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Nome:Zé. Sobrenome: Do Ponto de Ônibus

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jair · Manaus, AM
18/1/2009 · 62 · 13
 

Nome: Zé. Sobrenome: do Ponto de Ônibus. Árvore genealógica indecifrável, tez entre o branco sujo e o negro duvidoso. Se ainda tivesse certidão de nascimento, lá teria posto o auxiliar de tabelião: Pardo.

Na mão direita uma pasta de couro preta, envelhecida e de alças enferrujadas, combinando com a calça marrom desbotada e a camisa creme de gola puída e sem os botões das extremidades da manga, mas lhe falta tanta coisa que um botão a mais ou a menos não fará diferença. Uma gravata com detalhes esotéricos folga em seu pescoço, pois já basta o aperto que a vida dá.

17:33 minutos. Ele chega esbaforido ao ponto de ônibus. Olha o relógio. Os ponteiros estão parados. Tira o celular da cintura. Acabou a bateria. A solução, como sempre, é recorrer ao vizinho:
_ Que horas são?
_ Dezessete e trinta e seis.
_ Pôxa vida, perdi meu ônibus. Passa antes das cinco e meia.
O interlocutor não responde e ele continua o monólogo:
_ Meu chefe tá um saco. Tomou um corno desgraçado. Viajou a trabalho, sabe, e a mulher foi pro Ensaio da Timbalada. Dizem que só chegou em casa três dias depois. Pode?
O interlocutor balança a cabeça, em sinal de desaprovação.
_Ainda bem que não sou chefe. Mas não tenho culpa do problema dele e ele quer descontar em mim, não é...
Sem despedida, o vizinho interrompe a construção da frase interrogativa com uma carreira desabalada para adentrar no seu ônibus, que já chegou apinhado ao ponto.
_Tchau, amigo. Lembranças à família.
Alguns passos adiante dentro da proteção urbana...
_ Cê viu aquele que estava ao meu lado?
A jovem responde automaticamente com um reticente sim.
_ É meu amigo de velhos carnavais. Vou te confessar uma coisa: Ele está até me devendo dinheiro, mas como sei que precisa, nunca cobrei.Bebe muito. A mulher é hipertensa. O filho drogado. Mas ele é gente boa.
A moça continua vidrada no pequeno horizonte, tentando antecipar-se à chegada do ônibus e assim evitar a confusão na porta de entrada. De quando em vez concorda sem nem saber realmente o que Zé está falando, até que finalmente chega a condução que dará um alento à sua jovem vida, atenuando o sofrimento diário:
_ Viu aquela que estava ao meu lado?
_ Trabalha comigo. Tivemos algo no passado, mas hoje temos só uma grande amizade. Ela entendeu que eu não iria me separar de minha esposa.
Ele compra duas balas de hortelã pra tirar o amargo da boca e oferece-as ao novo interlocutor que recusa gentilmente a oferta:
_ Esse é o nosso trabalho e a nossa vida, feita de pequenos momentos, dessa bala de hortelã que adoça a nossa boca e dos esporros que tomamos dos nossos injustos patrões. Mas não há de ser nada, pois quando chego em casa tenho o sono dos justos, acarinhado pela minha amada esposa que me espera com um sorriso nos lábios e um copo de café na mão. Café preto e encorpado filtrado num coador de pano, das antigas. E na sala encontro meus pirralhos sentado à mesa fazendo dever de casa e de seus lábios saem um sorriso de alegria ao ver o pai, que eles dizem tanto amar, e eu acredito piamente, tanto que retribuo com um abraço bem apertado e com o pão quentinho que trago debaixo do braço após um dia inteiro de labuta. Imediatamente a minha filha tira meus sapatos, o filho livra-me da pasta pesada e a minha esposa aquece meus pés com água morna, massageando-os com gel de eucalipto. Que mais posso querer de Deus, meu amigo? Que mais posso querer? Olha para o meu bolso, olha pra aqui pro meu bolso. Estou levando um saco de bombons para os meus filhos e no caminho sempre colho uma flor para a minha esposa. Aprendi com meu pai. Ele sempre tratava bem a minha mãe e meus irmãos, pois cria na família como acreditava na vida. É por eles todos que este ponto cheio e esses ônibus lotados valem a pena. A vida pela vida, o sacrifício por algo maior, pela perpetuação daquilo que chamamos de humanidade, e nós, todos nós que estamos nesse ponto de ônibus nos sacrificamos dia a dia para mover o mundo, para que a terra gire e nos multipliquemos como pediu Deus, ou Jesus, não estou bem certo de Quem foi, mas tenho certeza que está nas Escrituras Sagradas.
O ouvinte não responde. Tão somente acena com a cabeça concordando com ele, menos por acreditar naquela realidade e mais por que, àquela altura do campeonato, não cabem julgamentos ou análises sobre a realidade e a vida.

