Não era vinho tinto

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ignis liberati · Porto Velho, RO
11/9/2006 · 132 · 18
 

Fixada na parede a placa comemorativa do centenário dizia que era o mais antigo, fundado em 1882. Saí à cata de um canto onde batesse pouco ar condicionado. O restaurante estava cheio. Nas mesas, o vinho tinto encorpado nas taças era de um escuro sólido. O vinho branco mostrava através do cristal a transparência verde da uva. A água, cristalina e fria, condensava e formava trilhas tortuosas que terminavam na toalha branca de algodão regional.
Lá fora corria o tempo de um outro mundo. As pessoas, sentadas no batente das portas, na calçada ou no corrimão da ponte, estavam tostadas do sol seco. Em algumas um filete grosso de suor, nascido dentro da cabeleireira, escorria pela face úmida e oleosa. Os olhares eram vagos. Não havia sorrisos. Havia bocas com expressão de nenhuma alegria. O gesto era como a cena do cinema mudo. As pessoas faziam movimentos com os lábios, abriam os braços, como asas inúteis para voar. Eu via o silêncio lá fora.
"Quero este vinho aqui: Grão Vasco Tinto, 1998. E uma água sem gás. Resfria o vinho, por favor”. Na mesa ao lado um sujeito, com a taça do mesmo vinho pela metade, olhava distraído a lista das sobremesas. Percebi um movimento na diagonal esquerda. Olhei e vi uma armadura de alumínio brilhando de polida. Era igual à dos cavaleiros das cruzadas da idade média. Era uma armadura estranha, destoando do lugar, do piso de cerâmica e do teto rodeado de sancas luminosas. Não havia nenhuma antiguidade ali. Só ela. A cabeça estava ligeiramente inclinada para o lado, com uma inércia dos inanimados.
Peguei a rolha de cortiça do Dão Vasco, levei ao nariz como quem entendia alguma coisa de vinho. Senti um aroma azedado de madeira nova molhada. Agradável. Pareceu-me que de dentro da viseira dois olhos me miravam. Notei um brilho e um movimento rápido de abrir-e-fechar de olhos. Segurando a taça grande de cristal, a ergui entre os dedos, sem tocar a copa, onde ficava o vinho. Fitava a armadura. Tinha a impressão de que ela mudava de posição. Ora as pernas mais arqueadas ora os braços mais para trás. "Diziam que essas coisas pesavam um bocado". Balbuciei.
Li o rótulo da garrafa. O vinho era da região de Dão, centro-norte de Portugal, província de Beira Alta. Era de uma coloração rubi, corpo redondo e consistência aveludada na boca. Pela maciez e suavidade, diriam que fora convenientemente envelhecido.
Tive a certeza de ouvir um barulho seco de metal, atritando com outro metal, e de uma batida seca no chão. A minha certeza foi confirmada pelo movimento de cabeças das pessoas da mesa à frente, de uns degustadores profissionais de vinho, cujo congresso se realizava ali. Todos girando ao mesmo tempo, tentando localizar o barulho às suas costas. Seguiu-se um silêncio constrangedor. Até se podia ouvir a respiração dos presentes. A armadura parecendo maior e mais leve deu um passo à frente. Eram passos como os de um dançarino de tango. A cabeça moveu de um lado para o outro. A espada fez um movimento circular em velocidade incalculável.
Pensei que era simplesmente um show, para agradar a clientela. Não era.
Na mesa vizinha, o sujeito olhava espantado para a sobremesa. Nas mãos vi uma fatia de cartola, banana da terra amassada, coberta de canela e massa de queijo derretido. Bem no centro branco do queijo havia uma imensa gota de vermelho vivo, que não era vinho tinto.

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Autoria
ignis liberati
Ficha técnica
Conto. Em um restaurante, supõe-se que um cavaleiro se reanima dentro de uma velha armadura do tempo da idade média, saca a aspada e desfere um golpe mortal. Da vítima cai uma gota de sangue na sobremesa de alguém.
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Roberto Moreno
 

Excelente!

Gostei muito do "saí à cata de um canto" e da conclusão implícita.

Se aceita um palpite, gostei menos do "o vinho tinto encorpado nas taças era de um escuro sólido". Eu diria... "o vinho tinto encorpado nas taças, escuro sólido".

