“Se eu pudesse roubar as gotas de luar que vi brilhar nos olhos teus
Guardava aquele encanto para enfeitar meu pranto na hora do adeus...
Sei que muito breve tu irás me esquecer, eu sei que vou sofrer
Por culpa da minha paixão...
Eu devia te deixar
Mas vou continuar para castigar meu pobre coração...”
Há em certos amores uma mistura de pimenta vermelha mais que ardida e resto triste de certo pelo temor da confissão do bem querer...
Ela parecia sempre à espera, ansiosa aguardava a resposta redentora o sim definitivo que a faria ser aceita na sua condição de futura nutriz. Era jovem e recém feita mulher, mas de uma feitura que começava estragada porque seu corpo não parecia responder à sensualidade. Amar, antes de tudo era intromissão, violação e sujeira. Agüentava apenas para botar filho no mundo, continuar o sobrenome patriarcal.
Foi educada para dizer sim, dócil como um bicho amestrado.
Na salinha apertada se escutava a respiração pesada daquelas de barriga adiantada, outras nem tanto e certas mocinhas, de riso acanhado e mãos nervosas... Decerto medrosas pela exposição de suas intimidades. “Olha filhinha, o segredo é o sapato, tira tudo, menos o sapato e olha pra baixo, guarda ao menos os pés cobertos”, conselho da mãe repetido e preservado na memória de Clarice.
Na lua-de-mel, a última peça no chão, ela pediu ao marido, “deixa meus sapatos”.
E ele se acostumou, aquilo era fita e logo passava. Mas, o dito não se confirmou. Quando Horácio se queixava do incômodo, ela enfiava dessas meias, tricotadas de lã grossa, orgulhosa de saber preservada uma parte do seu corpo.
Da boca macia do doutor, em alivio e suspiro profundo recebeu a boa nova. Agora era ter paciência e esperar a corredeira natural das coisas. Filho viria, bastava ceder sempre que fosse chamada, fechar os olhos imaginando acalentar o inocente em seus braços protetores. E que fosse tudo rápido, o cheiro de Horácio lhe enjoava assim como toda pequena hora do dia.
Filho nunca veio. Então era isso, amarrada em um homem de semente seca, espinho a rasgar seu ventre, areia que cobriu e endureceu suas lágrimas ano após ano. Clarice serviria apenas como enfeite social.
Em ocasião de uma festa de grã-fino, carnaval particular sem graça onde tudo é fingimento, alegria morta, preocupação em se manter alinhado para escarnecer mais tarde de quem não seguiu à risca o código inútil dos bem nascidos. Ela espichava o olho de vez em quando, mas, o marido já estava desaparecido no salão tempo suficiente de quatro copos vazios, bebida forte a subir feito fogo em Clarice e encher sua visão de beleza.
Ele veio em um passo tranqüilo levantando da lembrança a mulherzinha ingênua e confiante, o som da sua voz ainda guardava maciez.
Passaram a se ver com certa freqüência em um hotelzinho de horas contadas na Praça Tiradentes. Naquele dia era Clarice das taças vazias, e no instante que sentiu a mão do homem quente nas suas pernas, soube que era o momento certo de abandonar aquela festa. Ninguém para notar sua ausência. Ninguém nunca notaria a falta em seus olhos.
Nas ruas escurecidas eles caminhavam se compreendendo, tudo se impregnava nos muros descascados, nas igrejinhas esquecidas, nas pesadas portas de comércio agora emudecidas pela noite. E a brisa ia trazendo a música dos que vivem, som que os acompanhou até o quartinho do alto do sobrado.
“Espera, deixa eu tirar os sapatos...” .
Tudo poderia ter se terminado na felicidade dessas fugas, mas houve transbordamento intenso.
Em poucos meses, já andava sem apetite escondendo os vômitos de mais em mais freqüentes. Horácio ia percebendo as roupas se apertando em formas roliças, os seios que não cabiam na palma de suas mãos, teimando em lhe escapar, como se tudo nela fosse correnteza secreta.
