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Na varanda de Riobaldo
Cida Almeida · Goiânia (GO) · 20/5/2007 19:46 · 116 votos · 3 comentários ·  
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overponto
Leo Iran - a teia que se forma no miolo da flor de cactus


(...) Vivi puxando difícil de difícel, peixe vivo no moquém: quem mói no asp’ro, não fantaseia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei neste gosto, de especular idéia. O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água se caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso...” Grande Sertão: Veredas (João Guimarães Rosa)



Difícil de difícel. A primeira vez que li a estranha e elaborada expressão do inventivo Guimarães Rosa tremi nas bases, como se uma abelha zumbisse dentro do meu ouvido, entre encanto e perigo, fascínio puro e cristalino. E nunca mais se desgrudou, com sua sonoridade bruta, absoluta e uma impressão profunda na alma, como a constatação de um obstáculo que exigisse mais que a força do machado e dos golpes. Antes, implorando uma delicadeza de movimentos, do pensamento e de todos os sentidos, para penetrar com alguma nobreza o insondável, como as melancolias de Riobaldo no range rede do sertão universal. Mentalmente e em voz alta, dependendo da ocasião, grito, balbucio, rabisco a giz (com a brancura virgem da palavra ainda inexistente) e a carvão (a síntese de toda combustão) e até nas águas da correnteza desses dias estrangeiros um difícil de difícel, equivalente ao que dor, que pétala, que flor! E range a rede e range a alma na impossibilidade de consumir a água ou desfazer o barranco. Contemplo a cachoeira e incorporo o ímpeto de suas quedas na tentativa de compreensão.

E a propósito de me colocar hoje assim, desprotegidamente, na varanda de Riobaldo, é que aquela abelha futriqueira zumbiu atrás de um pensamento e colocou à minha frente o barranco do difícil de difícel. Pensei: Difícil. E veio com o complemento difícel... Difícil de difícel.

Difícil lidar com as perdas. Mais difícil ainda ruminá-las em busca de compreensão plausível para o que na maioria das vezes sequer carece de explicação. Algumas perdas são brutas mesmo. Golpe de machado na madeira temperada para o corte – mais cedo ou mais tarde, o nosso intervalo é uma fibra breve. E lá vai um pedaço essencial ou a essência mais profunda de nossas crenças na correnteza que tudo leva e às vezes não lava... Mas não é sobre as perdas brutas o meu difícil de difícel de hoje. Rumino com o diabo das perdas imperceptíveis, essas que vão se desatando dentro dos nós cegos que não enxergamos no correr da vida e dos dias.

Arrasto ainda essa corrente triste pela sala onde reconheci os vestígios de uma perda essencial, manhã de uma roseira despelada pela noite densa de um formigueiro que só eu, imperdoavelmente, não vi. E não vi porque a inteireza do meu encanto pulsava com a força sempre renovada da cachoeira. Difícil esse acordar no meio de um sonho bom e reconhecer nele uma ilusão, um engano prolongado demais. E mais difícil ainda é recolher os vestígios dentro do formigueiro ignorado, aquilo que era meu e só meu, uma grandeza reduzida a migalhas na festa de dias alegres e risadas expansivas, despreocupadas, sem essa falta de sossego no range-range da rede.

Difícil, mas o difícel é ver outra batida no compasso do mesmo coração onde fundamos o nosso reino encantado. É galopar por esse reino e chegar ao lugar incômodo do cercadinho, o intocável, que mesmo no deslindável e indizível dos dias nos atormenta com seus ruídos atravessados. E ali, bem diante do nosso nariz, o pedaço vazio, o buraco do eterno tropeço, uma estranha epígrafe no encantado da nossa história.


(Veja íntegra do texto no anexo para download).


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Autoria   Cida Almeida
Ficha Técnica  

Todo escritor tem uma voz interior poderosa. Penso que é esta voz que o conduz pelo difícil e emaranhado caminho da escrita, onde tem de descobrir o encantamento do sertão de dentro para dar a materialidade da palavra aos sentimentos, à essa oracular escuta interior. Lendo e relendo Grande Sertão: Veredas reconheci em Riobaldo o arquétipo dessa voz interior, o narrador universal que nos habita desde as noites profundas da caverna, com ou sem o calor do fogo... E sempre que penso em Riobaldo, ou quando ele futrica alguma coisa dentro de mim, vejo-o no range rede da varanda, a imensa varanda lírica do nosso sertão encantado. E chega de prosa...

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Cida, Nunca chega de porsa quando esta prosa é sua.
Comecei a ler o texto e começo a pensar que você é o "meu" Riobaldo, a sacolejar coisas, pensamentos, retalhos aqui por dentro da minha alma que ser quer poeta (como escrevi em algum poema, por aí).
Vou ler tudo nesta paz de domingo e solidões.
De já, eu sei... é tudo encanto.

beijos
Saramar · Goiânia (GO) · 20/5/2007 13:22 
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É, você só nos mostra coisa gotosa, eu adorei. Parabéns.
Carlos Magno.
carlos magno · Rio de Janeiro (RJ) · 23/5/2007 00:01 
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Nossa, que lindo! Parabéns.
Miriam Danowski · Armação dos Búzios (RJ) · 27/9/2008 16:09 
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