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NU COMO UM YANOMAMI

http://www.cleber.com.br/fotoyano.html
1
Juscelino Mendes · Campinas, SP
11/9/2008 · 120 · 30
 

"Então me mostrou o rio da água da vida, claro como cristal, que procedia do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da sua praça, em ambas as margens do rio, estava a árvore da vida, que produz doze frutos, dando seu fruto de mês em mês. E as folhas da árvore são para a cura das nações. Ali nunca mais haverá maldição. Nela estará o trono de Deus e do Cordeiro, e os seus servos o servirão, e verão a sua face, e na sua testa estará o seu nome. Ali não haverá mais noite. Não necessitarão de luz de lâmpada, nem da luz do sol, pois o Senhor Deus os iluminará. E reinarão para todo o sempre."

(Apocalipse 22: 1-5)




Percorro o meu interior
E me vejo nu como um yanomami.
Ando pelas encostas do meu ser
e vejo claramente as florestas
largas e repletas de árvores fortes e floridas;
largas e repletas de frutos maduros;
largas e repletas de plantas verdes.
Ando em meio as árvores e não percebo o bosque.
em meio aos frutos e não posso comer;
em meio as plantas e não sinto o seu aroma.
Caminho em direção ao rio que vejo ao longe;
rio que tem curso calmo.
Às vezes suas águas, que nunca são as mesmas,
descem velozmente ao encontro de um mar
que é só meu, único e indescritível...impenetrável.
Ando ao encontro desse rio, cujas águas são azuis,
e chego exausto e trêmulo.
Nele molho a minh’alma que se encanta e se enleva,
e chego a perceber o bosque: imenso e úmido.
Ouço o cantar dos pássaros!
E como dos frutos das árvores próximas: maduros e doces.
Que me são permitidos comer!
E sinto o aroma das plantas adjacentes: perfume silvestre.
Cheiro suave!
Sigo atravessando o rio e não desejo chegar.
As suas margens ainda estão largas,
mas se estreitam à medida que caminho:
a passos lentos e firmes...inseguros às vezes: não desejo ainda chegar.
As suas águas continuam a bater nas encostas do meu ser.
Volto-me a mim e reconstituo o caminho de volta.
Deixo para trás um rio lento e suave a caminho do mar que não consigo enxergar, ainda que o veja: não estou mais nu, não me conheço. Continuo, contudo, um yanomami.

_________________________________________________
NAKED AS A YANOMAMI

I go through my inner self and I see myself naked as a yanomami. I step through the declivity of my being and I clearly see large forests full of large bloomed threes; large and full of edible fruits; large and full with green plants. I walk between threes and I don´t perceive the forest, in the middle of fruits I cannot eat; in middle of plants which aroma I cannot smell.
I walk towards the river I see distant, river that has a calm course. Sometimes it´s waters, that are never the same, descend rapidly to meet a sea that is only mine, unique that cannot be told, impenetrable. I walk towards the river, which waters are blue and I arrive exausted and trembling. In him I wet my soul that becames enchanted, lights up and I finally perceive the forest: large and humid . I listen to the singing of birds! And I eat from the fruits of nearby threes edible and sweet. Those that are allowed me to eat. I feel the aroma of plants nearly: silvestre parfum. Smooth smell! I follow my way crossing the river and I wish not yet to arrive.. .It´s margins are still wide, but they narrow as I walk between: in slow but firm steps...insecure sometimes: I don´t wish yet to arrive. It ´s waters continue to touch the declivity of my being. I return to myself and rebuild my way back. I left behind a calm and soft river going to the sea that I cannot perceive, that however is quite visible.
I am not naked anymore. I don´t know myself. I am still being a yanomami however.


Traduzido por Cristina Melo.




Sobre a obra

Compus este poema numa noite de verão em Salvador. Senti-me solitário e triste em um quarto de hotel. Dei-me conta de que uma dia morreria; que a morte estava mais próxima a cada dia vivido. Senti-me, não obstante a fé e segurança em Deus, uma quase nada humano diante daquela realidade imutável. À medida que compunha o poema, meus pensmentos retornavam ao presente da vida e me tornava mais forte. Senti-me um Yanomami livre de quaisquer amarras, e, ao mesmo tempo, vestido para a civilização, um "ser-no-mundo" existencial, no sentido em que Matin Heidegger usa em "Ser e Tempo". O poema saiu de chofre e o dediquei a um dos grandes poetas do Ceará e à sua obra então publicada "Psi, a Penúltima", que eu lera horas antes e que muito me inspirara.

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informações

Autoria
Juscelino V. Mendes.
Ficha técnica
Este poema foi objeto de concurso em Portugal e selecionado para publicação com outros poetas portuguêses.
Sobre a foto:
Estas fotografias foram tomadas no ano de 1971, quando os índios Yanomamis eram isolados e muito pouco aculturados. PESQUISA REALIZADA NOS ÍNDIOS YANOMAMIS APÔIO PROJETO RONDON.
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ayruman
 

Maravilha de Poema nobre amigo.
Fantástica e numinosa viagem ao seu mundo interior.
Salutar. Muito salutar.