Abraço

Roberto Moreno · São Paulo, SP 10/9/2006 13:31
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ignis liberati
 

Roberto Moreno, muito bom o seu palpite. Claro que aceito a sugestão. A idéia é mesmo essa de dar ao texto a forma que facilite captar a sensação que quer transmitir.

ignis liberati · Porto Velho, RO 11/9/2006 00:25
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Daniel Duende
 

Muito bom texto, Ignis. Gostei! :)

Continue com o excelente trabalho. Sua prosa é arejada e leve. Gosto disso.


Abraços do Verde.

Daniel Duende · Brasília, DF 11/9/2006 15:55
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
ignis liberati
 

Daniel, fico feliz por seu elogio. Sem dúvida que é um estímulo. Obrigado.

ignis liberati · Porto Velho, RO 13/9/2006 01:22
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Patrícia Alcântara
 

Muito bom!

Patrícia Alcântara · Cuiabá, MT 16/10/2006 19:02
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Patrícia Alcântara
 

Muito bom!

Patrícia Alcântara · Cuiabá, MT 16/10/2006 19:02
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ignis liberati
 

Um elogio é como uma taça de um bom vinho: degustamos. Sua opinião me agradou muito, Patrícia.

ignis liberati · Porto Velho, RO 24/10/2006 01:09
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jvc
 

Um conto bom como este é como uma taça de vinho tinto da região do Dom. Desce fácil e nos deixa extasiados ao final.. mas tristes, porque acabou.
Quando voce abrirá outra garrafa para nós?

jvc · Brasília, DF 9/1/2007 23:12
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ignis liberati
 

jvc, é bom saber que vc gostou do texto. Melhor ainda se ficou um gostinho e uma lembrança. Espero não demorar muito para a próxima taça.

ignis liberati · Porto Velho, RO 21/1/2007 00:30
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Tacilda Aquino
 

Gostei. E votei.

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 16/6/2007 08:09
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ignis liberati
 

Obrigado, Tacilda. Até breve com "Ao rés do chão jazia o sujeito impertinente".

ignis liberati · Porto Velho, RO 19/6/2007 22:23
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Humberto Firmo
 

Tim! Tim!
*
Da melhor safra.

Humberto Firmo · Brasília, DF 14/8/2007 19:51
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ignis liberati
 

Tim! Tim! meu caro Humberto. Obrigado pela visita. Até breve.

ignis liberati · Porto Velho, RO 17/8/2007 00:51
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Frazão Brother
 

Grande contista,
Descrições perfeitas e nobres que transbordam a taça das metáforas e um degustar "tinto" no clímax do susto final, trágico na gota. Embriaguei-me de deleite. Parabéns, ainda, pelo fértil imaginário, Ignis.
Sabes, confrade contista, em 2003, mesmo distante, representei PVH no concurso da UFPA e a cidade foi premiada com o conto - O Guia de Cego (consta da antologia Os 11 contistas da Amazônia, que está na biblioteca daí, perto da Matriz, ao lado da prefeitura).
Agora tive outro conto premiado no mesmo concurso - que publiquei aqui. Quando tiver um tempo, dê uma olhadinha, sem "avexamento" rs.
abrs

Frazão Brother · Anastácio, MS 5/10/2007 11:10
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Frazão Brother
 

Ignes,
No comentário acima esqueci de colocar o link. Eis...
http://www.overmundo.com.br/banco/admirador-secreto

Frazão Brother · Anastácio, MS 5/10/2007 11:11
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ignis liberati
 

Legal, Brother. Gostei de sua visita. Acabei de ler o seu ADMIRADOR SECRETO. Ótimo, soa bem rondoniense nos tempos aureos da borracha.

ignis liberati · Porto Velho, RO 9/10/2007 23:03
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Alice Poltronieri
 

Olá Ignis, gostei muito do seu texto e já votei.
Parabéns!
Porto Velho, né? Prazer.
bjuuusss...

Alice Poltronieri · Porto Velho, RO 17/3/2008 17:49
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ignis liberati
 

Obrigado, Alice, por sua visita e beijos. Porto Velho, sim, por que não? Estive um pouco ausente, viajando pelo interior. Breve estarei retornando com alguns continhos.

ignis liberati · Porto Velho, RO 3/5/2008 01:49
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