Conheço bem as dores que o tempo apaga, ou conheço bem as dores que o tempo aplaca. Tem a dor do amor, tem a dor da morte, do braço quebrado.
A dor do amor é dor que engana: no começo parece que vai ser pra sempre mas, normalmente, não passa de sete dias. Depois fica uma marquinha, uma cicatriz que nunca mais vai doer. Essa o tempo apaga, ou essa o tempo aplaca.
A dor da morte é mais eterna, um tanto mais. Faz que vai, mas só se esconde. O lugar vazio na mesa de jantar, o quarto arrumado, é só abrir que ela dá as caras. Diz da falta, diz da vida terminada em vírgula, essa é pra sempre, e o tempo quase apaga, e o tempo quase aplaca.
A dor de braço quebrado, ah, essa é fácil. Tudo se resolve com um pouco de gesso
e alguns comprimidos. A lembrança que vai ficar é uma dorzinha do fundo, quando o tempo vai mudar, quando começa a esfriar. E o tempo, o tempo apaga, aplaca.
Mas esta dor de agora, mistura de todas, ah, esta não. Esta agora não é dessas, dessas que o tempo aplaca, ou dessas que o tempo apaga. Esta dor de agora é diferente, é dor de abutre comendo o fígado, noite após noite. Durante o dia, o sol chega e queima a carne, fecha as feridas. E é só escurecer que lá vem eles, os abutres. Bicada, bicada, bicada, dor, dor, dor, noite após noite.
Bicada, bicada, bicada, dor, dor, dor, noite após noite, nem direito de morrer eu tenho.