O ACASO NÃO ESCOLHE LADO

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CCF · Praia Grande, SP
2/11/2009 · 4 · 2
 

Diante dos últimos acontecimentos políticos em Uçubaçaip, era previsível que a sessão legislativa da Câmara Municipal daquele município encravado entre as grandes águas e verdes montes, naquela noite de céu sem estrelas, fosse tumultuada.
Lá dentro, das três galerias existentes; duas, ao centro e a esquerda de quem estaria na mesa diretiva dos trabalhos; o Vereador Presidente , seus Secretários e o Corpo Jurídico da Casa, estavam ocupadas pelos correligionários do candidato que fora declarado Prefeito pela justiça local. Na outra galeria à direita desses homens, os correligionários do prefeito condenado como comprador de votos. Esses, distantes dos seus locais de trabalho na Prefeitura, procuravam ser convincentes na sua tarefa de mostrar apoio ao patrão.
O Presidente da Câmara Municipal de Uçubaçaip, um empedernido governista, já sentado na sua cadeira aciona a sirene que anuncia o inicio dos trabalhos legislativos daquela noite.
Uma, duas...sem paciência não exita em tirar da manga do seu terno de linho uma carta, capaz de calar a boca daqueles manifestantes.
Policiais da tropa de choque da Policia Militar começam a entrar no plenário e ocupar a galeria a esquerda do Presidente. Ao todo, 12 policiais estilo guarda roupa. Posicionam-se frente às cadeiras de onde partiam os apupos mais intensos aos vereadores governistas à medida que esses iam respondendo sim a verificação de cuorum.
A intimidação funciona e uma relativa calma toma conta daquele espaço. Faixas e bandeiras são abaixadas, os apitos são guardados e os apupos param.
Começa a sessão, mas não demora e um dos vereadores da situação, provoca a reação das galerias ao centro e a esquerda do púlpito onde estava. Ele debocha e diz que não está nem ai para as vaias e manifestações das galerias.
Os apupos voltam e os apitos retornam com força. O Presidente da Câmara ameaça usar a força policial e esvaziar as galerias. As vaias são a sua resposta. Ele se levanta e simultaneamente faixas negras são amarradas ao rosto dos que estavam nas galerias ao centro e a sua esquerda. O Hino Nacional Brasileiro ecoa pelos confins daquela casa dita do povo.
Algumas versões sobre o que ocorreu a seguir são iguais em determinar a irresponsabilidade de quem ascendeu o pavio dos acontecimentos.
Assim que o Hino Nacional terminou os policiais começaram a avançar sobre os que estavam sentados e de pé a sua frente, determinados a tirá-los dali. Um dos manifestantes, inconformado com a violência daqueles homens fardados, atraca-se com um deles. Esse mais forte e preparado domina o cidadão, com sua mão esquerda no seu pescoço, empurra-o e o acua na mureta que separa aquela galeria do plenário. Esse policial com a mão direita, saca da sua arma e a aponta para a cara do manifestante que nesse momento espelha na face sua fraqueza diante da clava forte da tirania.
A mão do acaso, vinda das profundezas das tragédias, projeta sobre a mão do policial, o galão de água, ao alcance de qualquer um ali próximo, no exato momento no qual o policial aciona o gatilho da sua arma.
Sua mão, levada pelo impacto daquele pesado galão, muda sua direção para o outro lado, para a galeria a direita do presidente da Câmara Municipal de Uçubaçaip, que de pé, assiste impávido as conseqüências da sua carta na manga.
A bala singra aquele pequeno espaço que separa uma galeria da outra, pouco mais de dez metros. Passa por corpos em movimento, bandeiras e faixas em fuga e vai terminar sua jornada de morte na cabeça de um cidadão convencido a estar ali segurando uma faixa que trazia escrito em letras vermelhas “DEIXA O HOMEM TRABALHAR”.
Quando o seu copo caiu inerte sobre as cadeiras da primeira fila, todos ficam paralisados, congelados por segundos, que duraram uma eternidade.
-0-
A história acima é uma ficção muito próxima, mas muito próxima mesmo da possibilidade de ter acontecido.
Não aconteceu! Mas se acontecesse, em sua opinião, quem deveria ser responsabilizado pelo trágico acontecimento narrado? Por isso, peço o seu acesso ao site: www.catraca-pg.blogspot.com e lá, responda uma pesquisa a respeito existente. Sua resposta será muito importante, pode acreditar nisso!
Talvez respondendo a essas perguntas hoje, possamos evitar uma tragédia amanhã.
Conto com a sua resposta.

Sobre a obra

Meu texto ainda que uma ficção, podia transformar-se em realidade a qualquer momento. Mas até quando o acaso não pode transformar uma manifestação do povo, numa tragédia?

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informações

Autoria
Celso Corrêa de Freitas
Ficha técnica
Composta a partir de fatos reais numa Câmara Municipal de uma cidade brasileira.
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azuirfilho
 

CCF · Praia Grande (SP)
O ACASO NÃO ESCOLHE LADO

Um Texto muito bem feito.
Um acontecimento até muito usual no dia a dia pelo nosso Brasil afora, só que sempre as balas perdidas atinge aos que estão mais do lado dos oprimidos, mesmo que seja um oprimido que esta segurando a propaganda do insensível dominador.
Fui no Site de Praia Grande participar da enquete.
Não acho a culpa da Justiça, e sim dos homens como o Juiz, que colocam a própria Justica, a oprimir o povo Justo.
A Luta continua em todos os lugares
Não temos de nos omitir ou ficarmis ausentes dos acontecimentos.
parabéns pelo Trabalho.
Abração Amigo

azuirfilho · Campinas, SP 2/11/2009 17:11
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

um magnífico texto, um grande abraço.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 5/11/2009 20:02
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