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Natal com a vovó dentro do computador

Gisela Blanco
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Gisela Blanco · São Paulo, SP
29/12/2008 · 98 · 6
 

Todo ano é a mesma coisa. Apesar das distâncias, dos compromissos e desencontros, o natal é a única festa que ainda consegue reunir a família inteira. Lembra daquela história da magia do natal? Ou ela existe mesmo e transforma as coisas ou é a gente que se esforça mais nessa época e sempre acaba dando um jeitinho pra fazer tudo funcionar. A minha família, por exemplo, se reúne sempre em Belém do Pará, onde mora dona Elna Trindade, a minha vovó. E todo ano é parecido: quem nunca tem tempo pra nada, por exemplo, nessa época arruma umas horinhas pra decorar a árvore, ajudar na cozinha, embalar presente, paparicar os sobrinhos que cresceram tão rápido...

E esse ano teve a minha vó, que sempre gostou de tecnologia, indo parar dentro do computador. É, isso mesmo. Como ela foi parar lá dentro? Bom, explico.

Mesmo com 77 anos, a vovó sempre teve saúde de ferro. Mas há alguns meses, ela começou a ficar doente. E aí bem no dia do natal, o coração dela começou a dar susto na gente, com uma arritmia (também, são muitas emoções, né?). A cardiologista veio visitar e achou melhor não dar espaço pro acaso: direto pro CTI. Vovó relutou, fez bico, mas resolveu ser "uma paciente muito paciente", como ela costuma dizer que é, e obedeceu. Passar justo a noite de natal internada e longe da família (não pode fazer visita no CTI) é bem ruim. Mas pior é correr o risco de morrer. Então lá foi a vovó, debaixo de uma avalanche de carinho (com 8 filhos e xx netos, é muito beijo e abraço).

E aí a vovó, que não desanima nunca, também não deixou a gente desanimar. Proibiu todo mundo de ficar triste. Ordenou que o natal fosse comemorado normalmente, com a família reunida, comilança, cantoria e Papai Noel visitando a criançada. Pediu que a gente tentasse fazer essa noite ser igual às dos anos anteriores. E lá fomos nós fazer o máximo. Por que eu não sei como é na sua casa, mas aqui, quando a vovó manda, todo mundo obedece.

Primeiro, uma das netas prometeu filmar a festa toda. A vó gostou da idéia, mas achou que não era o bastante. Pediu pra que arranjassem um computador pra ela. Um neto deu um jeitinho: levou um notebook com webcam e microfone pra CTI (é, ele teve que burlar as leis um pouquinho pra entrar lá, vai ser nosso segredo de Natal, tá?). Depois, foi só levar outro notebook pra sala de casa e tchan nan: deitadinha lá na cama do hospital, a vovó pôde ver toda a família reunida. Por videoconferência, apareceu em tela cheia e conversou com todo mundo. Mandou milhões de beijos, mostrou que estava bem e até cantou "bate o sino pequenino, sino de Belém" com a criançada. Passeou pela casa inteira nos braços dos netos. Participou do nosso natal e ficou pertinho da família, mesmo estando um pouco mais longe. E lá pelas tantas pediu às netas que gostam de escrever "não deixem passar em branco o nosso natal tecnológico!".

Verdade seja dita: a nossa vovó não faz parte do time de velhinhas que tem aversão à tecnologia. Pelo contrário. Ela passa horas navegando pela internet, manda e-mails pra família inteira, adora videogame, é mestre em Power Point, faz umas animações incríveis em Flash e não desgruda do palm top. Sempre se arma com toda a calma e paciência que só ela tem, senta em frente ao computador e fuça, fuça, fuça, até aprender. Nunca houve limites pra ela. E não seria uma CTI que agora a impediria de passar o natal com a família.

Quando a vovó pediu pra que a gente escrevesse sobre o nosso natal tecnológico, creio que não foi pura e simplesmente pra registrar e pronto. É claro que foi empolgante ter a vó com a gente pela telinha do computador, e só essa alegria já dá vontade de compartilhar. Mas do alto de sua sabedoria de vó, dona Elna queria que a gente passasse adiante algumas lições. Pode ser para que as outras vovós por aí não se assustem com a tecnologia, percebam que ela é fantástica e trabalha pro nosso bem. Ou que os netos espalhados por todo o mundo não percam as esperanças de passar o natal com suas vovós, mesmo quando parece que elas estão indo embora. Ou talvez simplesmente ela quisesse dizer pras pessoas que o espírito de natal existe e está mais vivo do que nunca. Seja na risada das crianças ganhando presente do Papai Noel, seja nos bytes que a gente envia e recebe em um notebook na noite de Natal.

Sobre a obra

Quando a vovó foi internada na CTI na noite de Natal, trouxemos ela para nossa ceia por videoconferência

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Autoria
Gisela Blanco
Ficha técnica
Gisela Blanco - texto, fotos, vídeo
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Sônia Brandão
 

Gisela, parabéns a você pelo texto e parabéns a essa maravilha de vovó que não parou no tempo e nos dá uma lição de vida.
Beijos e um 2009 muito feliz pra vocês.

Sônia Brandão · Bauru, SP 28/12/2008 18:19
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Doroni Hilgenberg
 

Oi Gisel,
valeu pela vovô nota 10, pelo texto e pelo exemplo
Parabens para toda a familia.
por certo no Ano Novo ela estara festando com todos.
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 28/12/2008 19:04
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Milton Trindade
 

Foi mesmo um natal diferente, apesar da preocupação de todos com a Vovó. Ela estava alegre e animada como sempre.

Milton Trindade · Brasília, DF 29/12/2008 09:47
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Célia Jornal
 

Gisela,
Apesar de não conhecer, tenho certeza que você, seu pai (a quem tenho a honra de ter como amigo virtual) e sua família que a mim parece especialíssima, retribuíram à Vovó o aconchego, alegria e carinho que ela fez por merecer ... Parabéns pelo texto !!!

Célia Jornal · Santos, SP 29/12/2008 11:12
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Eliana Pontes
 

Parabéns, fez da realidade uma ficção poética e do ambiente doentio descobriu a metalinguagem de amar sem fronteiras; uniu o virtual ao real pra viver melhor o Natal (rimou rs). Parabéns, super votado por mim! Também estou na fila de votação com Tatuagem do Engano. Espero que goste. Um abraço apertado.

Eliana Pontes · Florianópolis, SC 29/12/2008 13:48
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

interessante e belo o texto.publicado.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 29/12/2008 17:25
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