O AGENTE CUBANO
Passei por situações vexatórias no Brasil. Momentos que prefiro não lembrar, mas menciono ainda nesta crônica como advertência a outros turistas. Numa bela manhã de abril vivi um acontecimento insólito. Ainda excitado pela luminosidade dos trópicos em contraste com o cinzento inverno europeu, propus-me um passeio pelas ruas do Rio. Chegara num vôo noturno de Buenos Aires, e tudo o que vira até então foram as luzes do Rio multiplicadas pelo espelho do mar na orla; cedo o sol cumprimentou-me com o sedutor convite de um passeio, invadindo sem cerimônia o quarto desarrumado pelo cansaço da viagem. Aquiesci ao convite, ganhando a rua. O trânsito fluía célere como em toda metrópole. Atravessara a avenida e andava distraído, pisando sobre as ondas desenhadas pelas pedras portuguesas do calçadão de Copacabana. Seguia a esmo, tendo somente a cautela de fazer evoluir sobre o mapa que levava à mão — conforme evoluíam meus passos — uma linha com um lápis. Precaução de turista para não se perder. Lembro-me de, na ocasião, imitar deliberadamente Teseu e pensar por conseguinte em Ariadne.
Ao final de uma rua, com um jornal sobraçado que havia comprado pouco antes em uma banca — com o qual pretendia exercitar meu modesto português no hotel — e o mapa assinalando o labirinto de ruas, cheguei numa grande praça com muitas árvores. O movimento de gente desde uma quadra antes era grande e frenético. Acho que a falta de fleuma atraiu-me mais ainda a atenção, não pela rápida movimentação mas porque as pessoas gritavam e corriam em direção à praça. Apressei o passo e a evolução da linha no mapa.
Na praça tudo o que havia era balbúrdia e muita gente. Sobre o monumento de um homem a cavalo, vários jovens gritavam um discurso e as palavras vindas de longe até mim, trazidas pelo vento, chegavam quase incompreensíveis. Meu fraco português e a gritaria infernal ao meu lado eram um empecilho ao entendimento. Eram todos jovens. Protestavam contra o governo, pude perceber ao cabo de vários minutos. Exigiam com palavras de ordem e muita ira, como se isso fosse bastante para intimidar os militares no poder, a libertação de vários jovens detidos numa manifestação no dia anterior. Sacudiam jornais — o mesmo que eu comprara — com a denúncia das atrocidades cometidas contra eles. Eram estudantes universitários e não conheciam limites para sua coragem. Mas isso não bastava. Não demorou para a polícia chegar. A balbúrdia transformou-se em enfrentamento aberto. O corre-corre envolveu-me. Surpreso, corri para fora do tumulto. Pouco adiantou: um soldado pulou sobre minhas costas e imobilizou-me com uma chave de braço. No desespero, praguejei em francês. Foi a gota d’água. O soldado arrastou-me até um superior com um sorriso triunfante nos lábios. Eu nada entendia.
— Chefe, peguei um cubano. Há agentes estrangeiros infiltrados na manifestação.
O sargento botou sobre mim um indefectível olhar de asno carregado de gravidade, sorriu para o subalterno, esqueceu os estudantes — que os outros policiais se ocupassem com eles —, e disparou:
— Soldado, hoje é o nosso dia. A nossa promoção está garantida. Vamos com o homem para o DOPS.
Em poucos minutos estava no DOPS, cercado de homens mal-encarados que gesticulavam e pareciam não estar de comum acordo. O ambiente recendia a fumaça de cigarro e os móveis pesados harmonizavam-se com os semblantes carregados dos agentes. Esperavam um superior para endossar o grande achado: o agente cubano.
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Valeu, Leandro, é bom lembrar que além do lado cruel, esses regimes são ainda dotados de asnos que os representam. É bem a cara dos serviços de "inteligência" das ditaduras. É que a rudeza ocupa o espaço do raciocínio.
Abraço.
Mônica, perfeito tudo que você disse. Obrigado. abcs
jjLeandro · Araguaína, TO 21/2/2007 17:44
Caro Leandro:
Baixei o conto inteiro pra desgustar mas já gostei muito do que li. Perdão pela ignorância mas você tem contos publicados em livros "conseguíveis" aqui pelas bandas da boa terra?
[]s,
Infelizmente não tenho, Luciano. Se tivesse, seria um prazer indicar-te.
Vc pode ler muito na internet, tenho vários em muitos endereços.
abcs
salve poeta!
... logo, logo teremos as proezas de Pierre Dessault em livro!
Muito bom. Dai só sai coisa boa mesmo!
fico encantado.
saudações
Grande pantaneiro.
Tamo trabalhando pra isso. Mas vc sabe bem que essa nossa vida de escritor é um tantinho difícil. Se dependesse apenas de nossas vontades estaria agora aboletado numa rede lendo as minúcias galácticas que vc traz a lume.
OBS: Minúcia aqui é apenas um contraponto ao galáctico, nada que ver com o sentido denotativo.
Abcs
Além do texto, claro e interessante, o retrato de uma época que se espera ter passado, mas, infelizmente, mal substituida na questão da violência, hoje sequer há espaço para lendas a serem associadas.
Camafunga · Pelotas, RS 22/2/2007 18:05
que venha o livro!
gostei muito!
beijão
francinne
Gostei.
Quando Ariadne entrar em cena, então, os gorilas vão debulhar as bananas todas. Senta a pua!
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