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Neneh Cherry (um fragmento)
Fábio Fernandes · São Paulo (SP) · 1/9/2006 20:22 · 97 votos · 20 comentários ·  
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overponto

Ali, parado olhando os respingos de sangue pisado que agora mancham os azulejos da cozinha com um marrom meio escatológico, você não sente mais nada. Nas histórias de sacanagem sadomasôs que você lia quando era mais novo não era assim. Você achava que a coisa ia rolar gostosa, que se tivesse que rolar porrada (que você não estaria necessariamente procurando, a mente já começa a buscar desculpas, just in case, sabe como é) a coisa seria consentida, a coisa seria com sentido.
Mas não funciona assim.
Você lembrou da Neneh Cherry.

* * *

Neneh Cherry, claro, era um apelido. A garota era uma mulata sensacional, um metro e oitenta de altura (você tem um metro e setenta e dois, mas nem ligou), olhos verdes, exuberante, um sorriso lindo, dentes branquíssimos, perfeitos, muito mais bonitos que os seus dentes amarelados de café e charutos.
Você se sentia um sinhozinho, Casa Grande e Senzala versão século vinte (aconteceu em 1999). Você se sentia fodão pra caralho, porque tinha vinte e cinco anos, era um merda, e ela tinha vinte e dois, era modelo e atriz, e de todo mundo que tinha naquela festa no Jardim Botânico, ela escolheu justamente você. Sejamos francos, você é gostoso pra cacete.
Não durou dois meses. Você até que aproveitou, mas queria mais. Por ela você até abandonava o seu racismo subjacente hipócrita e casava, casava sim, casava de ajoelhar e pedir a mão na frente da família dela, perdoa-me por me traíres, aquele negócio todo.
Falando em perdoa-me por me traíres, foi mais ou menos por aí que terminou o lance, mas você não gosta de pensar nisso. A coisa que mais marcou a relação de vocês, e você sabe disso, hoje você consegue ser honesto, foi o sexo. Da cama pra fora, não tinha nada a não ser freqüentar lugares para todo mundo ver.
E no sexo o que mais marcou você foi o tesão que ela tinha em que você mordesse os bicos dos seios dela até tirar sangue. Ela não gozava se você não fizesse isso.
Da primeira vez, foi interessante. Não é que você não tenha gostado, mas também não foi ruim. Mas, com as semanas, as feridas fechando e formando aquelas casquinhas nos bicos e nas aréolas, o gosto amargo do sangue dela na sua boca foi dando nojo. Você passou a sentir nojo dela.
Foi aí que você percebeu que não tinha vocação pra Glauco Mattoso.


tags: São Paulo SP textos-ficcao literatura set novela-set fabio-fernandes textos-literatura
 
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Autoria   Fábio Fernandes
Ficha Técnica  

este texto é um excerto da novela SET, em fase de conclusão e procurando editor

Data   01/9/2006
Arquivo   20 Kb ·533 downloads
Licença  
 
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Gostei mas...não entendi muito bem a relação da primeira parte com o texto, achei que ia ter um retorno pra primeira parte, explicar porque tem sangue no chão da cozinha e tal...bom, segundo o título é um fragmento, então deve ser por isso...
Me agrada o tom agressivo, queria ver o texto completo...ver onde vai parar isso...
Ana Cullen · Brasília (DF) · 30/8/2006 11:22 
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Oi, Ana!
De fato, os fragmentos estão meio separados por um time frame, mas o sangue nos azulejos já é explicado no primeiro fragmento. É o sangue que brota da porrada que ele dá na namorada.
Fábio Fernandes · São Paulo (SP) · 30/8/2006 11:28 
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E aguarde mais fragmentos. Acho que não vai acabar bem não, mas quem sabe mesmo, mesmo, são os personagens.
Fábio Fernandes · São Paulo (SP) · 30/8/2006 11:29 
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Sim, sim...mas não tem haver com Neneh Cherry, eu fiquei curiosa pelo retorno ao início, mas eu aguardo mais fragmentos...
:o)
Ana Cullen · Brasília (DF) · 30/8/2006 11:39 
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Balbino ô Fábio pode ser que não mas acho que você já postou esse fragmento.......mesmo assim me diverti bastante.
Balbino · Cuiabá (MT) · 1/9/2006 16:22 
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Oi, Balbino!
Postei antes não, camarada. Este é a continuação de Seven Seconds, outro fragmento.
Fábio Fernandes · São Paulo (SP) · 1/9/2006 16:26 
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Ana, deixei você na mão no seu último comentário, mas só pra terminar de esclarecer: o conto é só uma brincadeira. Realmente Neneh Cherry não entra na história a não ser como referência (é o apelido da ex do protagonista). E, como você lembra, Seven Seconds é uma música que ela gravou com Youssou N´Dour nos anos 1990.
Fábio Fernandes · São Paulo (SP) · 1/9/2006 16:27 
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LINDO, gostei mais da parte do "perdoa me por traires" entendi como um jogo meio relacionado ao racismo hipocrita dele, perdoa me por trair qlqr coisa e ir pedir mão de negra em casamento,como se fosse trair principios.... e acredito que o cara levou umas porradas bem dadas e lembrou da Neneh que ele machucava, ela gostava, mas ele machucava....
Marcela Fells · Belo Horizonte (MG) · 1/9/2006 17:14 
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Por aí, Maria, é por aí...
Aguardem mais reflexões calhordas-arrependidas do nosso (anti)herói em breve!
Fábio Fernandes · São Paulo (SP) · 1/9/2006 18:47 
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Comecei a dar uma lida, mas as atribulações da vida me fizeram sair correndo antes do fim. Tá na minha lista de leitura. Já já, quando eu puder, eu te dou um feedback.

