NOITE DE VERÃO

1
André Calazans · Rio de Janeiro, RJ
1/4/2010 · 4 · 2
 

A rua estava cheia naquela abafada noite de verão. O céu se apresentava completamente aberto, estampando uma lua quase redonda e incontáveis estrelas a brilhar. Até mesmo quem tinha horário para jantar retornava logo em seguida, dando continuidade aos jogos, piques e conversas. E no meio daquela balbúrdia, não se sabe exatamente quem, ou em que momento, as atenções começam a se voltar exclusivamente para cima.

- Olha lá, mané, olha lá !
- O quê ? Num tô vendo nada ...
- Ali, correndo por cima, naquela direção !

Em poucos minutos, todos os jovens e crianças voltam sua atenção para o ponto luminoso, semelhante a uma estrela enorme, que vinha fazendo evoluções rápidas e variadas no céu. Diminuía de tamanho afastando-se, para em seguida aproximar-se crescendo. Pouco depois, iniciava movimentos hiperbólicos, ascendendo e descendendo no éter. Mais um tanto, e passava a traçar retas estancando sua movimentação abruptamente, como que a desenhar polígonos irregulares de infinitos lados.

O clima no local era um misto de farra e espanto. Uns não emitiam opiniões, apenas admiravam o raro espetáculo. Outros pareciam narrar uma disputa esportiva, descrevendo empolgados a sucessão de movimentos e provocando gritos e comentários. Havia ainda uma minoria formada por aqueles mais introspectivos, que procuravam admirar o espetáculo ao mesmo tempo em que o analisavam. É claro que não conseguiam fazer bem nem uma coisa nem outra. Inclinados ao questionamento, pareciam esperar uma justificativa simultânea à ocorrência do fenômeno, desprezando a euforia coletiva que dispensava explicações ou especulava displicente sobre extraterrestres e experimentos governamentais secretos.

- Tá bom ! Estrela não é, avião também não. Mas pode ser balão ou helicóptero.
- Você já viu algum fazer isso, se mover assim ? E com essa luz toda ?
- Pô, e tu acha que não existe um montão de máquina secreta por aí ? Devem estar testando ...
- Isso aí, coisa dos russos ! Ninguém sabe direito o que eles tão fazendo.
- Nada disso, é coisa de americano mesmo.

O objeto, aos poucos, parecia se enfastiar do espetáculo. Passa a fazer movimentos circulares cada vez mais velozes e abertos, quase em tom de despedida, tornando-se difícil acompanhá-los. Em instantes, desaparece no espaço, tão rápida e misteriosamente quanto surgiu. Durante um bom tempo, houve comentários e discussões acaloradas sobre o ocorrido. Com o avançar da noite, o burburinho vai diminuindo. Naquela noite, as crianças dormiram excitadas, pensando em seres e civilizações de outros planetas.

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informações

Ficha técnica
Texto do livro "O Enforcado e Outras Histórias".
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Doroni Hilgenberg
 

Legal André...
O céu é um misério
e mistérios não podem ser desvendados.
bjs e Feliz Páscoa

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 3/4/2010 12:19
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Doroni Hilgenberg
 

Digo: O céu é um mistério!!!

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 3/4/2010 12:20
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