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NAS FILAS DO BANCO
Bruno Lira Alves · Natal (RN) · 29/9/2008 10:50 · 93 votos · 3 comentários ·  
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overponto
NAS FILAS DO BANCO
Bruno de Lira Alves.
Estudante Universitário.

Ir ao banco é sempre um tormento. É ter a certeza de que uma quantida-de significativa de minutos será desperdiçada. Para não dizer horas. É ter a cer-teza de que ele só abrirá as portas às dez horas da manhã. Às dez horas e pron-to. É bem verdade que esse horário não é tão rígido assim. Algumas medidas tomadas com o intuito quase inútil de moderar o desperdício de energia elétrica são responsáveis por fazerem os bancos abrirem e fecharem um pouco mais cedo. Os Estados que não participam do famigerado e anualmente noticiado horário de verão estão cientes disso.

O fato é que tive de ir ao banco. Caso contrário, não receberia o salário minguado do meu estágio terminal. Não que eu esteja condenado à morte, não. Faço parte do quadro de estagiários explorados, oprimidos, com direitos traba-lhistas inexistentes e com o contrato na iminência do fenecimento. A sua extin-ção significará o fim da minha remuneração diminuta. Diminuta, mas única. Única, mas diminuta. Nem tudo vale à pena, quando a remuneração é pequena. Desculpe-me, Fernando Pessoa, não queria parodiá-lo. Mas talvez valha à pena suportar um tempo quase imensurável em uma fila de banco para receber o sa-lário, já que ele é o único, apesar de ser diminuto.

Entrei na fila. Na minha frente, existiam dezenas de indivíduos com uma vontade imensa de ultrapassar a porta rotatória capaz de detectar metais míni-mos e até inexistentes. Fiquei angustiado. Porém, acalmei-me, quando percebi que, minutos depois, já havia outras dezenas que iriam entrar no banco depois de mim. Encontrava-me no meio da fila, e isso já era motivo de orgulho e con-tentamento. Tudo parecia tranqüilo, quando percebi uma movimentação súbita e algumas argumentações hostis entre dois senhores de rostos amenos na ponta privilegiada da fila. Nada grave. Tratava-se de um mal entendido, conseqüência do ambiente assaz estressante e inerente as filas do banco. Um dos senhores teve a ousadia ingênua de pedir uma simples informação a um vigilante que se encontrava inerte próximo à porta e com o peculiar semblante de desconfiança plena e ininterrupta. (Em casos como esses, é preciso o aviso prévio dos atos que irão ser praticados; caso contrário, o indivíduo pode suscitar olhares sus-peitos, atentos e preparados para a defesa da posição na fila.). O outro senhor, aparentemente mais velho e visivelmente receoso de perder o seu espaço con-quistado, resmungou: "Pode ir pro rabo da fila. Quem você pensa que é para tomar o lugar de quem chegou primeiro?!". "Eu só ia pedir uma informação", respondeu chateado o seu “companheiro” de fila.

Enquanto os nobres senhores discutiam, eu ponderava silenciosamente: o brasileiro só se manifesta na iminência de ser ludibriado na fila de um banco. Ele não suporta "um fura fila", mas não reclama das tarifas exorbitantes impu-tadas pelo banco, faz vista grossa ao montante quase imensurável de impostos mascarados e embutidos nos mais diversos produtos consumidos de maneira descomedida, decorrência de um consumismo aguçado e inconseqüente, não reclama do preço abusivo de um artigo qualquer de uma loja de grife ou de um grande magazine, mas tenta negociar com um camelô de objetos "piratas" um preço irrisório. O camelô, pressionado pela concorrência e pela mulher que o espera em casa juntamente com algumas boquinhas inquietas e ávidas por co-mida, cede às investidas do seu interlocutor-negociante que sai dizendo a si: "sou muito esperto, fiz um excelente negócio!".

Dez horas, – não no meu relógio que já marcava dez horas e cinco minu-tos –, a fila começou a sair do seu estado de inércia e impaciência e se dirigiu lentamente em direção à temida porta-giratória. O meu orgulho pueril de estar numa posição privilegiada na fila logo se transformou em frustração, quando fiquei enganchado na maldita porta, que detectou uma moedinha de cinco cen-tavos que eu me esquecera de bani-la do bolso de minha bermuda. Quando passei por ela, depois de algumas tentativas frustradas, outra fila já havia se formado, agora os caixas tinham a incumbência de atender rapidamente as pes-soas que já se mostravam importunadas e um tanto cansadas da fila anterior. "A sua situação só pode ser resolvida no primeiro andar", disse-me o gerente do banco, depois de eu encontrá-lo porventura e informá-lo sobre a situação que me afligia há algum tempo: um problema colocava em risco a minha tênue re-muneração. Segundo o solícito e cordial gerente, não se tratava de um proble-ma, mas, sim, de uma resolução do Banco Central. Assim sendo, meu caso não era singular, mas, sim, similar ao de muitos outros. Mas, por telefone, uma das funcionárias do banco me disse que, se eu não comparecesse à agência hoje, o dinheiro não entraria na minha conta. “Isso, para mim, é um enorme problema", respondi com um sorriso irritado. Depois de agradecê-lo por ter dirimido um pouco as minhas dúvidas, dirigi-me até as escadas (Os elevadores não me pare-cem simpáticos) que me levariam à solução definitiva do meu problema.