O marido apenas aguardava o dia para o desfecho. Mandou chamar o médico em gritos nervosos, a mulher já tinha perdido as águas, o sangue deitando fora, anúncio do filho tão desejado. Criança que ela buscou no fundo dos sonhos.
Depois de tanto tempo ausentes se reencontraram, ele ajudaria a pôr no mundo o amor escondido. Diante de Clarice que lutava sem trégua, quase sem ar, ele se envergonhou de ter um dia proposto uma solução prática ao problema.
Seria coisa de poucas horas, faria no próprio consultório, confiasse nele, seria discreto.
Teve medo e perdeu-a ali.
E agora a ver aquele corpo que muito beijou se contorcer em dores lancinantes, pequeno e quase desfalecido. Suplicou ao marido que autorizasse um outro procedimento, e ele, irredutível, “não se enfia faca nela, mulher tem que obedecer à natureza”.
O relógio escorria o tempo até o nascimento de um lindo menino sem luz.
Providenciou-se pequena bacia para encaminhar a alma do anjinho.
Horácio veio fumando o charuto e de ar leve, comentou com o médico, “não tem problema, doutor, essa mulher é que gerou sozinha um monstro das entranhas...”
Os olhos de Clarice se fizeram baços e sem brilho.
Há em certos amores o momento perdido, porque não se soube lutar.
Inspirado pela música de Nelson Cavaquinho,seu violão rasgado,e na voz suave de Guilherme de Brito...
Luciana,
Gostei muito do desenrolar de seu conto. Bjs
Lancinante, esse amor perdido entre dor e medo e o desapego dos que não sabem da mulher nem do amor.
Gostei demais.
beijos
Sempre houveram pessoas embrutecidas !
Um beijo !
Luciana
Que texto lindo, menina. Li num só fôlego. Clarice foi marcada para sofrer. Casou com quem não amava e sentiu a covardia a quem entregou seu corpo e sua alma.
Você escreve com uma altivez, uma sensualidade que me causa espanto. Muita competência.
Você é uma contista de primeiro time, além de criar poemas profundos. Você joga em qualquer posição.
Parabéns!
Abraços
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro (RJ
O Amor Perdido
Um Texto muito bem escrito, vocé tem facilidade de expressar.
Um amor triste.
Um sentimento sem fim.
Voc'é uma escritora nata.
Sabe cativar com seu escrito e sensibilizar com o tema usado.
Parabéns.
Voto de louvor
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro (RJ
O Amor Perdido
Voltarei para votar.
Caro Saavedra,é que sou pequena Clarice das taças vazias...Como,acho toda mulher,é,foi,será,não será,eu é que fico sem fôlego para agradecer.Certo,porém é que devo sustentar os olhos e a vontade para continuar observando o mundo,essa belezura e tristeza de mundo e recolhendo suas histórias.Obrigada!
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ 10/7/2008 00:35
Nossa Azuir,eu nunca aprendi a coser,neta de costureira,mãos de fada.Fui sim,daqueles ratos escondidos,alimentando-se solitário.Para a história não ficar tão trágica,era,também um ratinho alegre.Hoje,forçando a porta,esparramei um outro tipo de costura,o meu pano contém tantos caminhos e pessoas,e vou por uma linha sutil escolhendo as combinações,deixando que me levem,não sou eu,é o infinito do ser humano.A máscara que forjamos em medos,ciúmes,amores,trapaças...Escrever para mim,é sofrido,e também fluxo vital.Mas estou longe desse merecimento todo,sou escritora amadora por amar escrever...Pelo menos o rato saiu.Obrigada,e como sempre,acho que falei demais...
