Apesar do sábado ensolarado que fazia em Tel Aviv, não me sentia animado a sair pra rua. O prazer do sol na pele, não compensava o desgaste do medo de ser abordado pela polícia. Só o mal era possível me levar ao mal. Assim, saí de casa para comprar cigarros.
Saí como sempre saía, sem nenhum documento. Era mais seguro uma vez que havia uma imensa invasão de novos israelenses provindos da Antiga União Soviética e arredores, e eu, era facilmente confundido com romeno, russo, polaco, alemão... Menos com palestino. Portanto, se polícia viesse, era só enrolar a língua e me fazer de bêbado.
E se isso não funcionasse, eu estava lascado! Estávamos no auge da segunda intifada, os palestinos estavam proibidos de entrarem em Israel, e eu havia entrado ilegalmente. Hoje, o que mais se vê nas ruas de Israel são os novos imigrantes caindo de bêbados nas sarjetas.
Na volta, já com o segundo cigarro aceso na boca, tive que me encostar ao muro para que uma ambulância pudesse passar sem me atropelar naquela pequena ruela. Parando logo adiante.
Não resisti à cena, pois achei que a polícia logo chegaria para levar aquele brutamonte que gritava e esperneava enquanto dois para-médicos tentavam segurá-lo. Havia uma mulher desmaiada no chão e outra em pé aos prantos, sendo atendida por outra para-médica. Eu estava recém aprendendo o hebraico, não conseguia entender o motivo da algazarra. Por isso pensei: O grandalhão deu uma surra na mina desmaiada e a outra deve ser a irmã dela. Fiquei curioso pra ver a polícia israelense agindo com um cidadão israelense, uma vez que eu já havia visto várias vezes como agem com os palestinos.
Estranhei a demora da chegada da polícia, enquanto percebia a reação das fisionomias dos que chegavam. Nesta altura, eu já estava sentado em um degrau traseiro de uma Van, que me oferecia uma refrescante sombra. Comecei a entender que a mulher que era amparada pela equipe médica gritava repetidamente, a mesma coisa que o brutamonte que era contido por dois homens gritava: Pai! Pai! Pai!
Eram três irmãos chocados com a morte do pai. Passei a enxergar a minha filha naquela mulher desesperada. Enxergar o meu filho naquele pequeno garoto de corpo imenso. Passei a enxergá-los no dia da minha morte. E vi o sofrimento deles.
Quando me dei conta, eu estava chorando compulsivamente, sentado no degrau daqule Van preta.
As pessoas, me confundindo com parente do falecido, vinham passar a mão na minha cabeça e me consolar enquanto tentavam enxergar através do vidro fumê daquele carro funerário, o defunto que lá dentro estava. Quando algumas pessoas tentaram me levar para dentro da casa, vi que era hora de dar no pé.
Cheguei em casa com a cara inchada de chorar e sem saber como explicar para o meu colega de apartamento o que acontecera.
Foi um sofrimento muito sofrido daqueles irmãos. Que nunca os meus filhos sofram daquele jeito. Nem no dia da minha morte!
O grito da perda é sem som Kais.
Brilho em minha face.
A morte tem vida dentro de mim e as vezes fico feliz com isso
pois meu filho primogênito está em paz...não está sendo usado por ninguém e nem por mim como mãe ou como pai...Estaria com 23, mas o valor da morte é escandalo em nossos corações, difícil aceitar, mas a vida temos ter que aceitar só o que nos conduz ao belo , a verdade, ao bom carater....
Perdi meu honrado pai com 8 anos, mas não entendia...entendi dias depois, pela ausencia, pelo vazio, do nunca mais.Fez-me falta, tive que lutar dobrado, pois a mão de um pai na vida é preciso em uma simples briguinha na escola como um ombro para encostar e se sentir plenamente feliz.
Di go aos meus filhos, defesa é com um abraço ou com um simples adeus
Pois o violento devemos deixar para atrás...ele morre sozinho ou encurralado em tua falta de carater, adoece a alma, fragiliza seu espírito.Vai vagar...
Falei demais...rs
Bela foto.
abçs.
Falou o suficiente para me fazer chorar.
Abraços
Estou aqui sentindo cada palavra.
(...) Saí p/ fumar, e ainda não consigui formular uma resposta. Talvez eu não a tenha mesmo. Resposta, p/ perda, p/ dor; sempre queremos resposta p/ tudo.