Mas se a Aninha gostou, isso já é um graaande passo. Eu confio um bocado no gosto da moça! :)


Abraços do Verde.
Daniel Duende · Brasília (DF) · 1/9/2006 19:00 
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Pronto... agora vou ler esta sua continuação...

a primeira parte, Seven Seconds, está aqui (para quem ainda não leu). Recomendo que baixem o arquivo. A parte que não foi postada é ainda melhor...

Quando terminar a leitura deste aqui, eu finalmente te passo o Feedback (mas a julgar pela primeira parte, já virei seu fã!).


abraços do verde.
Daniel Duende · Brasília (DF) · 1/9/2006 19:50 
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Muito bom mesmo! Boa parte do texto daí já está no arquivo publicado no outro, não? Notei as modificações sutis, mas o texto é em sua maioria o mesmo...
De qualquer forma, eu sou fã de sua prosa agora.

Hora de me debruçar sobre meus novos contos... :)


Abraços do Verde.


p.s. Lambendo a cria: o "Reflexões sobre o fio de uma faca" já entrou na fila de votação... :)
Daniel Duende · Brasília (DF) · 1/9/2006 20:02 
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É vero! Eu havia me esquecido de que boa parte do "Neneh Cherry" estava dentro do arquivo .doc de Seven Seconds. Daí a confusão com o Balbino. Sorry, meu camarada!!!

E o teu reflexões, Verdão, vai ser lido é AGORA! :-)
Fábio Fernandes · São Paulo (SP) · 1/9/2006 20:22 
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Da próxima vai entrar um fragmento absolutamente inédito, meio tarantiniano (pelo menos eu acho).
Fábio Fernandes · São Paulo (SP) · 1/9/2006 20:26 
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Não esquente... o trabalho tá todo muito bom...

Espero para ver as coisas que vem por aí... ;)


abraços do verde (e valeu, novamente, pelos elogios)
Daniel Duende · Brasília (DF) · 1/9/2006 20:35 
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Opa... o link para Seven Seconds que eu coloquei alí em cima não tá funcionando...

o link que funciona é este aqui:
http://www.overmundo.com.br/banco/seven-seconds-fragmento-de-novela
Daniel Duende · Brasília (DF) · 1/9/2006 20:52 
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Opa! Trocando posts agorinha com o Eduardo Ferreira, criador do romance roletivo 636 (publicado aqui - depois tento colocar o link), acabei de iniciar outra experiência coletiva. Todos estão convidados a participar. A parte 1 acabou de entrar na fila de edição. Quem se habilita?
Fábio Fernandes · São Paulo (SP) · 1/9/2006 21:07 
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Hummm.. muito interessante... como é que é isso?
é escrita coletiva aberta no Overmundo?
Daniel Duende · Brasília (DF) · 3/9/2006 14:38 
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That´s it, Verdão. Na verdade, o Eduardo iniciou há algum tempo um romance coletivo que teve seis partes (cinco capítulos, sendo um deles se ramificou em dois, mas um dos ramos não seguiu em frente).
A gente aqui está propondo que todo mundo pire na batatinha, como se diz no Rio, ou pire no cabeção, como se diz em Goiás, e ajude a construir a narrativa do jeito que quiser. A proposta é que alguém retome o 636 (o romance coletivo que parou) e que, simultaneamente, colabore com o A.D.E.U.S., o novo romance (que tem um pezinho no 636, mas apenas conceitualmente). O Eduardo já disse que vai escrever a Parte 2, mas isso não impede você de escrever uma Parte 2b, por exemplo, ou de já ir pensando numa Parte 3. E aí?Topas?
Fábio Fernandes · São Paulo (SP) · 3/9/2006 18:44 
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Ah, o link pro projeto original 636 é este. Aliás, é sintomático notar que, lá em cima, eu havia escrito "romance roletivo". Não deixa de ser uma roleta-russa, afinal de contas, escrever coletivamente...
Fábio Fernandes · São Paulo (SP) · 3/9/2006 18:53 
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