Abraços. jbconrado

ayruman · Cuiabá, MT 9/9/2008 00:34
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Raiblue
 

Bon jour, J, meu querido!

Que linda viagem ao centro do seu ser, J !!
Melancólica e lírica como é a vida e suas ondas.
Vemos o mar....sabemos que ele está lá,dentro de nós,
mas só num silêncio profundo conseguimos, por segundos,
tocá-lo, quando tudo se despe e se mostra como é.
Retornamos.A vida exterior nos chama.Vestidos,novamente nos tornamos estrangeiros,mas nossa alma Yanomami é eterna e continua a pulsar em nossa natureza, livre e naturalmente bela!
Pena só podermos desfrutá-la ,assim, num profundo momento de silêncio e solidão, solidão que nos revela.

Podem nos tirar tudo, mas a alma Yanomami resistirá e nos elevará
aos azuis caminhos da eternidade...

Emocionante,J!!
Aplausos, procê, poeta maravilhoso!

um beijinho blue_nu_Yanomami...
Blue

Raiblue · Salvador, BA 9/9/2008 10:53
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Raiblue
 

Pensei nessa música...deixei pra vc:

"Deixo fluir tranqüilo
Naquilo tudo que não tem fim
Eu que existindo tudo comigo, depende só de mim
Vaca, manacá, nuvem, saudade
Cana, café, capim
Coragem grande é poder dizer sim


Pena que nos amordaçam e ficamos sem poder falar...,mas a alma continua clamando pela liberdade do 'sim'!

Mais besitos...nus como minha alma...
Blue

Raiblue · Salvador, BA 9/9/2008 11:01
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Raiblue
 

Nu com a minha música - Caetano Veloso,fantástico!

Raiblue · Salvador, BA 9/9/2008 11:02
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Juscelino Mendes
 

JB,
agradeço sua visita sempre bem-vinda!
Abraços.

Juscelino Mendes · Campinas, SP 9/9/2008 12:00
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Juscelino Mendes
 

Blue-Chips,
se você uma ação na bolsa seria uma blue-chips, mais cara, minha cara, ainda que sujeita às intemperes econõmicas...rs
Obrigado pelas mensagens, poemas e presença tão interessante e bem-vinda!
Bjs.

Juscelino Mendes · Campinas, SP 9/9/2008 12:06
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danlima
 

Juscelino, gostei muito do seu texto... uma pureza perdida num tempo imemorial, uma nudez encantada perante o mundo físico espiritual, uma nudez de um paraíso perdido, Adão que recobrou a consci~encia e portanto, a noção do pecado... continua um yanomani, entretanto, e isto é muito bom, pois se conserva parte da pureza quem, um dia, foi nossa utopia... Belo trabalho!

danlima · Brasília, DF 9/9/2008 17:18
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Marcos Pontes
 

Reflexõe, reflexões... Enraizamos nossas certezas, descobrimos mais de nós ou nos ignoramos completamente, repensamos o de onde viemos, tentamos o entender os porqu~es e a lugar nenhum chegamos. Pensamos, logo existimos, né, Descartes? Pensamos para existir? Eis mais uma bifurcação folosófica.

Marcos Pontes · Eunápolis, BA 9/9/2008 20:06
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Juscelino Mendes
 

Dan,
maravilha de mensagem poética a sua.
Sim, nossa utopia que pode ser resgatada
pela fé e esperança.
Grande abraço.

Juscelino Mendes · Campinas, SP 9/9/2008 23:12
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Juscelino Mendes
 

Bifurcação filosófica que ela mesma não resolve, apenas aponta. Essa bifurcação, meu caro Pontes, só a religião, fincada na fé genuína, busca solução.
Grande abraço e obrigado.

Juscelino Mendes · Campinas, SP 9/9/2008 23:14
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clara arruda
 

Um texto maravilhoso meu querido.
A fé que move todas as coisas.Volto daqui a pouco.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 10/9/2008 17:07
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Marcos Pontes
 

Marcos Pontes · Eunápolis, BA 10/9/2008 17:27
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clara arruda
 

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 10/9/2008 18:12
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EdimoGinot
 

Juscelino,

Lendo seu texto, com cuidado, não senti um passeio do corpo.
Senti algo mais. Foi um passeio de alama.
Parabéns pelo belíssimo texto. Valeu.
Um abraço

EdimoGinot · Curitiba, PR 10/9/2008 18:49
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Raiblue
 

Vo(L)tandoooo ...de alma nua....blue no ar...blue noir...
Yanomami,meu nome...seu nome...nossos nomes...

beijos e beijos, J....blue_nu_yanomamisss...
Blue (Blue-Chips...rs)

Raiblue · Salvador, BA 10/9/2008 20:45
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Cintia Thome
 

Quando nos deparamos com estes instantes (tão longos e com um tempo eternidade...) imutáveis, onde não compreendemos nada ou tudo o que está dentro de nós, quase arrebentando de dor e vazio,escrevem os poetas assim....
Parabens.

