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O Baú no Boné 03

Foto de Spírito Santo
1
Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ
30/8/2007 · 135 · 8
 

Memória 03

O Barbeiro, o Padre e Eu mesmo.


Não fosse o choque, impactante como um soco no estômago, o momento da prisão teria sido até engraçado. Havíamos planejado, meticulosamente, a pichação. A palavra de ordem, sempre escolhida pela cúpula da organização, naquele dia seria aquela que já andáramos escrevendo o mês inteiro por aí:

‘ABAIXO A DITADURA!’

A pouco tempo lançada (na passeata dos cem mil, talvez), a inscrição já era clássica na época (embora não fosse assim tão banal, para o pessoal de fora de nosso submundo, como parece ser hoje em dia). A próxima inscrição esta sim, pesava a barra só de ser ouvida. Já decidida pela org. ela exigiria muito mais cuidado e segurança. Culhões mesmo, diria, com todo o respeito:

‘VIVA A LUTA ARMADA!’

O ‘Barbeiro’, por ser o mais velho de nós, foi quem comprou os frascos de spray: Preto e vermelho, o básico. A área que cobriríamos com nossa propaganda ia de Realengo à Bangu, passando por Padre Miguel, bairro onde eu morava. Fazíamos o levantamento na véspera, sempre no mesmo horário no qual faríamos a ação do dia seguinte. Era para conferir e cronometrar o horário das rondas que, na época, eram feitas por viaturas da polícia civil e jipes do exército (pontualíssimos), em horas alternadas, além de duplas de soldados da polícia militar, a pé ou à cavalo.

Verificamos, ainda em Padre Miguel, que o tempo entre as viaturas da polícia e o jipe do exército, era muito estreito para que pudéssemos pichar as ruas principais, mais visíveis. Decidimos ir até Bangu onde, ao virar na esquina da rua central, demos de cara com um choque da PM cheio de soldados, que estavam sendo distribuídos, em duplas, pelas ruas.

A tarefa rotineira de Agit-prop, expressão cifrada que, no jargão da época, significava ‘agitação e propaganda’ (basicamente, pichação, comícios-relãmpagos e panfletagens), teve que ser abortada. Não foi preciso discutir muito para que decidíssemos adiar a ação para a semana seguinte.

Éramos três: Eu, ali pelos meus 20 anos, o ‘Padre’ com 19 e o ‘’Barbeiro’, com 28. Voltamos a pé para Padre Miguel. ‘Padre’ (que de católico não tinha nada), era um menino muito branco e gordinho que, apesar de morar no Méier, parecia um estranho no nosso ninho suburbano, vítima perfeita para os marginais maconheiros, meus conhecidos de bairro, que ficavam ali, no lado mais escuro de um prédio do conjunto habitacional, em frente ao ponto do ônibus, prontos para dar um bote num desavisado qualquer e arranjar alguns trocados.

Caía um chuvinha fina, ali pelas quase 2 horas da manhã. Paramos no ponto do ônibus, portanto, apenas para dar cobertura e apoio moral para o ‘Padre’. A viatura da polícia civil veio devagarinho, gelando de imediato a nossa espinha. Não deu nem tempo de ver os maconheiros desaparecendo, subitamente, na escuridão da esquina, como raios sem clarão.

_ ‘Mão na cabeça!”- Gritou um dos policiais, portando uma metralhadora INA, daquelas feinhas, com o pente reto, parecendo de brinquedo, que eles usavam orgulhosos, como se fosse uma Kalashinikov.

Éramos um operário metalúrgico desempregado, estudante de curso supletivo (eu), um empalhador de cadeiras (‘o Padre’) e um barbeiro. Bolsos revirados, nenhuma carteira de trabalho à vista, claro, ainda mais assinada. Aquela hora da madrugada, à toa, perambulando pela rua, podíamos ser tudo, principalmente ‘serviço’ a ser apresentado na delegacia pelos policiais que, aquela altura dos acontecimentos, não haviam prendido ainda nenhuma alma bendita.

(Segue no Download)

Leia também os 'Baús' 01e
02

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informações

Autoria
Spírito Santo
27 de Agosto de 2007
Ficha técnica
Na foto, peças do meu alfarrábio e uma foto histórica:
Depois de uma bem sucedida participação em um Festival da TV Globo, fui entrevistado pela colunista Nina Chaves (de O Globo), como o 'Ele' da semana. Jovem artista emergente, fui preso três meses depois.
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Spírito Santo
 

Este Post, neste extao dia, comemora o meu aniversário de 60 anos.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 29/8/2007 10:52
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Benny Franklin
 

Spirito Santo,

Do Texto:
Narrativa (é isso mesmo?) primorosa. Que tempo, hein?
Parabéns!

Do abraço:
Daqui da Mangueirosa (Santa Maria de Belém do Grão Pará),
ergo um brinde em sua homenagem. Feliz 60!

Abçs, Benny.

