depois se der passa lá e vota! Beijos

Sheila Fonseca · Rio de Janeiro (RJ) · 10/7/2008 15:51 
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Opa, q coisda lindia!
Votadissimo
Nic NIlson · Campinas (SP) · 10/7/2008 16:27 
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Muito lindo!
Votadissimo!

beijo
celina vasques · Manaus (AM) · 10/7/2008 19:53 
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Entendo bem a reprimenda do Rei. Tenho um amigo negro que sobe nas tamancas cada vez que é chamado de "mpreninho" ou outros desses eufemismos idiotas.
Marcos Pontes · Eunápolis (BA) · 10/7/2008 21:51 
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YNDaniel Esse homem do lado parece o Ariano Suassuano. Será que é? Se for, que sucesso!
YNDaniel · São Paulo (SP) · 10/7/2008 22:27 
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Sabe eu não gosto de me sentir assim.Não sei o pq seu texto me chamou a atenção. na fila.
Como se realmente fosse um chamado.
Posso estar errada e espero estar,algo salta desse texto.
deixo meus 9 pontos e uma ??????
pq?
clara arruda · Rio de Janeiro (RJ) · 11/7/2008 04:39 
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muito interessante, maravilhoso.(votei).
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca (SP) · 11/7/2008 10:28 
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YNDaniel Clara, a literatura, hoje, tem o potencial para se tornar o rock'nroll dos anos 60. Um dos últimos lugares onde, ainda, é possível ter um pensamento libertário.
Opa! Pessoal, literatura também é Hardcore! Uhúúúúúúúú!


YNDaniel · São Paulo (SP) · 11/7/2008 10:36 
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Visceral. Um mergulho na pedra...
Gostei
Um abraço
EdimoGinot · Curitiba (PR) · 11/7/2008 14:27 
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YNDaniel Leiam as poesias do patinho de óculos escuros. É simples, sem rococó, hipérboles, e outras bongas das milongas do caburetê. O patinho tem o corpo e a alma de poeta!
YNDaniel · São Paulo (SP) · 11/7/2008 14:39 
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Bela crônica, cada linha uma surpresa, parabéns. Abraço. Fabrício.
Fabrício Costa · Vitória (ES) · 14/7/2008 10:15 
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YNDaniel Obrigado por ter lido. A generosidade das pessoas sempre me deixa perplexo!
YNDaniel · São Paulo (SP) · 14/7/2008 10:26 
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