Cintia Thome · São Paulo, SP 10/9/2008 21:50
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Juscelino Mendes
 

Obrigado a todos vocês que me honram com suas palavras e votos. Grande abraço.

Juscelino Mendes · Campinas, SP 10/9/2008 22:54
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Sônia Brandão
 

Vejo em seu poema o anseio da volta ao paraíso perdido.
Parabéns.
bjs

Sônia Brandão · Bauru, SP 11/9/2008 01:30
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Claudia Almeida
 

Enraizado no mais puro espirito Yanomame eu sou!
ótimo texto
claudia

Claudia Almeida · Niterói, RJ 11/9/2008 03:06
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Juscelino Mendes
 

É isso aí, Sônia. Obrigado. Claudia, abraços.

Juscelino Mendes · Campinas, SP 11/9/2008 09:42
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Coluna do Domingos
 

MINHA OPINIÃO

Grande estudioso da palavra sagrada também penso como Joseph Comblin, Ressureição, Editora Herder, São Paulo 1965 {doutor em teologia pela universidade de louvaina desde 1950,} Parusia é para todos, é uma forma bem convicente, pois o poder da substância continua viva, ao repassar de um novo dia, uma ressureição, por que a ressureição ?, ora, pelo simples fato da caminhada, se tem uma estrada a percorrer é porque não se chegou ao fim. Como chegar ao fim da estrada, bem se somente há caminheiros na estrada é porque a estrada está viva. Mas tem um porém, quem ficou para trás como virá para frente, penso que o Mestre dá uma parada para que os que ficaram possam passar adiante, Mas de trás passar adiante mesmo, ai nesta encruzilhada penso que é preciso entortar o tempo, porque ?, porque na ressureição não é possível uma ressureição de um jovem que morreu quando era jovem uma criança ressussitada enquanto criança. Fica muito racional, lógico, muito humano e fere ao dormir no túmulo. E A solução ? Pare o tempo "Real" ? introduza a vida sem a substância, mas com a existência. Ora,Uma vida sem substância é uma questão de fé. Pois congele a fé e coloque os milhões de planetas que estão desabitados, Vazios - Mas todos estão preenchidos pela existência, mas não estão preenchidos pela sunsbstância, então pegue a substância e preencha o vazio da substância com a substância real, pois a existência está lá, que as coisas se encaixam direitinho. Sim, mas tem uma falha escatológica, qual a falha. A dimensão humana não pode viver esta dimensão. E Quem pode ? somentes as substâncias. Entendi falta só criar um nome para este local, fique a vontade. Eu, Comblin e Juscelino ?. Não sei.

Comentário extraido de nu como um Yanomami de Juscelino Mendes, Campinas (SP) Banco Overmundo Setembro,2008

Coluna do Domingos · Aurora, CE 11/9/2008 13:48
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Juscelino Mendes
 

Caríssimo,
sua mensagem deu um nó em minha cuca!
Sua mente vai num turbilhão de idéias yanomamis
e repletas de folhas escritas à mão e bem produzidas.
Seus comentários enriquecem os meus poemas.
Obrigado e grande abraço.

Juscelino Mendes · Campinas, SP 11/9/2008 19:46
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Doroni Hilgenberg
 

Juscelino,
belo poema
Livre, leve e solto,
em momentos de sonho
mas voltando a uma realidade
que não deseja.
bjssss

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 12/9/2008 10:23
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Juscelino Mendes
 

É, Doroni, a realidade da vida é um
enigma. Lindo dia prá você aí nessa terra
quente e de trovoadas inesperadas como a vida.
Bjs.

Juscelino Mendes · Campinas, SP 12/9/2008 10:29
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ayruman
 

Fantástica e numinosa viagem ao seu mundo interior.
Salutar. Muito salutar.

Confirmando. Abraços. jbconrado

ayruman · Cuiabá, MT 12/9/2008 17:35
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

você conhece muito mesmo a palavra e sabe trabalhar com ela, um forte abraço.votado.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 12/9/2008 19:35
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Ronaldo Teatroooo
 

Parabéns
Muito bom mesmo

Ronaldo Teatroooo · Chapadão do Sul, MS 12/9/2008 20:41
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Juscelino Mendes
 

Caros poetas,
Ayruman, Marques e Ronaldo,
obrigado por suas manifestações
construtivas.
Grande abraço.

Juscelino Mendes · Campinas, SP 12/9/2008 20:50
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ysabella
 

Ju, como sou distraida. Estive aqui logo que vc postou. Li achei
que deria estar entre os meus favoritos e assim o postei lá. Mas o mais importante esqueci: dizer que te acho um Poeta sensivel e
profundo entendedor dos misérios da vida. Bela obra, parabens, bj
(felinos tb cometem erros)

ysabella · Rio de Janeiro, RJ 13/9/2008 10:16
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Juscelino Mendes
 

Felinos não cometem erros. Felinos se enganam...rs Obrigado, Ysabella pela sua gentileza e sensibilidade de sempre.
Um beijo.

Juscelino Mendes · Campinas, SP 13/9/2008 17:45
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