Benny Franklin · Belém, PA 30/8/2007 10:02
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Ilhandarilha
 

Parabéns ao mais novo sexagenário! Estamos no aguardo da festa!

Ilhandarilha · Vitória, ES 31/8/2007 09:48
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Spírito Santo
 

Festas, Ilha. Muitas festas. A questão é saber em qual você estará presente. Convidada estás para todas.

Abs grandes, apertados.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 31/8/2007 09:54
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Ilhandarilha
 

Só agora li o texto na íntegra! E fiquei pensando que essas suas memórias, fragmentadas aqui no overmundo, poderiam ser reunidas numa publicação só. Eu sempre achei que falta uma versão mais realista do ponto de vista dos miitantes "subversivos" da época.
Cá pra nós, em 68 eu tinha 8 anos de idade e um pai policial. Me lembro de estar vindo da escola com ele me puxando pela mão e ler num muro a frase Abaixo a Ditadura! (na época eu lia tudo o que via pela frente, encantada pela possibilidade de leitura que tinha adquirido recentemente). Perguntei ao meu pai o que aquilo queria dizer e ele, sempre criativo, me explicou que na verdade a frase estava escrita errado, que deveria ser abaixo a dentadura!. Achei aquilo meio sem sentido, mas ele era meu pai e, aos 8 anos, ainda meu herói e senhor de toda sabedoria. E pra mim, talvez por conta disso, a ditadura, a revolução e os "subversivos" sempre foram, de certa forma, um pouco dessa confusão que meu pai ajudou a colocar na minha cabeça: uma frase escrita errado, um engano, uma confusão sem sentido, como tempestade em copo d'água.
Estou relendo Policarpo Quaresma e vejo lá o mesmo ceticismo que eu tenho (e me parece que você também) pelos grandes movimentos históricos do nosso país: ele mostra o ridículo dos bracaleônicos revolucionários e dos poderes instituídos. A ironia do Lima não salva ninguém. E nem a sua. Teremos nós um dia a força necessária para mudar as coisas?

Ilhandarilha · Vitória, ES 1/9/2007 10:31
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Mansur
 

Me senti dentro do camburão...admiro imensamente tua coragem aos 20 anos, aos 60 então te admiro pelo que tenho lido, escutado e por seu trabalho no Musik. Um brinde ao romântico e brancaleônico herói suburbano que pode nos brindar com sua estória de vida bem vivida!
Grande Abraço com verdadeira admiração...

Mansur · Rio de Janeiro, RJ 1/9/2007 13:38
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Ize
 

Spirito, estou sem fala diante desse relato. A que me sobrou eu coloquei lá no recado que deixei no seu perfil.
Mas ainda tenho fôlego para desejar, ainda que atrasada, tudo de bom pelo seus 60.
Parabéns não só pelo aniversário, mas por ter se conservado íntegro aos seus princípios.
Ao implicar-se com o que vc foi há 40 anos atrás, trazendo pra nós os horrores dos anos de chumbo, vc confere outro sentido ao desenvolvimento biológico, trazendo para os 60 o que de mais nobre existe no termo jovem.
O que quero dizer, sem mais lero-lero, é que vc continua o mesmo gato da fotografia que encabeça a matéria.

FELICIDADES!!!!


Ize · Rio de Janeiro, RJ 1/9/2007 14:23
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Spírito Santo
 

Ilha,
Quer dizer que eu só era 12 anos mais velho que você?! Achei o máximo você se lembrar da versão paterno-policial para a frase. Que piadista, o seu papá! Agora, falando sério: tem uma coisa que sempre me incomodou no Brasil (não vi isto nos outros lugares pelos quais passei) que , talvez seja o nosso maior problema. O mais grave. É esta hipocrisia sem fim, em todos contextos, todos os assuntos e todas as ocasiões. Somos uma triste nação de 'um-sete-uns' com vergonha de sermos nós mesmos. os tempos da ditadura foram tristes, pesados, foram heróicos também, de certo modo, mas, não foram puros e épicos como a maioria fala e escreve por aí. Lima Barreto se vivesse nos 70 - e se sobrevivesse a tortura ou a exílio- teria um prato feito.
Agora, acho que dá pra nós (os mais coroas), salvarmos alguma coisa sim. É só sermos intransigentes com a hipocrisia que campeia no país, os mais novos que nós não tem a menor chance de compreender a armadilha na qual estão envolvidos. Se a gente se acovardar, aí sim, a vaca vai para o brejo ( se ainda houver brejo, é claro)

Mansur,
Grande amigo músico! Obrigado, de novo, pela força.

Ize,
Coroa que (com todo o respeito) és também (embora BEM mais novinha), dirijo a você, mais ou menos as mesmas palavras que dirigi para a Ilha. Acho que o Brasil nunca dependeu tanto da coragem e da lucidez dos Professores (em todos os sentidos que a palavra possa ter) do que hoje em dia.
Caraca! Que tempos.

Abraço fortão para todos

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 12/9/2007 08:46
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