Noite Quente

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Eduardo Stelmack · Gravataí, RS
10/12/2009 · 1 · 1
 

Já era tarde da noite e o calor estava insuportável. A luz estava cortada e meu apartamento ficava numa posição em que o sol fritava suas paredes na maior parte do tempo. À noite virava uma estufa. Eu suava pelado na cama como porco, apesar de nunca ter visto um porco suar. Não sei se suam.

Vesti algo e fui caminhar perto da praça. Poderia cansar um pouco e conseguir dormir depois de um banho gelado. Realmente cansei. Resolvi sentar um pouco antes de voltar para o banho gelado da minha estufa. Haviam bastante pessoas nas ruas. Umas saindo. Outras voltando. Outras perdidas. Eu descansando. Então uma garota sentou-se ao meu lado.

- Com licença. – Ela falou já sentando.
Sempre me pergunto por que as pessoas pedem licença e não esperam a resposta.
Mas era bonita. E era cega e provavelmente tão cansada quanto eu. Todos estavam cansados. Eram daquelas noites cansadas.
- Quente demais hoje. – Ela disse.
- Está um inferno. – Respondi olhando para um mendigo dançando perto do meio fio.

Ela respondeu que se fosse o inferno seria bom. Concordei e disse que talvez o mendigo da nossa frente tivesse mais sorte em ir para lá depois de ser atropelado se continuasse a dançar ali naquele lugar.

- É o Vitor. – Ela disse enquanto acendia um cigarro.
- Conhece? – perguntei prestando atenção nos gestos do Vitor e curioso por ela saber quem era sem enxergar.
- É meu irmão. Esse filha da puta pirou depois que derrubou ácido
sulfúrico nos meus olhos quando éramos pequenos. Meu pai deu uma surra nele e o colocou para fora de casa. Ele nem nos conhece mais. Sei que sempre fica por aí. Já é conhecido.
- Hum. – Respondi. Eu não o conhecia. - O que você faz?
- Sou dançarina do Red Club.
- Puta.
- Dançarina mesmo. Eu não transo com os clientes. As putas transam.

E ela ficou me contando como acontecia o seu show gesticulando como duas mulheres a levavam até o palco onde ela tirava a roupa. Ficava só com o óculos escuro se movendo em torno da barra de ferro com qualquer música que estivesse tocando.

- Na noite de hoje até pelado deve-se passar calor lá. – Comentei.
- Hoje não abre. Estou de folga e...

Um barulho de freada interrompeu a conversa. Seu irmão Vitor acabara de ser atropelado. O motorista apenas desviou do corpo e fugiu sem muita pressa. Em alguns minutos algumas pessoas começaram a aparecer já tirando fotinhos pelo celular e olhando espantadas para o sangue. O prazer enrustido pela morte e sofrimento que as pessoas guardam em algum lugar dentro de si. Estava muito quente. O Vitor estava morto. Nós estávamos cansados.

- O que você costuma beber lá no Red Club?
- Gin com tônica.
- Tenho cervejas ali em casa.
- Ok.

Levantamos para ir embora no momento em que a ambulância chegou. Um homem de farda perguntou se eu havia visto como era o carro.
- Não, senhor.

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Eduardo Stelmack
 

Na verdade é justamente essa a intenção. Gosto de pegar fatos que, teoricamente, seriam importantes e apresentá-los como meros detalhes para preencher o texto.

Eduardo Stelmack · Gravataí, RS 9/12/2009 11:57
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