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O Bar do Aldo

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João da Mata Costa · Natal, RN
23/12/2010 · 1 · 1
 

O Bar do Aldo

João da Mata Costa
“Bar: estranho sindicato de sócios da mesma dor”

Houve um tempo em que o coração da boemia de Natal ficava no baixo, ali na praia do meio onde durante o dia reunia a moçada para tomar banho e sol e jogar frescobol. Descendo a ladeira do sol tomando as esquerdas ficava o bar do Aldo na calçada onde estava situado o famoso Castanhola-Bar e mais adiante o Hotel Reis Magos e a Tenda.

Nesse corredor até Miami ficavam os bares onde reuníamos em noites memoráveis. No Aldo tinha o melhor tira-gosto de Natal. Uma maminha e um bolinho de bacalhau como jamais comi outro igual. Goiamum cevado numa carcaça de geladeira. Atendimento caseiro e boa música onde improvisávamos o dancing de vitrola. Uma quina de parede servia de escudo para os namorados que se abancavam na mesa. Hedonistas em pleno gozo da mocidade. Vivíamos as noites cheias de sorrisos. Podíamos cantar e dançar livremente na beira da praia. Muitas vezes fazíamos piquenique ao luar, cantando a estrela D´alva e tecendo preces ao vento que leva a jangada para o fundo do mar. O cancioneiro de Caymmi sempre era lembrado na dolência e tristeza da suítes dos pescadores.


Ali reunia toda semana um grupo de grandes amigos e um naipe feminino de primeira grandeza. A cachaça invadia a madrugada e molhava a palavra sedenta de cerveja e prosa. Muitas vezes a velha TL quebrava e eu deixava na praia por dias, ate papai ter tempo de ir buscar. Os meninos faziam piquenique no seu interior até que um amigo meu chegou pela manhã e disse que conhecia o dono do automóvel

Todo bêbado tem suas manias. Um dos nossos queridos amigos gostava de sentar no colo do outro. Havia um outro que gostava de golpear no ombro e braços do que estava próximo. Um outro mais afoito em pegar a namorada do amigo. Tomou-me até aquela mulher da noite. Ninguém resistia à sua lábia. Para ter uma idéia da sua periculosidade, ele fez com que uma amiga que não era do grupo e não era do samba, gostasse de Noel Rosa.

Certa noite a cachaça foi maior e o bolinho de bacalhau estava melhor ainda. A musica boa alcançou a madrugada. Não tinha condições de nada, depois de tantas. Tive que dormir ali mesmo num quartinho de despejo. O amigo Aldo e sua gentil esposa me colocaram numa rede pouco esticada. Dormi com os gatos e de boca aberta. Sem lençol para cobrir a cabeça recebia a maresia que entrava pelas frestas. Acordei todo maquiado e de sapato alto num culto a San Genet. Tudo presepada de um poeta processo. Os amigos que tinham dormido ali e outros que foram chegando pela manhã e sorriam muito com aquela prejura pintada.

Chegou um grande amigo. Todo de branco com sua bata de médico saído de um plantão no hospital colônia. Tomou meu pulso e verificou minha pressão. Antes de medicar soro eu não consegui segurar a fúria daquela gorpada de vomito direto nos seus bolsos de linho branco. A comida da noite anterior ficou estragada e mal processada.

Tomar um banho e começar tudo de novo. No Bar do Aldo vivemos grandes momentos de boemia de uma Natal que já não há. De uma cidade horizontal onde a brisa abundava, conforme dizia um outro amigo. Saudades.

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Autoria
João da Mata Costa
Ficha técnica
Cronicas Natalenses
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MartaLucena
 

Bela nostalgia João, recordar é viver, você escreve ao vivo, parecia que estava vivendo ou presenciando as cenas da sua narrativa. Que saudade. bjs

MartaLucena · Natal, RN 27/12/2010 09:38
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