Cheguei ao primeiro andar, ofegante e ao mesmo tempo otimista. No en-tanto, fui surpreendido com outra fila, cuja extensão não pude mensurar, pois, desta vez, os enfileirados encontravam-se sentados e com uma ficha de atendi-mento na mão. Que martírio! Peguei a minha. A ficha exibia o número 42. Sen-tei-me. Era dia de pagamento dos aposentados e pensionistas do INSS e tive de abdicar do meu lugar em favor de uma senhora que me olhava com uma fúria desmedida. Eu não conseguia entender o porquê de tamanha odiosidade que se concretizava naquele rosto suave, construído pelo tempo e peculiar à grande parte dos indivíduos da propalada terceira idade. Achei melhor oferecer logo a minha cadeira, antes que ela reivindicasse os seus direitos. Realmente ela tinha motivos para isso, porque eu estava sentado nas cadeiras preferenciais para i-dosos, gestantes e portadores de necessidades especiais. "Obrigada", disse ela depois de contemplar-me com um sorriso simultâneo de gratidão e de descul-pas pela hostilidade criada por uma cadeira de banco. Não senti falta da cadei-ra, talvez por ela não oferecer tanto conforto quanto sugeria. Retornei a ficar de pé e com os braços cruzados, como os dois agentes de uma empresa de segu-rança privada que estavam dispostos em lugares estratégicos, com o único in-tuito de frustrarem uma eventual ação criminosa que pusesse em risco o impor-tantíssimo dinheiro e a vida dos funcionários do banco. Ah! A dos clientes tam-bém. Os dois agentes tinham em suas expressões e atitudes uma concomitância de seriedade extremada, temor, tensão, aflição, ansiedade, hesitação e uma bru-talidade disfarçada. Tudo conseqüência da profissão, pensei. Mas eu percebi que os seus semblantes eram desprovidos de algo muito importante: a coragem. Coitados. Tinham tudo, menos a coragem. Coitados! Agem por obrigação do oficio, ponderei novamente.

Onze horas e trinta minutos da manhã, a funcionária chama o detentor da ficha número 30. Nesse momento, o espírito da desistência inicia a sua tenta-tiva de convencer-me de que era melhor deixar para outro dia. A sede fez susci-tar o meu interesse pela água. Ela também foi um dos argumentos utilizados pelo malvado espírito da renúncia. Comecei a mirar meu olhar sobre todos os recantos do banco no desígnio de encontrar algum garrafão de água mineral. "Não é possível! Uma agência bancária como esta e não existe água?!". Não, não existia. A fome também se manifestou. A água daria para ludibriá-la por algum tempo, mas esse bem precioso e indispensável não era visivelmente oferecido aos "clientes". "E os banheiros, onde eles estão?!". Interessante, nunca havia me questionado sobre os banheiros dos bancos. Mas tanto os banheiros quanto a água devem estar em algum lugar, acredito que atrás daquela porta com o aviso "Acesso restrito aos funcionários". Afinal de contas, os "eminentes" funcionários têm as suas necessidades e também precisam retocar a maquiagem e pentear os cabelos lisos e perfeitos (no caso das mulheres), entre outras coisas importantes para a permanência de uma imagem imaculável. Encontrava-me numa situação desesperadora e flagelante. A sede, a fome, a impaciência, a irritação e o anseio de ir embora tornavam a espera um tormento insensível.

Já passava do meio-dia, o turno vespertino já se fazia presente, e eu, en-clausurado na fila do banco. Estava quase desistindo, quando fui tomado pelo espírito da persistência. Ele me convenceu a permanecer resistindo, disse-me que faltava pouco para chegar a minha vez de ser atendido e que o meu esforço seria inútil, se eu desistisse depois de tanto tempo de espera. Esperei. Esperei. Esperei. Enquanto eu esperava já envolvido há muito pela impaciência, fui sur-preendido por uma voz pausada e mansa que me desejava calma e boa sorte. Era a senhora da cadeira preferencial que disseminava e ostentava um sorriso de alívio e êxtase por ter sido atendida e ter-se livrado da fila do banco. "Até logo, até outro dia", disse sorrindo. "Até outro dia, mas não numa fila de ban-co", respondi com outro sorriso sincero. Confesso que, por alguns instantes, senti uma espécie de inveja daquele ser frágil que se despedia de maneira tão cordial. Ela estava indo embora, e eu continuava ali, parado e com a ficha 42 nas mãos. Mas a culpa não era plenamente minha, o banco e as suas filas também eram responsáveis pela ínfima inveja que eu sentia daquela simpática senhora.

Os ponteiros do meu relógio já marcavam uma hora da tarde, quando o meu suplício chegou ao fim. Um fim que eu não esperava e que jamais havia passado pelos meus pensamentos. Um fim típico dos indivíduos mal-afortunados. Um final extremamente injusto por tudo aquilo que tive de supor-tar nas filas desumanas e cruéis do banco. "Infelizmente, senhores clientes, o nosso sistema encontra-se, neste momento, fora do ar", comunicou um dos pou-cos funcionários que ainda permaneciam exercendo as suas atribuições. Falta de sorte? Talvez. Tive de voltar no dia seguinte e me aventurar novamente nas fi-las do banco.


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Autoria   Bruno de Lira Alves.
Estudante universitário.
Data   29/9/2008
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Adorei seu texto meu querido.passo e deixo meu carinho e voto.
clara arruda · Rio de Janeiro (RJ) · 19/9/2008 07:34 
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um belo trabalho.votado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca (SP) · 19/9/2008 12:28 
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Caro amigo, o Brasil todo esta "fora do ar". O poder dos donos do dinheiro e tao grande, que ninguem faz nada contra. Outro dia mesmo colocaram um banqueiro na cadeia, o que aconteceu: Soltaram o cara e demitiram quem o prendeu... Belo texto, muito bem redigido... texto limpo!
victorvapf · Belo Horizonte (MG) · 19/9/2008 20:45 
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