Quer conhecer alguém, abra o armarinho do banheiro.
É o horóscopo maior da intimidade. Ganha de lavada da carteira, celular, pijamas ou gaveta de roupas íntimas. No armarinho do banheiro está quem me conhece de verdade. Quem vê o que não toco e toca o que não vejo. Meu corpo inteiro escondido atrás do espelho. Desodorante, cotonetes, cortador de unha, pinça, pentes, fio dental, creme e gilete. Este último denuncia o improviso feminino, salva-vidas de convites repentinos para jantar ou viagens de última hora para a praia.
Meu armarinho me conserta. Um robô cheio de instrumentos da vaidade, que quanto mais é abastecido, mais se inventa o que cuidar. Machuca, limpa, hidrata, perfuma, fortalece e deixa mais branco. E se aventura nos lugares mais impróprios, como as cutículas e os calcanhares.
Mais ainda, é o meu diário. A vida da minha pasta de dentes acompanha o ritmo da minha semana. A dela começa quando meu cansaço termina, e fica adiantada na medida em que almoço em casa ou repito a sobremesa. Praticamente um casamento. O fio dental, cúmplice, sofre quando é dia de paçoca, milho verde, manga. Despede-se com melancolia, girando os últimos centímetros na música sofrida da caixinha branca. Um velhinho baixo, coadjuvante; um zelador fiel. Hilo encerado, o nome. Grande Seu Hilo.
É minha memória. Vez e outra surge um creme antigo, de quando ia com as meninas paquerar na feirinha da Ucrânia. O aroma lembra as artimanhas que dedicávamos ao interesse alheio, sem ao menos olhar se havia algum garoto por perto. Pouco mudou, não?
É, ainda, minha história. Há algum tempo abrigava água boricada, lenço umedecido e hipoglós. Hoje dá espaço para pasta de tutti-frutti e escova dos Power Rangers. Que venham as loções pós-barba e afins.
O banheiro inteiro é merecedor de muito respeito. Outro dia, soube de uma moça que só acreditou que morava sozinha quando acabou o papel higiênico. Não havia mãe, pai ou irmãos para salvá-la. Eu me dou conta com o toco de sabonete no box e o lixinho lotado. Dá preguiça de ser adulto.
Se o banheiro é um cartão de visitas, o armarinho é a assinatura. Daquelas que nem numerologia ou leitura de manuscrita é capaz de citar com tamanha precisão quem somos, o que vivemos ou qual é o sabor do nosso antisséptico bucal.
É raio-x da vergonha, manual do desejo, passo-a-passo do truque. Uma amostra de nós, por inteiro.
Excelente.
Gostei a ponto de não fazer sugestões de edição
Muito bom.
Mas achei que mais curto, condensado seria mais contundente, marcante.
Votei.
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