O que pode aplacar minha sede?
Ou minha fome de carne, de ossos, de justiça?
Não posso ser satisfeito com nada
(sou buraco sem fundo)
nem homem nem mulher nem pão
enquanto há um rosto que me encara
e nas sombras me pergunta o que eu não sei responder
falar calar
Deixei de olhar para mim
não quero o amor verdadeiro
aquele gozo derradeiro
não quero miragens de meu espelho
quero abraçar meu irmão que nunca vi
jamais verei
compartilhar com ele um pedaço de um improvável pão
Olho as ilhas os mares em frente de mim
as montanhas são lagartos estendidos lá no fundo
queria poder abraçar tudo isso
entrar no mar como se entra em um pote de gelatina
passar varado
velocidade da luz
entre as ilhas ali de frente
e escorregar nas montanhas
e levar meus amigos comigo
meus amigos da África Israel - Palestina
Alemão Rocinha Mangueira Dendê
Ser com eles uma coisa só: negro branco cafuso
crioulo sarará uma nega fulô
nega de flor violeta
em vez de violenta
que diferença faz um ene
que diferença fará então um olhar de amizade
em vez de olhar de rancor
falar de amor só se for assim
um aperto de mão estendida sem medo
dedos em riste em vez de armas
mãos calorosas em vez do frio aço
Você me entende?
Você ainda está aí?
O que importa para mim não sou eu, mais,
é você você aí do outro lado de mim
é seu olhar desarmado
seu riso branqueado de felicidade
num rosto de sei lá que cor
isso não importa
importa você
branco negro amarelo índio
estamos todos no mesmo oceano
formamos é um arco-íris
você vê?
Me desculpe se não falo hoje de flores
amores (rima inevitável mas até odiosa agora)
se não preencho o teu vazio
tua carência de amores e paixões
há tantos que só beijam o próprio umbigo
mas você não é assim
é?
É que há tanto por fazer
tantas pessoas para fazer sorrir
sonhar
brincar...
Me desculpe se roubo seu sonho mesquinho
quem não é mesquinho me entenderá.
Assim espero.
Caramba, "uma montanha de lagartos estendidos..." nos seus versos maravilhoso, fausto! Uma bela viagem na realidade, eu fiz aqui! Adorável! Parabéns!
poesiabrindada · Rio de Janeiro, RJ 19/4/2009 10:09
Olá, Fausto, parabéns!
Gostei de teu poema... muito forte!
Já tens o meu voto!
Peço-lhe que vejas o meu: "A quem dirige o Poeta seu cantar..."
Abraços,
João Carlos
Ainda estou aqui e entendi!!
Simplesmente belíssimo.
Obrig a todos -pelas palavras. Gde abraço.
Fausto F · Rio de Janeiro, RJ 24/4/2009 01:28Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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