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Nosso Circo

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Pablo Capistrano · Natal, RN
22/4/2008 · 102 · 5
 


Ocorre um crime brutal em um bairro de São Paulo. Imediatamente a polícia isola o local e começa o recolhimento das pistas. No rastro da polícia aparece a impressa e a notícia surge meio que capenga, isolada, perdia no vai e vem de um telejornal.

Logo, logo, uma autoridade constituída, responsável pelo inquérito, começa a vazar aqui e acolá para um repórter amigo, uma ou outra informação sobre as investigações. Subitamente o espaço no noticiário aumenta e iniciam-se as especulações sobre o crime. À medida que as primeiras hipóteses vão surgindo, novas teses são levantadas, contradições, dados novos, outras hipóteses, mais discussão. Rapidamente na fila de banco, na padaria, no cinema, no elevador, as pessoas começam a especular sobre o assunto.

Nesse momento o telejornal começa a ceder mais e mais do seu tempo para os arredores do crime, as autoridades do inquérito agora dão entrevista coletiva. Especialistas são chamados, e, nos programas de fofoca da tarde, os cronistas do vazio se ocupam e em repetir neuroticamente a mesma coisa por duas ou três horas seguidas, sob o pano de fundo de uma seqüência tocante de fotos da vítima com seus familiares.

Repentinamente a opinião pública entra em comoção. Pessoas com problemas emocionais e psiquiátricos se dirigem ao local do crime para chorar. Gente solitária reza em memória da vítima, criam-se vigílias, redes de discussão, associações e, de súbito, enquanto centenas de jornalistas se acotovelam para conseguir mais uma imagem dos suspeitos saindo da delegacia, entrando em casa, ou voltando para a mesma delegacia de onde saíram, um tema emerge.

Surge um problema, uma questão, um assunto de importância fundamental para a sociedade brasileira. Os partidos se movimentam, professores universitários são chamados para dar opinião nos programas de TV, nas escolas, as aulas são marcadas por debates calorosos sobre o tema, com grupos de cinco ou seis alunos tomando posições. Por fim, propõe-se um projeto de lei para alterar alguma coisa, e uma delegação de ilustres deputados é nomeada para falar com o presidente.

Um mês depois, tudo volta a mais tediosa e absoluta normalidade. Os acusados continuam sua via crucis processual, a vítima continua morta, enterrada em alguma caixa de concreto; a família da vítima continua em sua solidão a sofrer, em meio ao vazio sem fim daquela ausência; a imprensa vai procurar outro assunto; os delegados, advogados e promotores, perdem seus cinco minutos de fama e voltam à rotina obscura de suas profissões, as associações se desfazem, os professores são confinados novamente no seu porão acadêmico, os partidos políticos voltam a se preocupar com o mais importante (a próxima eleição) e o projeto de lei, criado para resolver qualquer coisa, encalha em alguma comissão do congresso.

Foi assim com Tim Lopes, foi assim com João Hélio, foi assim com Liana Friedenbach, está sendo assim com Isabela Nardoni, e será assim com a próxima vítima. Esse é o circo de nossas ansiedades. O show de nossa vida, tão carente de sentido e emoção. Saber o porquê de tantas pessoas, são possuídas de súbito, em um estado histérico, por um único, irredutível, e instantâneo tema, é um belo enigma humano.

Como diz a história: certo dia dois homens caminhavam apressadamente, por longas horas, até que um perguntou ao outro. _ Fulano, afinal de contas, para onde estamos indo? _ o outro sorriu e respondeu _ Não tenho a mínima idéia, mas sei que a gente está quase chegando.

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Pablo Capistrano
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Roseane
 

Caro colega, concordo plenamente com você. Casos como esse já aconteceram e ainda acontecerão. Porém, o que me consola (se é que isso é possível), é que esses acontecimentos servem para alertar a sociedade, servem ao menos para dar uma "chacoalhada" na gente de vez em quando... fazendo-nos acordar para a realidade...

Roseane · Natal, RN 19/4/2008 14:41
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Alexandre Spinelli
 

Gostei bastante...o final principalmente é impagável...
Abraço!

Alexandre Spinelli · Estados Unidos da América, WW 22/4/2008 18:00
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alcanu
 

Concordo contigo em número, gênero e grau !
Um forte abraço !
Alcanu !

alcanu · São Paulo, SP 22/4/2008 21:31
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clara arruda
 

Quando não se vai a lugar algum,sempre se chega.
Seu texto uma realidade.Infelizmente tudo é esquecido em deterimento de novas manchetes.Um beijo dessa amiga.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 22/4/2008 22:07
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Ailuj
 

excelente!

Ailuj · Niterói, RJ 23/4/2008 08:41
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