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Na varanda com Cida Almeida

fotomontagem Adroaldo Bauer
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Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS
3/12/2011 · 6 · 5
 


Nessa edição 145 do nosso Fala Brasil!, prazer tenho em dar conta de uma leitura que nos chega e nos basta e delicia e extasia e convoca lembranças e fantasias de meninices interioranas e de um mundo que não mais é e nunca deixou de ter sido.

É de Cida Almeida, esse: Na Varanda de Riobaldo, 2011, Editora Kelpes.

Escritora em prosa e verso de Goiás, já entrevistada aqui quando do lançamento do seu belo livro de poemas, forte, delicada e caprichada publicação de estréia dela no mundo da literatura impressa, que já compartia nos trilhos virtuais: o Flor da Pedra, 2008, Ed. Kelpes.

Jornalista, conhecedora e afeiçoada por demais à nossa língua, aplicada estudiosa dos caminhos da criação e dos meandros perseguidos em prosa e verso por Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, tira das delicadas dobras da memória de menina uma prosa assemelhada às histórias do Rosa. O narrador de Grande Sertão Veredas, Riobaldo, expressando Guimarães Rosa e seu pertencimento ao vigor do agreste, ao Brasil profundo, dá carona e fio de meada ao desenovelo da narrativa de Cida Almeida, que faz vir de Minas Gerais, pelos sertões mais distantes e íngremes, seus avôs e uma multidão de criaturas por eles geradas, vazando rios, escalando montanhosas escarpas, flertando ao longe com o vazio dos largos planos, com a lua nos céus estrelados ou com o sol se pondo, ao canto marcante e suave de pássaros, bordados os horizontes novos por umas resistentes belas flores do sertão.

Ou – e também – por desconhecidos e agourentos crucrus e roncos ferazes de arredios animais adivinhados em vivo trás as matas, ou em sonhos, mesmo acordados das personagens reais relembradas, a dura lida de tropeiros reposta em arguta relembrança que nos cativa mesmo antes de saber do primeiro aboio, ou de risco grande algum.


Estruturado em partes, que se bastam cada uma, quase que cada breve nota, Na Varanda de Riobaldo há: Na Parte I - Pessoas e imaginações sobre pessoas, Carta a Mário de Andrade, o escritor serelepe, Minha primeira vez com Mário de Andrade, A travessia do sertão de Hugo de Carvalho Ramos, Estrela de uma vida inteira, A borboleta pousada, Um furacão chamado Hugo Rodas, O claro enigma de Gabriel. Na Parte II - O cosmos é logo ali, Pentimento da lua, Sobre o tempo e as tempestades, A alma das Pedras, A caverna, O ato de transformar dor em flor, A razão do chocolate, O movimento da vida, e na Parte III - Palavras rosianas: A alma das palavras, Com as cores da alma, Escrever, o ato de viver o texto, Varanda lírica – na trilha de Guimarães Rosa, Na varanda de Riobaldo, O sertão de tropas e boiadas, O país dos horizontes (Araguari, 1944, carro de boi 108).
Se há ainda aqui alguém que porventura duvide que tire a prova e me contrarie, que até feliz fico, porque mais inteligência foi encontrada:

Na varanda de Riobaldo


Vivi puxando difícil de difícel, peixe vivo no moquém: quem mói no asp’ro, não fantaseia/
Viver é negócio muito perigoso...
(Grande Sertão: Veredas – João Guimarães Rosa)


