Negados Pedidos
Dablio Vasconcelos
Quero te pedir uma caixa de pratos novos e bem bonitos pra eu presentear o moço do restaurante que me dá comida. Ele é muito bondoso comigo mas, tadinho dele, acho que nunca tem prato sobrando: sempre me dá comida num pedaço de papelão.
Quero pedir também pra você não deixar mais entrar tanta poeira nos carros lá do cruzamento onde eu peço uns trocados. Sempre que eles param no sinal fechado os moços levantam os vidros na minha cara (deve ser por causa da poluição) e daí eu volto pra calçada sem ganhar as moedas.
Quero também pedir pra que o dia da moça bonita da lan house não seja tão longo.
Pois toda vez que eu peço pra ela me deixar olhar os meninos jogando no computador ela fala pra eu passar amanhã.
Todos os dias, uma garotinha que mora naquele apartamento, finge que come o sanduiche de alface que a mãe lhe dá mas joga o lanche pela janela. Se der, pede pra ela jogar um pouquinho mais longe, do lado de cá, porque toda vez eu tenho que pular o muro pra alcançar a lixeira do prédio.
Obrigado, papai do céu!
Não se esqueça de deixar a luz da rua acesa depois que eu dormir. Por aqui passa muita gente e eu tenho muito medo dessa tal violência de quem os adultos tanto falam.
Ah... se o senhor puder também, se sobrar um tempinho, fala pro Papai Noel que o endereço que eu informei na carta pra entrega do meu presente é aqui mesmo nessa avenida.
Ele nunca acha a minha casa (como todos os anos) mas acho que é porque esse viaduto não tem chaminé, né!
Boa noite, papai do céu!
Negados pedidos líricos. A graça do pensamento dos pequeninos. Neles a esperança interpreta a realidade de forma tão linda, em meio ao horror. Parabéns por mais esta excelente contribuição. Um beijo.
Compulsão Diária · São Paulo, SP 11/8/2008 21:44
Filho meu, queria ser papai noel e atender todos esses pedidos.Não exatamente da forma que foram pedidos.Ah! se eu fosse papai noel e pudesse dar a todas as crianças que se acotovelam nas sargetas sujas e nuas um lar, uma alimentação dignina.
Seu texto não é ficção, mas muitos prefrem continuar ignorando a dor do abandono.
Não podia deixar de comparecer.
Direto de uma máquina de costura, abandonada por algumas horas para virar cozinheira...Largo tudo para ler teu trabalho.
Um beijo enorme em seu coração.
Dezembro voltarei ao normal.
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Beijo com carinho!
volto com carinho.
clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 13/8/2008 18:56Pena que os que te escutam são justo aqueles que não têm nada pra te dar ! Um abraço !
alcanu · São Paulo, SP 14/8/2008 03:12maravilha de poema meu amigo poeta.votado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 14/8/2008 17:25a única coisa boa na tristeza é que nos permite ler obras sensíveis como a tua. A inocência infantil contrastando com nossa secura cega.
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 15/8/2008 16:03Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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