Noel Rosa 100 – poeta e cronista do Brasil
João da Mata Costa
“ quem é você que não sabe o que diz / meu Deus do céu que palpite infeliz”
Há 100 anos ele nascia para ficar imortalizado numa curta e meteórica
existência. Assim como Braz Cubas não deixou aos filhos que não teve o
legado da sua pobre existência física. “Não tenho herdeiros, não possuo um
só vintém / eu vivi devendo a todos, mas não paguei a ninguém/ meus
inimigos que hoje falam mal de mim / vão dizer que nunca viram uma pessoa
tão boa assim”.
De Braz Cubas sendo comido pelos vermes é também a certeza que as morenas
sestrosas vão ser comidas pela terra. Noel era assim – mesmo- uma
apaixonado pela vida e um grande humorista da MPB que ele ajudou a
consolidar. E quem ri melhor, é quem ri por fim.
Há cem anos Noel nascia a fórceps com um defeito no queixo. Foi apelidado
de “queixinho” e viveu a vida - boêmio em menos de 27 anos.
A partir de uma paródia ao Hino Nacional, compõe “Com Que Roupa?”, seu
primeiro grande sucesso. Aos 19 anos já é famoso e vende milhares de
discos. Torna-se ídolo do rádio, é aclamado “filósofo do samba”.
O grande sambista Wilson Batista apelou quando o chamou de “Frankstein da
Vila” em música que fez parte da celebre disputa musical travada entre
dois dos maiores sambistas brasileiro. Boêmio de muitos amores, Noel
trocou a medicina pelo samba e compôs quase três centenas de clássicos da
MPB. Dos seus conhecimentos como acadêmico de medicina ele compôs o
anatômico samba “Coração”.
Foi diplomado em matéria de sofrer e no samba. Em o “X do problema” ele
mostra as suas credenciais: eu fui educado na roda de samba, eu fui
diplomado na escola de samba, sou independente conforme se vê.
Participa de uma linha evolutiva que tem início com o “Boca do Inferno”,
passa pelo Sargento de Milícias e deságua na melhor musica popular
universal brasileira. Como cronista canta a alma feminina e, décadas
depois, terá um herdeiro da estatura de Chico Buarque de Holanda.
Sua primeira composição foi Minha Viola (Minha Viola ta chorando com razão
/ por causa de uma marvada / que roubou meu coração ). Influencia da
música nordestina que chegava ao RJ. Rio de Janeiro, cidade mulher,
cantada por Noel – um dos grandes cronistas de uma época em rápidas
transformações. O cinema falado estava chegando e Noel canta as
transformações que aquilo ia provocar na fala do malandro e seus Alô Boy.
O poeta da vila teve grandes parceiros da estatura de Cartola, Braguinha (
João de Barros) e Lamartine Babo . Com André Filho fez Filosofia. Com o
grande poeta Orestes Barbosa compôs Positivismo. Com o pintor e sambista
Heitor dos Prazeres ele fez Pierrot Apaixonado.
Um dos seus mais profícuos parceiros foi o paulista do Braz Oswaldo
Goliano ( Vadico ), com quem compôs os célebres “Feitiço da Vila”,
“Feitios de Oração”, “ Só pode ser você” , etc.
Quem nasce lá na Vila/ nem se quer vacila / ao abraçar o samba, / que faz
dançar os galhos do arvoredo/ e faz a lua nascer mais cedo.
Noel Rosa conheceu Lindaura, uma operária com 15 anos de idade. Logo
depois conhece a dançarina Ceci e por ela se apaixona. Divide-se entre as
duas mulheres, trabalha muito, dorme pouco, vive gripado e fraco.
Denunciado pela mãe de Lindaura como raptor e sedutor de menores, é
obrigado a se casar sob pena de prisão.
Descobre-se tuberculoso e vai para Belo Horizonte e tenta recuperar sua
saúde. Volta ao Rio de Janeiro, reencontra Ceci e abandona Lindaura. Em
encontros ocasionais, engravida Lindaura. Ceci o deixa, e Lindaura perde o
bebê. Uma tragédia de uma meteórica vida. Ceci também amava o compositor
Mário Lago. Esse triângulo amoroso com quatro pés masculinos resultou numa
das mais célebres músicas Noel: “ Pra Que Mentir”. Dilacerante. Elas
merecem.
Um de seus últimos sucessos é a antológica canção “Último Desejo”, em
homenagem ao seu grande amor, Ceci.
Último Desejo / Noel Rosa
Nosso amor que eu não esqueço, e que teve o seu começo
Numa festa de São João
Morre hoje sem foguete, sem retrato e sem bilhete,
sem luar, sem violão
Perto de você me calo, tudo penso e nada falo
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero o seu beijo mas meu último desejo
você não pode negar
Se alguma pessoa amiga pedir que você
lhe diga
Se você me quer ou não, diga que você
me adora
Que você lamenta e chora a nossa separação
Às pessoas que eu detesto, diga sempre que eu não
presto
Que meu lar é o botequim, que eu arruinei sua vida.
Que eu não mereço a comida que você pagou pr a mim
Centenário Noel Rosa
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!