Um a um os passageiros seguem as suas trajetórias, restando, no final da noite, apenas Zé do Ponto de Ônibus envolto na solidão da urbe, pois não tem pra onde voltar e assim só lhe resta manter-se naquela parada depois de tentar por horas a fio fazer parte de algo, fingindo esperar uma condução fictícia com itinerário idem, que o levaria para um lugar inexistente, para um lar que não se encontra em lugar algum fora de si mesmo, tentando dividir com a multidão as agruras através da troca de confidências e comentários com os mais próximos e distantes: Reclamando da vida e do governo, elogiando a educação e o respeito de filhos que quiçá existem, discorrendo sobre a suposta esposa que o aguarda em casa, criticando a postura de uma empresa fictícia que lhe nega o aumento desejado e a promoção merecedora:

E então, após encenar por horas a fio, o ermo Zé do Ponto de Ônibus, cansado, tomba seu frágil corpo vazio no banco frio da parada e sonha até o amanhecer com os filhos fictícios, com a esposa idem e seu lar harmonioso construído sobre as nuvens, as mesmas nuvens que nesse instante pairam no céu, escondendo as estrelas e a lua.
E assim ele dorme o sono dos sonhadores, testemunhado pelas varandas vazias dos prédios altos, acinzentados e escurecidos pela noite, cuja brisa insiste em tornar fria, cada minuto mais fria.
E assim ele só acordará pela manhã, bem cedinho, recebendo nos ombros as vassouradas risonhas de um suposto insano, que talvez esteja feliz e regozijado por encontrar no seio da urbe pequenas tragédias iguais a sua. Zé acorda assustado e com os olhos remelados e o louco que o acordara segue pelas ruas da cidade de São Salvador da Bahia naquela manhã ensolarada, cada vez mais feliz e regozijado.

Sobre a obra

Nome: Zé. Sobrenome: do Ponto de Ônibus. Árvore genealógica indecifrável, tez entre o branco sujo e o negro duvidoso. Se ainda tivesse certidão de nascimento, lá teria posto o auxiliar de tabelião: Pardo.

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Jair Chagas
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Sônia Brandão
 

Existem muitos Zés perdidos por ai. De seu, apenas sonhos.
abs

Sônia Brandão · Bauru, SP 17/1/2009 00:26
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Ivette G.M.
 

Cada um escolhe uma forma de espantar sua solidão e sua vida mesquinha. É preciso sonhar, para não sucumbir.
Ivette G M

Ivette G.M. · Cotia, SP 17/1/2009 09:22
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jair
 

É, cara Sônia, a solidão do mundo que corrói a lucidez.

jair · Manaus, AM 17/1/2009 13:46
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jair
 

Ivette, alguns inventam estórias nas paradas dos ônibus, outros as criam em note book's e pc's. A diferença é muito tênue.

jair · Manaus, AM 17/1/2009 13:50
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Sônia Brandão
 

Votando.

Sônia Brandão · Bauru, SP 18/1/2009 23:29
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Ivette G.M.
 

Votado. Ivette G M

Ivette G.M. · Cotia, SP 19/1/2009 13:59
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jair
 

Valeu Sônia. Grato!!

jair · Manaus, AM 19/1/2009 15:28
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jair
 

Obrigado pelo voto, Cara Ivette.

jair · Manaus, AM 19/1/2009 15:51
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claudia gomes
 

Muito bom seu texto! Votado!

claudia gomes · Salvador, BA 19/1/2009 15:56
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jair
 

Obrigado, Cláudia. Ele tenta discorrer sobre a solidão da urbe, a que todos estamos submetidos, insanos e sãos.

jair · Manaus, AM 19/1/2009 16:06
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Julio Rodrigues Correia
 

Texto excelente.Votado.

Julio Rodrigues Correia · Manaus, AM 19/1/2009 21:55
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jair
 

Obrigado, caro Julio.

jair · Manaus, AM 20/1/2009 00:15
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Aglacy
 

A uns palmos do chão é muitas vezes o único lugar de resistência.
Votado.

Aglacy · Aracaju, SE 20/1/2009 01:02
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