Imprimi o texto, Kais e o comentário de Cintia deixei em cima da cama de minha mãe, logo volto pra contar a reação dela.
beijos
Bem Kais,
Quanto ao conteúdo do postado em si, quando minha escola entra na avenida, gritamos:
- eu sou amigo até pra chorar.
É um planeta, uma só espécie humana e, assim como a propriedade privada de meios e bens e a miséria material e moral dela decorrente, morte é morte em qualquer parte e tudo volta ao pó.
A arte, que o espírito cria, perene, pode sobreviver milênios, defendida por quem pretende a humanidade íntegra e em paz, não dilacerada, corrompida e em guerra.
Sabemos que o regime de exploração do trabalho é que atua para a divisão dos que só somos trabalhadores, numa Babel crescente.
Quanto ao postado, sugiro criar parágrafos, mesmo artificiais, mais curtos, intercalares com alguns inter-títulos ou achureados em negrito.
E que corrijas a grafia da palavra
em: compulsivamente, sentado no degrau daqule Van preta para daquela
Em relação ao conteúdo, acho uma temeridade afirmares um provável curso natural das coisas, uma vez, nos alerta Brecht, que nada é natural, e retiraria do texto a frase a seguir:
Pelas previsões de minha morte, ela teria aquela idade.
Se tiveres um tempo, te incentivaria a ler cuidadosamente uma outra vez para evitar separar sujeitos de predicado por vírgula, que há alguns assim separados no postado.
Alguns não querem que digamos - e estão no direito de querer -, mas volto para votar, que ainda é possível.
Té!
Kais, lindo o teu texto, porém, muito triste também!
Só quem ver de perto cenas tão chocantes e verídicas, pode sentir no âmago a dor por tamanhas perdas. São vidas que se esvai em sagrentas lutas. Para mim, nada justifica a guerra, nem mesmo pela paz!
Para nós, pais e mães. Sentimos na alma, no ventre ador pelos nossos filhos. E repito com vc: "Que nunca os meus filhos sofram daquele jeito. Nem no dia da minha morte!"
AMÈM!
é....
tudo isso que já foi escrito. não expressa nada diante da dor, do medo , de sentir essa profunda dor, ou mais, de provocar essa dor, mesmo que seja involuntário,
disseram tudo, ou nada disseram,
aliás, quantas palavras são suficintes para comentar algo como isso?:
^Kais, obrigado pelo convite, a estoria e muito interessante, quanto aa correcao, acima ja esta com o nosso professor maior, nao precisa de mais ninguem, Parabens, me convide pra votar
victorvapf · Belo Horizonte, MG 6/12/2007 16:41
Kaiss, por enquanto fiquei na imagem e no segundo parágrafo.
e vou voltar, amanhã antes de ir pro parque vou reler, melhor ler todos. um abraço, andre.
Kais,
Muito bom texto!
A foto é realista e adorável.
Abçs.
Kais,
como seria bom se pudéssemos evitar o sofrimento daqueles que amamos... No entanto, não temos este poder. Nem devemos antecipar os sofrimentos. O tempo e os nossos ensinamentos tornarão fortes aqueles que julgamos frágeis...
Nós suportamos a vida e a morte... eles suportarão...
beijo
A foto... sem comentários. Família de artistas...
Nydia Bonetti · Campinas, SP 6/12/2007 19:08
Kais Ismail · Porto Alegre (RS) ·\
Uma passagem incrível por um lugar incrível.
O Sentimento da Passagem é muito sentido principalmente pelos filhos.
Por mais que se tenha fé e que acredite na eternidade, a perda física é sentida pelos que amam.
Valeu o seu texto.
É pra gente fazer reflexáo e consolidar na família a fé na eternidade.
Melhor do
Continuação
ficar esperando no que vai dar.
É fazer como Maria e interceder antes.
Construir a consciência e o sentimento.
Parabéns por esta grande Contribuição para o Overmundo.
Abração.
Kais,
Emoção na dose certa, na veia.
De resto, as sugestões do mestre Adroaldo são totalmente pertinentes. A maioria visam, como você já sabe, valorizar o impacto visual do texto, o que, é meio caminho andado para se atingir o ponto certo da alma do leitor e virar mesmo um post com tudo a ver.
Abs
Lais,
temos que parar de fumar, hein?
Beijos
Adroaldo,
sem palavras pelas tuas palavras...
Muito obrigado!!
Um forte abraço
Branca,
não vejo a hora de fazer o ensaio da Yôga para lhe homenagear. Só assim eu aproveito e fico Zen.
