Na trilha sangrenta do cinema-denúncia

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Tacilda Aquino · Goiânia, GO
19/1/2007 · 28 · 2
 


Uma das grandes diversões de minha infância era assistir Daktari, uma série de TV filmada na África retratando as aventuras do veterinário Marsh Tracy, que dava título à série - Daktari, uma palavra em linguagem africana do dialeto Swahilli que quer dizer Doutor.

Já adolescente, fiquei impressionada com As Neves do Kilimanjaro, que Henry King realizou em 1952 e que também assisti pela primeira vez em uma Sessão da Tarde. Gregory Peck – lindo! –, Ava Gardner e Susan Hayward. A aventura romântica baseada no livro de Ernest Hemingway.

Agora a cinematografia está repleta de filmes-denúncia que substituíram o exotismo e a vida selvagem na África pela fome, a seca, a AIDS, a corrupção, a guerra, a especulação econômica. São produções como Hotel Ruanda (2004), A Intérprete, O Senhor das Armas, O Jardineiro Fiel (todos de 2005) e o mais recente: Diamante de Sangue. Hotel Ruanda conta a história real de Paul Rusesabagina, que foi capaz de salvar a vida de 1268 pessoas durante o genocídio de Ruanda em 1994. A Intérprete, com Nicole Kidman, mostra a forma como os outros países interferem no governo de ditadores africanos. O Senhor das Armas coloca em cena um contrabandista internacional de armas que abasteceu as principais guerras do mundo – principalmente as africanas – entre os anos 1980 e 1990. O Jardineiro Fiel, do brasileiro Fernando Meirelles denuncia a forma com que a indústria farmacêutica usa a população africana como cobaia humana nos testes de remédios.

E agora a gente se depara com outra denúncia em Diamante de Sangue, que mostra como o lucrativo comércio de diamantes financia genocídios. No filme, Leonardo Di Capprio é um ex-mercenário do Zimbábue envolvido na troca de diamantes por armas. O drama se passa em Serra Leoa e trata da realidade sangrenta que envolve a extração e o comércio da pedra preciosa em países africanos dominados pela guerra civil. E o diretor aproveita ainda para mostrar outra dura realidade africana: a formação de exércitos infantis.

É uma pena que o diretor Edward Zwick seja um especialista em cinema-espetáculo e que por isso mesmo tenha optado por diluir o conteúdo político de Diamante de Sangue em puro entretenimento. O que o espectador encontra, em quase todo o filme, é a ação trepidante, diálogos farpados da história amorosa, vilões caricatos, regeneração do protagonista e a fatídica cena de tribunal ou mais especialmente no caso deste filme, de tribuna.

Não se pode negar também que no meio da correria do contrabandista Danny Archer (Leonardo Di Caprio) e do pescador Solomon (Djimon Hounsou) por um enorme diamante cor-de-rosa, Zwick se preocupou em abordar o sentimento de culpa que os países ricos têm em relação à África, dilapidada e envenenada à época da colonização. Esse sentimento é personificado pela repórter americana Maddy (Jennifer Connelly), veterana de coberturas na Bósnia e no Afeganistão.
A missão da jornalista é revelar ao mundo a trilha sanguinária das pedras, que envolve governos corruptos, empresários imorais, forças paramilitares e nativos escravizados. Mas a moça é vitimada pelo desencanto. Quando Danny insiste em que ela auxilie Solomon, ela diz: "De que adianta ajudar só uma pessoa?". E quando se encontra diante de um campo de refugiados, ela lembra que a TV dos EUA vai mostrar a situação dos africanos durante "um minuto entre os esportes e a previsão do tempo". A autocrítica de Maddy pode ser estendida aos próprios espectadores que espremem a sessão de cinema entre compras no shopping e um chopp gelado. E também a Edward Zwick. Será que, optando pelo cinema-espetáculo, ele não estaria mais interessado no lucro das bilheterias do que realmente na denúncia da trilha sangrenta dos diamantes extraídos na África?

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informações

Autoria
Tacilda Aquino
Ficha técnica
Filme: Diamante de Sangue ( Blood Diamond)
Direção: Edward Zwick
Elenco: Djimon Hounsou, Leonard Di Capprio, Jennifer Connelly.
Distribuição: Warner Bros Pictures
Comentário: Tacilda Aquino
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João Miguel
 

Gostei bastante da crítica, tanto pela maneira como foi escrita como pelos pontos levantados.
Quanto à questão final, você tem que concordar com os outros títulos mencionados sobre a África de 2005 também são mais cinema-espetáculo que denúncia. E Hotel Ruanda denunciou um evento que já aconteceu, mesmo que ocorram outros no mesmo continente neste exato instante.
Na minha jovem e inexperiente cabeça, não vejo muita diferença entre cinema-denúncia e documentário. Também não vejo o cinema a denunciar os acontecimentos "anti-humanos" do mundo e as pessoas revoltadas, agindo contra eles. A tv diariamente passa imagens de guerras, conflitos e abusos humanitários. Essa denúncia é, porém, em meio a outras temáticas, e os noticiários normalmente acabam com uma boa notícia, para que o telespectador siga "feliz". Ora, até mesmo ao nosso redor há abuso humanitário, há uma puta desigualdade social que gera crimes e violência. Mesmo assim, a lógica do sistema é que fiquemos parados, acho que é alienação mesmo. Como se devêssemos mesmo deixar os políticos e os "C.E.O.s" resolverem as guerras que eles próprios estimulam (direta ou indiretamente) - ah! e, mesmo que saibamos que criam guerras, o que dá pra fazer?
Às vezes me pego tentando imaginar como se sente Michael Moore, por exemplo. O que ele queria com "Fahrenheit"? Não houve grandes mobilizações contra o presidente no sentido de um impeachment, por exemplo. Até porque colocaria o país numa instabilidade maior. Mas e aí? Ele fez bombásticas denúncias e -preciso ressaltar- durante o acontecimento. Quem tinha o poder ainda tem.
Sinto que fui muito cético - além de falador -, porém foi porque realmente gosto desse tema e de discuti-lo também. Acredito em cinema-denúncia, apesar de não esperar exatamente uma ação. É preciso fazer, é preciso mostrar, denunciar, informar. E sempre se consegue atingir plenamente alguém e é para isso que se faz. Faz-se a diferença com aquele alguém, por isso deve haver força, motivação e esperança.

João Miguel · Fortaleza, CE 23/2/2007 17:21
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Tacilda Aquino
 

Você tem razão a respeito da maneira com que a TV mostra as mazelas do mundo ´Diamante de Sangue fala disso quando a repórter diz quea TV vai mostrar a situação dos africanos durante "um minuto entre os esportes e a previsão do tempo". O que se há de fazer? Nunca se pode esquecer que o cinema tem uma lógica meio doida. Lembra da cena de Di Capprio conversando com a jornalista pelo telefone, quase no final do filme? Porque os mercenários não o atacam enquanto ele está no telefone? Quer mais? seu telefone celular pega nos ermos do mundo, quando você mais precisa? That's enternaiment!!!!

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 25/2/2007 16:18
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