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ 10/7/2008 00:51
Luciana,
a música lhe inspirou seu escrito???? Nossa, que espetáculo de inspiração. Um dos melhores escritos que tive a oportunidade de ler por aqui. Com maestria e desenvoltura, desnuda o verbo, frases cruas em orações com vários movimentos encerradas nelas.
Assim, retratas um tema antigo e atual da submissão social a que se sujeitam diversas Clarices...
Muito bom, muito bom...
Parabéns de pé!
Beijos
Belissimo
"Se eu pudesse roubar as gotas de luar que vi brilhar nos olhos teus
Guardava aquele encanto para enfeitar meu pranto na hora do adeus...
Sei que muito breve tu irás me esquecer, eu sei que vou sofrer
Por culpa da minha paixão...
Eu devia te deixar
Mas vou continuar para castigar meu pobre coração...”
Amei!!!!!!!!!! meus votos com louvor!
beijo
Cara Celina,essa letra é realmente linda,e Guilherme de Brito doa todo seu encanto ao violão do Nelson.Eu sempre achei que meu tempo não é o de hoje,nasci fora de época...mas não sou xiita,gosto de tudo,de todas manifestações culturais, contemporâneas mas ,sabe, aonde se perdeu a gentileza?
Se esvaiu feito açucar na àgua na feíura dos nossos gestos,no desamor,no preconceito,na inveja,escuta o relógio apressando,apressando...não quero me tornar desses pobres hamsters de gaiola em suas rodinhas,girando sem sair.Escrever é respirar...
beijos
Quase um cordel, uma prosa muito poética. Sente-se o concreto da realidade dura a cada parágrafo. Excelente conto!
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 10/7/2008 22:21
Cristiano,primeiro as damas,por isso abri a porta e puxei a cadeira para Celina...sei que vai entender...Mas e essa inspiração escondida,foi da música sim,foi de paixão encarnada nessa terra,não correspondida porque muito se tem a entender e aceitar,principalmente a liberdade de escolha,liberdade boa que não cedeu aos apelos de menina de vestido simples e alma nua.Um dia talvez o vento irá soprar quente como o vermelho do meu sangue também deitado no chão...Mais não consigo,não tenho coragem,não posso dizer...Então sento,fecho os olhos e essa terra é invadida por música,e me leva longe,lugar distante,aonde engraçado,pensei no Bandeira,(modificando o poema)"terei o que quero na cama que escolherei..."
Saudações
Marcos,esse arauto ao seu lado é mesmo quem eu estou pensando? O Armorial Ariano? Que privilégio,rapaz...Gracias.
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ 11/7/2008 00:28Meus elogios sinceros para tão belo texto! Parabéns não deixe jamais de excrever. Abraço.
Bruno Lira Alves · Natal, RN 11/7/2008 16:09Meus elogios sinceros para tão belo texto! Parabéns e não deixe jamais de excrever. Abraço.
Bruno Lira Alves · Natal, RN 11/7/2008 16:10
Vai firme, meu caro, excelente texto!
Abraço.
Nic,obrigada pela visita.Saudações!
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ 12/7/2008 01:00
Bruno,ainda não visitei sua página,eu sinceramente gostaria de ser uma Hidra com infinitas cabecinhas,são produções,textos,poesias,Alcanu,Saavedra,Falcão,estão me dando uma sova e meus olhos chegam a arder,sabe aquele clichê do garoto e sua lanterna embaixo do lençol? Pois,então,soy eu...mas em breve já dou com minhas fuças aí nas suas bandas...Obrigada!
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ 12/7/2008 01:05
Juscelino,obrigada pela visita.Saudações!!!
Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ 12/7/2008 01:07
AaMEI AS GOTAS DE LUAR NOS OLHOS, mas traz um conto trsite.
Um bj
Sílvia.BHG.MG.Brasil.VOTO CERTO.
Texto revisado:
Amei AS GOTAS DE LUAR NOS OLHOS, mas trouxeram-me um conto triste.
Um bj
Sílvia.BHG.MG.Brasil.VOTO CERTO.
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