Um beijo no coração
C.fishing,
"é....
tudo isso que já foi escrito. não expressa nada diante da dor, do medo , de sentir essa profunda dor, ou mais, de provocar essa dor, mesmo que seja involuntário,
disseram tudo, ou nada disseram,
aliás, quantas palavras são suficintes para comentar algo como isso?:"
Vc está coberta de razão!
Beijos
Victor,
não vou lhe convidar nada! Só a sua presença aqui e agora já valeu!
Um forte abraço
Nydia,
O que vc comentou, é a mais pura verdade.
Um abraço carinhoso
Azuir,
sempre tão meigo, tão necessário...
Um abraço carinhoso
Spírito Santo,
eu aprendo com o tempo...
Um forte abraço
Ah! Kais
Agora que vi tua resposta...
Estou a viajar e pouco tempo tenho
feliz Natal e ano novo repleto de amor com sua familia.
Kais, muito bom e seu texto. Quanto as correções o Adroaldo já deixou as dicas.
História triste mas a realidade é assim, todos vamos morrer um dia e nossos filhos irão sofrer muito sim, alguns menos, outros mais. Me emocionei ao pensar.
Bem, 10 nota 10.
Bj
Pessoal,
Soube que Kais está com o perfil inativo, como se tivesse sido expulso do site. É isto mesmo? O que será feito com este post e com os nossos comentários de edição (os acima e os que virão)?
Que piração é esta?
enquanto não desce o pêndulo, deixemos a cabeça de fora.
Lá vem ela...Lá vem ela...
Voltei Kais, para os merecedíssimos votos.
grande abraço
Antes que degolassem uma figueira, olhassem as outras ao redor
ou a quem julga ter mais frutos verdes...e tentassem regar , oferecendo água, não o cuspe negro da saliva corrosiva...
Por isso reerga a Figueira que dá sombra, pois quando uma adoece ou é ferida todos(as) se sentirão tristes...E assim a raça humana sobreviverá salvando a própria espécie...
(trecho de um livro a ser lançado...)
Obs:A figueira é considerada uma árvore sagrada, como símbolo de
HONRA.
É meu apelo. Pois todos nós, já sentiram a dor da primeira pedra um dia na vida...
Apelo a todos que realmente doaram minutos, horas neste site tão bacana na sua essência.
Beijos Kais.
.
Votos solidários!
beijo.
Bravo, amigo, bastante dramático, foto impecável, texto de prima, o que mais há pra falar ? Parabéns.Um Abraço meu irmão !, Alcanu
Aproveitei e votei, você merece, Shalom !
Não voltei cedo, já é madrugada quase. Mas vim reler e acabar de ler.
E de pensar por mais quanto tempo o Oriente Médio será aquilo. Submetidos os seus povos por ordem e interesses
supra nacionais, menos palestinos e afins.
um braço, andre.
Agora acabei de ler um email me avisando que o Kaiss havia sido
"expulso" do Overmundo. Estou assim meio "banzaró".
Coisa de loucos. Mas dá pra entender´- vez por outra o pessoal aqui dá umas "rodadas". Não sei, andre.
Kais,
Não podia deixar de vir, mesmo com sua ausência no site. Seu texto é dramático e muito real. A pior dor é a dor da perda, já sofri as três piores dores, perdi pai, mãe e filho. Mas, perdas muitas vezes nos fortalecem, deixam buracos enormes mas, servem para nos provar e amadurecer. Por ter sido uma experiência real, não sei se te dou parabéns, mas, acho que te devo felicitar pela coragem que vemos na tua pessoa, capaz de errar e reconhecer seus erros, capaz de cair e levantar com maior fortaleza, capaz de lutar pelo seu ideal.
Meu voto de admiração pela pessoa que vc é, talvez poucos tenha percebido o que percebi, pois minha percepção foi além do grande artista.
Shalom!!!
corrigindo: ... poucos tenham percebido o que percebi, pois minha percepção foi além do grande (artista) profissional.
Shalom!!
É como uma flor que nasce na pedra esse pranto nosso que brota na brutalidade do mundo. Quando nos vemos no outro...
Marcos Siqueira · Rio de Janeiro, RJ 9/12/2007 17:47
Kais ...isso é luta...continue a viver pra dar paz aos filhos...
o mundo inteiro já está em Guerra, silenciosa, nas urbes, nas massas, no alimento e na água...no torrão dessa terra...
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!