Com o surto industrial do século 19, variados setores da sociedade tornaram-se mecanizados por uma tecnologia em constante processo evolutivo, no sentido de viabilizar sempre uma maior produtividade sob o menor custo possível. Isto, ao mesmo tempo em que levou a um considerável bem estar e qualidade de vida às civilizações que tiveram acesso a tal desenvolvimento, também fez emergir um questionamento filosófico acerca dos limites deste avanço desenfreado da ciência e tecnologia, o que, por fim, se materializou no discurso artístico, em especial no cinema, servindo como ponto de partida para enredos de filmes de ficção científica. Num momento em que as tecnologias da informação permitem que se envie um robô até Marte, sendo este monitorado pela NASA por uma micro-câmera em tempo real, e que o campo da engenharia genética está à beira de criar em laboratório seres humanos perfeitos, era de se esperar que as obras de ficção científica estivessem refletindo este cenário com um mínimo de originalidade.
No entanto, fica difícil não notar na maioria das produções atuais uma evidente predisposição em deixar de lado uma trama que leve o espectador a refletir sobre a condição dos personagens em um ambiente dominado pela tecnologia e menos humano em sua essência, como fizeram os clássicos “2001 - Uma Odisséia no Espaço” (1968) e “Blade Runner” (1982). Ao contrário, se opta por priorizar o entretenimento imediato, calcado na exuberância da ação e dos efeitos especiais espalhafatosos, como é o exemplo de “Avatar” (2009), filme de maior sucesso comercial de todos os tempos. Eis então que, em meio a esta seara de mesmice, surge “Lunar” (2009), uma obra de relativo baixo orçamento que nem chegou aos cinemas no Brasil, e que traz um novo fôlego de criatividade ao gênero, explorando temas como o isolamento social, o autoconhecimento e a esperança. O diretor e roteirista Duncan Jones aborda tanto a engenharia genética quanto a colonização espacial através de uma história que prospecta esta realidade a um futuro fantástico, porém não improvável, levando o espectador a refletir sobre a ética de determinados rumos tecnológicos para os quais a espécie humana parece cada vez mais convergir.
Na trama, Sam Bell está chegando ao fim de seu contrato de três anos como administrador de uma base no lado escuro da Lua. Esta base funciona como parte do programa de uma empresa que descobriu na superfície lunar uma enorme reserva de hélio; principal fonte de energia usada na Terra. O protagonista passa seus dias sonhando com o retorno à família e conversando com o computador central que controla toda a tecnologia da base, e que serve como um antídoto para sua solidão. Após sofrer um acidente numa missão de rotina, Sam acorda novamente na base e percebe que não apenas o computador lhe faz companhia, mas também uma nova versão de si mesmo. Sem contato com um ser humano há anos e dialogando apenas com uma máquina, Sam de repente se vê coagido a conviver, literalmente, consigo mesmo, o que proporciona uma série de situações e diálogos inusitados, que conseguem extrair na medida certa o lado cômico daquele ambiente surreal e claustrofóbico. O espectador, apesar da confusão inicial em não saber até que ponto aquilo é alucinação ou realidade, logo se solidariza com o drama vivido por ambas as versões do protagonista que, ao contrário do senso comum, têm uma relação abalada por constantes conflitos de personalidade, o que torna tudo mais curioso do ponto de vista antropológico.
Não tarda a ficar claro que nada ali é sobrenatural, e a ciência está, sim, no cerne da questão. Numa cena marcante, Sam se desloca pela primeira vez até o lado claro da Lua, da onde poderia ver a Terra e deixar para trás a escuridão física que o havia acompanhado durante três longos anos. Sua real motivação, no entanto, era alcançar a luz do conhecimento, que, depois de obtida, o desespera por colocar em cheque todas as suas lembranças de vida, mas também lhe garante uma ponta de esperança em poder reverter uma injustiça. Entra em jogo, então, uma solidariedade tipicamente humana, contrastando com o ambiente frio e funcional dominado pela tecnologia. Sem entregar o ouro, convido o leitor a conferir esta que, senão for a melhor obra de ficção científica dos últimos anos, certamente chega em boa hora para relembrar a autêntica tradição deste gênero no cinema.
Oi Bruno, gostei bastante do seu texto, que me deixou curiosa para ver o filme. Como sou cinefila de carteirinha, vou ficar de olho e esperar pela estreia de 'Lunar' no Brasil. Valeu a dica!
cris monteiro · Rio de Janeiro, RJ 9/12/2010 10:10Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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