Difícil de difícel. A primeira vez que li a estranha e elaborada ex¬pressão do inventivo Guimarães Rosa tremi nas bases, como se uma abelha zumbisse no meu ouvido, entre encanto e perigo, fascínio puro e cristalino. E nunca mais se desgrudou, com sua sonoridade bruta, absoluta e uma im¬pressão profunda na alma, a constatação de um obstáculo que exigisse mais que a força do machado e dos golpes. Antes, implorando uma delicadeza de movimentos, do pensamento e de todos os sentidos, para penetrar com alguma nobreza o insondável, as melancolias de Riobaldo no range rede do sertão universal. Mentalmente e em voz alta, dependendo da ocasião, grito, balbucio, rabisco a giz, com a brancura virgem da palavra ainda inexistente; e a carvão, a síntese de toda combustão, e até nas águas da correnteza desses dias estrangeiros um difícil de difícel, equivalente ao que dor, que pétala, que flor! E range a rede e range a alma na impossibilidade de consumir a água ou desfazer o barranco. Contemplo a cachoeira e incorporo o ímpeto de suas quedas na tentativa de compreensão.
E a propósito de me colocar assim, desprotegidamente, na varanda de Riobaldo, é que aquela abelha futriqueira zumbiu atrás de um pensa¬mento e colocou à minha frente o barranco do difícil de difícel. Pensei: Difícil. E veio com o complemento difícel... Difícil de difícel.
Difícil lidar com as perdas. Mais difícil ainda ruminá-las em busca de compreensão plausível para o que na maioria das vezes sequer carece de explicação. Algumas perdas são brutas mesmo. Golpe de machado na ma¬deira temperada para o corte – mais cedo ou mais tarde. O nosso intervalo é uma fibra breve. E lá vai um pedaço essencial ou a essência mais profunda de nossas crenças na correnteza que tudo leva e às vezes não lava. Mas não é sobre as perdas brutas o meu difícil de difícel de hoje. Rumino com o diabo das perdas imperceptíveis, essas que vão se desatando dentro dos nós cegos que não enxergamos no correr da vida e dos dias.
Arrasto ainda essa corrente triste pela sala onde reconheci os vestígios de uma perda essencial, manhã de uma roseira despelada pela noite densa de um formigueiro que só eu, imperdoavelmente, não vi. E não vi porque a inteireza do meu encanto pulsava com a força sempre renovada da cachoeira. Difícil esse acordar no meio de um sonho bom e reconhecer nele uma ilusão, um engano prolongado demais. E mais difícil ainda é recolher os vestígios dentro do formigueiro ignorado, aquilo que era meu e só meu, uma grandeza reduzida a migalhas na festa de dias alegres e risadas expan¬sivas, despreocupadas, sem essa falta de sossego no range-range da rede.
Difícil, mas o difícel é ver outra batida no compasso do mesmo coração onde fundamos o nosso reino encantado. É galopar por esse rei¬no e chegar ao lugar incômodo do cercadinho, o intocável, que mesmo no deslindável e indizível dos dias nos atormenta com seus ruídos atra¬vessados. E ali, bem diante do nosso nariz, o pedaço vazio, o buraco do eterno tropeço, uma estranha epígrafe no encantado da nossa história. Um doce pelo meu pensamento? Dois doces pelos seus. Nunca mais galopes confiantes na amplidão do território sem fronteira, a geografia sem limite das palavras amorosas, onde esticava o horizonte a meu bel-prazer e flutuava. Nunca mais minhas palavras com a leveza de pluma daqueles dias plenos de encantamento. Nunca mais e esse avesso difícil de difícel.
E o diabo é que dói e queima e não há brisa na varanda e nem dentro das palavras que amenize a falta que a essência desse pedaço roubado me faz! Arre, Ave Maria, cheia de graça e Rosa.


Cida Almeida nos traz a chave pedida por Drummond na procura da poesia. E o faz com a narrativa suave e precisa de trechos que nos aproxima do conteúdo rude por uma conversa às vezes angustia, sempre singela de prosa de varanda em fim de tarde, ao cálido sol poente. As portas se abrem rangendo gonzos de um passado não muito distante, presente nas lembranças da construção de um mundo com a marca universal do peculiar.

Na Varanda de Riobaldo é o livro de Cida Almeida convidada da Coleção Goiânia em Prosa, da Secretaria de Cultura da Prefeitura Municipal de Goiânia, PUC-Goiás e Editora Kelps. Contato com a autora pelo e-mail: cidaalmeida13@gmail.com , Com a editora: www.kelps.com.br: Rua 19, nº 100 – St. Marechal Rondon CEP 74.560-460 – Goiânia – GO - Fone: (62) 3211-1616 - Fax: (62) 3211-1075 - E-mail: kelps@kelps.com.br


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Autoria
Adroaldo Bauer Corrêa
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Cida Almeida
 

Adroaldo, meu amigo, fui avisada pela Claudia Rangel dessa postagem lá no Face, mas passei mais de 10 dias viajando e não tive como comentar. Vim agora, meio às pressas, como se diz por aqui. Foi mais do que uma grata surpresa, foi um susto mesmo. Mais uma vez, agrade_cida pela leitura, pelo comentário, mais do que generoso, e por ter devolvido o olhar, e numa varanda tão ampla e arejada como esta do Overmundo. Ah, como posso ter um exemplar do Fala Brasil? Você é um convidado especial na minha varanda lírica, onde gosto de estar sempre em muito boa companhia. Nos falamos depois, por e-mail.
Beijo grande.

Cida Almeida · Goiânia, GO 7/12/2011 15:25
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Adroaldo Bauer
 

Querida poeta e proseadora Cida amada Almeida, ter o Fala Brasil é só questão de enviar o endereço e selos pra redação, pedindo o exemplar pra Rô Scherer. Ou te envio um, que ainda não peguei eu o meu exemplar. Tenho acompanhado teu périplo, tropeira das letras nossas. Sucesso!

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 7/12/2011 17:53
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azuirfilho
 

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS
Na varanda com Cida Almeida

Mestre Escritor e Poeta, Saudação
Inpressionante o seu Poder de expressão que com facilidade e rápido nos descortina um universo da complexidade Humana.
Verdadeira lição pra gente enxergar a vida.
Parabéns pelo Trabalho.
Abração Amigo para todos.

azuirfilho · Campinas, SP 7/12/2011 20:35
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Adroaldo Bauer
 

Muito grato, sempre gentil Azuir.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 10/12/2011 00:15
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Cintia Thome
 

Parabéns mestre Adroaldo
Tenho entrado pouco para comentar, mas sempre gentil e criterioso em seus posts. Viva a Cida Almeida. abs

Cintia Thome · São Paulo, SP 14/12/2011 14:08
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