NO MATO SEM CACHORRO - Crônica

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jjLeandro · Araguaína, TO
28/5/2008 · 114 · 7
 

Precisava de um cão para levar à fazenda. Pela ausência de um, o lobo comera as galinhas poedeiras. Livres dele, as onças poderiam facilmente rondar a casa. O sono nas madrugadas quentes na varanda, quando o calor no quarto era ameaça de transformar a noite em vigília, seria impossível. E mais: o pastoreio do gado ficaria difícil sem o auxílio dele. Quem tocaria da macega para o pasto limpo as vacas com bezerros que se entocavam no mato fechado e de lá só saíam à custa de selvagens latidos e umas boas mordidas?
Analisando os últimos acontecimentos desastrosos na fazenda, saltava aos olhos que aconteceram pela falta de um bom cão de guarda impondo ordem em volta da casa. Mas não queria comprar um de raça. Andam por hora da morte nas casas veterinárias. Em criatórios particulares os filhotes custam os olhos da cara. E havia ainda um motivo sério para manter distância deles: não adianta levar para o mato um bicho desses; é cheio de vícios e prisioneiro de ração balanceada. A ruptura com uma vida urbana planejada desde o nascimento era a garantia de desambientação e estresse ao cão; por conta disso, os prejuízos ao novo proprietário seriam certos. Após muito matutar em uma solução, acreditei tê-la encontrado.
No dia seguinte iria ao Canil Público. Para lá encaminham os cachorros vagabundos colhidos na rua, os vira-latas acostumados a brigar pela sobrevivência. São cães calejados o suficiente para sentir pouco a troca da cidade pela roça.
Fui bem recebido pelo funcionário. Ele levou-me a uma cela e apontou-me os vários cães disponíveis. Havia deles para todos os gostos, mas queria um talhado para o serviço. O que procurava destacou-se logo à primeira vista. Tinha porte médio e manchas pretas e brancas pelo corpo. O pêlo era curto, a cabeça sempre altaneira como nos bons sentinelas e o olhar arguto de um caçador de jaez.
Não vacilei nem um pouco. Disse ao rapaz, que esperava paciente agarrado às barras de metal da cela:
— Levo este.
Ele balançou a cabeça aprovando a minha escolha.
Quando saíamos pelo longo corredor, passamos diante de outra cela onde um cachorro descansava solitário.
Parei e perguntei ao funcionário:
— Por que está sozinho?
— Esse aí é bruto. Bruto mesmo. Quando estava junto com os outros, de um tapa só, estraçalhou três rivais a mordidas. E olhe que eram maiores que ele.
Não tive dúvidas, como os cachorros eram doados, propus levá-lo também.
Parece que a idéia agradou ao funcionário, pois ele deixou escapar um “Oba”, acrescentando ainda: “Ele se livrou de ir amanhã para o sal”.
No outro dia os dois estavam na fazenda. Rapidinho compreendi que pegara gato por lebre. Os danados não queriam dureza. Alegavam incompatibilidade ao novo trabalho. Aliás, ao primeiro trabalho deles; antes o que faziam era mendigar ou trapacear nas ruas. Quando fui retirá-los do carro, agarraram-se em mim ganindo de medo: “Temos medo de cobra, ai, ai, ai!”
Quando quis levar o cão malhado ao curral para tocar as vacas, acusou de pronto uma doença. Tossiu roufenho “task’, “task”, “task” a fim de convencer-me que era asmático: “Não tenho voz, não conseguirei tocá-las; sinto muito. Além do mais, a poeira do esterco vai sufocar-me”, e foi se esconder entre os sofás da sala.
No dia seguinte, após o almoço, eu cochilava na rede da varanda depois de uma manhã de trabalho duro. Fui acordado pela carreira em que chegou o cão bravo ao pé da rede, vindo do saleiro do pátio. “O que houve?”, saltei da rede assustado. Lívido, ele tinha a cor de uma vaca nelore: “Acho que vi uma onça, era uma onça, sei que era uma”. E botava as patas sobre os olhos, querendo esquecer a visão que tivera. Eu procurei acalmá-lo: “Como era ela, pode dizer?” Ele balançou a cabeça concordando. Levantou as patas dianteiras em forma de arco sobre a cabeça enquanto gemia como um desvalido. “Não era uma onça”, caçoei, caindo na gargalhada. “Juro que era, juro que era”. E reforçou sério a descrição, dizendo a cor da pelagem: “Era branquinha como aquela galinha”, e apontou para uma das galinhas de granja que trouxera com eles para a fazenda. Não pude segurar o riso: “Você viu uma vaca, seu moleirão”. Para mostrar-lhe o que era uma onça, fui à sala e peguei o retrato de uma. Foi mostrar-lhe e ele cair duro com as quatro patas para cima.
Estava definitivamente no mato sem cachorro.


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jjLeandro
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Eric Araújo
 

Legal cara... é raro nos dias de hoje algo escrito com tanta simplicidade mas prendendo tanta a atenção do leitor.

Eric Araújo · Belo Horizonte, MG 25/5/2008 00:14
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Cristiano Melo
 

Pôxa, que taelnto descritivo, adorei seu conto. E, se viajar muito me corrija. Talvez não tenha tido a intenção, mas no começo de seu conto, podemos fazer uma alusão dos cães, com raça e sem raça, aos seres humanos, originais ou não originais...risos. Seu escrito literalmente está num mato com vários cachorros... Aguardo pela votação para fazer jus a sua obra. parabéns e um abraço do cerrado sem cachorro.

Cristiano Melo · Brasília, DF 25/5/2008 09:00
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jjLeandro
 

Eric, obrigado pela presença. Um grande abraço.
Cristiano, a literatura é bem legal por isso: permite interpetrações que são mais abundantes quanto maior o conhecimento e a fertilidade do leitor.
Um abraço.

jjLeandro · Araguaína, TO 25/5/2008 11:24
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Saramar
 

rsssssssss...
Que delícia de leitura.
Nunca vi algo combinar tanto com o título!
Esse diálogo com os cachorros folgados está muito divertido.
Adorei.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 25/5/2008 21:15
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Cristiano Melo
 

Com cachorro e sins(esse é o plural de sim? risos) à votação. abração.

Cristiano Melo · Brasília, DF 27/5/2008 09:41
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Marco Bastos
 

mais vale um cão voando do que dois na roça. rsrs.
mas isso foi escrito no tempo em que os bichos falavam, né? rs.
abraço.
voto.

Marco Bastos · Salvador, BA 27/5/2008 23:21
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Ailuj
 

Adorei sua cronica,muito boa
publicada

Ailuj · Niterói, RJ 28/5/2008 09:37
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