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O Berro do Olho

1
Rafael Lasevitz · Brasília, DF
15/3/2007 · 90 · 4
 

"(...) O som da boate era ensurdecedor. Os dois já estavam lá há quase duas horas, e a sala transbordava de realidade própria criada pela ditadura de seu próprio som. Como em um berro, aquela sala escura e apertada, em que mal cabiam as pouco mais de quarenta pessoas presentes, também era um ato de guerra contra o ruído alheio. A boate, assim como o berro, vê no ruído a idéia de interferência, ou, mais do que isso, de estilhaçamento de algo que deve ser pleno, tão total quanto o silêncio. São a tentativa de invenção de uma jaula de som, colonização totalitária do ouvido. Resta ao ruído o grito de fuga. Ato desesperado em contra-berro. (...)"

Leia o texto na íntegra fazendo o download no link abaixo.

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informações

Autoria
Rafael Lasevitz
Ficha técnica
Estudante de Antropologia na Universidade de Brasília nas horas vagas.
Pessoa que escreve coisas nas horas já ocupadas.
Passa o resto do tempo piscando os olhos para ver se a realidade não está embaçada.
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Adroaldo Bauer
 

Que horas seriam vagas, amigo escriba?
As que o olhar cedeu lugar
Às imagens paridas pela trepidação?
Em vagas vêm os sons,
Vagas son les images
A tua figura criada / descoberta de que tudo dentro, parede, caixa, som, pessoa, da boate é uma instalação contra o berro é uma das mais... mais...
É tão ela que não cabe
nem descrevê-la nem dela descrer.
Pois é.
Gostei.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 14/3/2007 09:44
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Rafael Lasevitz
 

Pensando novamente sobre o que escrevi, acho que, se a boate é um berro contra o berro, só é assim para os olhos de alguns. O próprio personagem admite isso.

Alguns a vêem como repressão do berro. Mas outros, podem vê-la como poltrona confortável do não poder ser ouvido. Aliás, do nem sequer precisar falar.

Muito obrigado pelo comentário Adroaldo!

Rafael Lasevitz · Brasília, DF 15/3/2007 18:48
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Adroaldo Bauer
 

Exato!
Tanto quanto pode algo assim o ser.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 15/3/2007 19:00
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Ana Cullen
 

Bom, como já disse antes em e-mail para o autor, adorei esse texto! E para mim, a boate caótica é exatamente essa poltrona confortável onde não é preciso dizer nada, onde (quase) nenhum comportamento é digno de muita atenção, onde podemos nos concentrar em nós mesmos, e esquecer dos outros.
Mas enfim, todo o texto tem umas coisinhas que eu adorei! Por exemplo:
"Via-se como um grande rascunho para os rolos de papel-biográfico que usava de remo para suas conversas do dia a dia."
"Havia passado por uma adolescência de poucos amores, e as diversas paixões platônicas, com que preencheu suas garrafas descartáveis de poesia nesse período, só serviram para fazer crescer dentro de si uma imagem de corpo humano que flutuava demasiadamente sobre a sua própria realidade para ser alcançado por seus dedos exageradamente sólidos."
Parabéns!
Abraços!

Ana Cullen · Brasília, DF 16/3/2007 10:56
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