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O Amor e a Lápide

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Ricardo Syozi · São Paulo, SP
18/10/2010 · 1 · 2
 

Um passo de cada vez.

É dessa forma que uma belíssima mulher, com seus vinte e poucos anos, adentra o cemitério vazio em uma tarde nublada e fria. Suas roupas escuras remetem a uma provável viúva, mas sua pele macia apresenta uma jovialidade típica de uma adolescente.

Ela é uma viúva.

Dezenas de lápides são ignoradas no caminhar da bela mulher que segue pelos corredores tão vazios quanto uma garrafa de vinho após uma noite de amor. Ela para em frente a uma lápide que não se diferencia em nada das anteriores, segue até ela, se agacha, e a acaricia com todo o carinho do mundo. Seus óculos escuros são retirados de sua face apresentando, assim, lindos olhos negros. A Viúva sorri.

- Oi, Querido. Eu sei que devia ter vindo te visitar semana passada, mas não consegui. Fiquei presa no escritório com toda aquela papelada, e você sabe que não consigo deixar nada pela metade…

O vento sopra forte.

- Não, não. Não me esqueci de você, é que tô com muito trabalho, sabe? Mas tudo o que eu queria era ficar o tempo todo com você, que nem quando nos conhecemos, naquela sorveteria, eu te sujei com meu sorvete de baunilha, você disse que aquela mancha nos juntou e que nunca iria lavar seu terno… Foi amor à primeira vista.

Os olhos da linda Viúva brilham com a lembrança de um passado bom, de um passado recente que parece ter sido interrompido muito cedo.

- Ah! Te trouxe um presentinho, você vai adorar, eu mesma que fiz, tô aprendendo crochê com minha mãe.

A Viúva pega de dentro de sua bolsa um cachecol cinzento, ela, muito animada, leva o objeto até a lápide, mas o movimento de sua mão é interrompido.

- O que que é isso? Quem deixou essas flores aqui? Quem veio te visitar?

Palavras machucam.

- Então foi ela… Ela veio te visitar… Você a deixou vir até aqui, deixar essas flores, conversar com você. Ela te tocou? Tocou?

Mas o silêncio dói mais do que mil palavras banhadas em ódio.

- Ela te tocou.

Com um pulo enfurecido, a Viúva levanta-se enquanto ainda segura o cachecol cinza, ela o aperta como se estivesse esganando um pequeno abutre. Seus olhos ainda brilham, mas agora estão encharcados de lágrimas.

- Tudo o que eu sempre te dei foi amor, carinho, fidelidade. Mas você nunca retribuiu de verdade.

Uma chuva fraca começa, algo como se os céus entendessem o momento difícil que nós humanos trazemos para nós mesmos.

- Eu me vou, pois nada do que você dissesse poderia me fazer retornar, nada do que você fizesse poderia me fazer acordar desse pesadelo. Você fez sua cama, agora deite nela.

Um passo de cada vez.

É assim que a Viúva vira as costas para seu antigo amor, e segue por entre as lápides que agora são bem maiores que a anterior.

Lápide após lápide.

Corredor após corredor.

A Viúva, de repente, para.

- O que? Você me chamou? Quer saber por que estou triste?

Ela segue devagar até uma nova lápide que parece mais nova do que as demais. Parece mais limpa, mais arrumada.

- Estou triste porque fui traída, porque meu amor foi enterrado na tarde de hoje, porque essa garoa está desmanchando minha maquiagem.

A chuva já havia parado.

- Você me acha bonita, você diz? Não sei… Ainda é muito recente, não sei se estou pronta, acho que preciso de um tempo… Mas acho que podemos conversar um pouco…

Algo muito louco acontece dentro da mente humana, ou dentro do coração humano, ou talvez, apenas talvez…

A maior das loucuras seja o amor.

Sobre a obra

Conto curto sobre uma VIÚVA que visita o cemitério.

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informações

Autoria
Ricardo Syozi
Ficha técnica
Conto. Tragicomédia.
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Sihmoneh Maia
 

Narrativa fluida, leve e um tanto tragicômica, como talvez sejamos todos, seja devido ao amor ou à falta dele, seja por nossas individualidades tão complexas... Não importa: o ser humano é mesmo um enigma, com suas loucuras, fantasias, delírios e emoções contraditórias. Parabéns pelo texto. Já estás entre meus favoritos.
Se quiser, visite meu perfil para conhecer meu trabalho, tá bom?
Abraço.

Sihmoneh Maia · Santo André, SP 14/3/2011 09:54
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Ricardo Syozi
 

Muito obrigado.

Ricardo Syozi · São Paulo, SP 14/3/2011 10:12
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