Oh brave new world with such people in it!
O consumo de antidepressivos vem crescendo absurdamente no Brasil e no mundo nas últimas décadas. O antidepressivo pode ser encarado como uma espécie de soma: a tristeza, a depressão, o questionamento da realidade são incompatíveis com a pressão pela produtividade, eficiência e individualidade. Não se pode ser/estar infeliz, pois isso é perda de tempo, e tempo é dinheiro.
Nosso admirável mundo novo vive mergulhado numa espécie de neo-hedonismo. Nunca perca a oportunidade de agarrar o prazer quando puder! Nunca perca seu tempo com questionamentos e infelicidade. Seja produtivo, consuma cada vez mais e faça o mundo continuar girando. Tudo isso é impossível de ser realizado por si só, porque existem falhas no sistema e o ser humano é dotado de inteligência que lhe permite perceber e alterar a realidade. A não-satisfação é a mola propulsora das invenções humanas, incentivadora da imaginação. É, em síntese, uma força criadora. Para amortecer esse sentimento tão tipicamente humano, é necessário a recorrer a soluções artificiais.
As pessoas usam antidepressivos indiscriminadamente, às vezes sem motivo concreto. Relembrando a metáfora de Chaplin em Tempos Modernos, o sistema precisa de carneiros dóceis e submissos para manter as engrenagens lubrificadas e em funcionamento. Os antidepressivos preparam o corpo físico, química e biologia, para suportar/suprir essa exigência. A parte psicológica é tratada com a indústria cultural, o consumo e o entretenimento alienados. O tempo todo o sujeito é narcotizado e impedido de pensar mais profunda e criticamente. O mundo se torna um grande estábulo. Vida de gado, povo marcado, povo feliz.
O neo-hedonismo é a cultura da felicidade a qualquer preço. A cultura da eficiência. A aniquilação das forças criadoras que podem se tornar possíveis focos de mudança e revolução. A alienação é conceito-chave para o neo-hedonismo: no fim das contas o indivíduo não tem nada de seu nem de consciente. Ele não compra um produto, mas uma imagem. Não há espaço para a reflexão.
Admirável.
Publicado originalmente no Makaber Magie.
Concordo em partes com o seu texto. De fato, desde o surgimento da imprensa, a partir do invento tipográfico de Gutenberg, há cada vez menos espaço (talvez "estímulo" seja um termo mais adequado que "espaço) para a reflexão e um aumento da impessoalidade e "padronização de indivíduos". Mas, discordo da posição extremista quanto ao assunto. É uma realidade extremamente complexa e bastante profunda que merece um olhar a mais...
Jéfte Sinistro · Cabo de Santo Agostinho, PE 15/4/2009 19:33
Enquanto aplaudo deixo um poema por companhia. Que o humor prescinda à fluoxetina, entre outras...
Tarjando preto
Herculano Alencar
Onde andará o meu psicotrópico?!
Já não me lembro mais da prescrição.
Se era tarja preta, lembro não!
Mas li, n'algum lugar, que era tóxico.
Eu vou tomar a sobra do patrão,
pois o patrão tem algo parecido.
Coitado do patrão foi demitido
por assinar a própria demissão.
O cara tem lesão no nervo óptico
-complicação da hiperglicemia-,
sofre também de epilepsia...
recentemente ficou psicótico.
Onde andará meu resto da libido?!
Já não me lembro mais de ter tesão.
Se tinha ou se tenho, lembro não!
Ultimamente, ando esquecido.
Ia sair co'a filha do patrão,
se eu achasse meu psicotrópico.
Meu analista diz que estou neurótico...
subiu a dose da medicação.
E, ainda, precreveu-me injeção...
quase uma farmácia de insulina;
supositórios, drágeas, vitaminas,
xarope, aerossol e suspensão.
Não tomo mais o meu psicotrópico,
nem vou sair co'a filha do patrão.
Vou, isto sim, atrás dum charlatão
pra refazer o meu diagnóstico.
E, se sobreviver a ele, lógico,
vou consultar mais uma opinião.
Abraço fraterno,
Herculano
fantástico o texto, hein! as pessoas estão perdendo sua conexão com a força da natureza, ou seja, a força superior... estão empalidecendo às sombras das cidades, esquecendo-se que o homem também faz parte da criação - precisa da luz (do sol) para clarear seus pensamentos e abrir os caminhos...
Marcos Filho · Campo Grande, MS 18/4/2009 02:03
B árbara
excelente seu texto
Costumo dizer que " A felicidade nunca é completa,
é feita de momentos"
E muitas pessoas não estão preparadas para aceitar os maus momentos, queremo o prazer a todo o custo ( mesmo que artificial)
E ai a depressão bate quando a v ida que é tão preciosa vai perdendo o sentido, por falta de uma visão mais abrangente
do mundo.
Se certas pessoas tomassem atitudes em vez de depressivos,
a realidade seria outra.
b js
Obrigada todo mundo pelos votos e comentários.
Herculano, simplemente amei o poema! Me envie mais, por favor!
beijos a todos
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