"(...) O som da boate era ensurdecedor. Os dois já estavam lá há quase duas horas, e a sala transbordava de realidade própria criada pela ditadura de seu próprio som. Como em um berro, aquela sala escura e apertada, em que mal cabiam as pouco mais de quarenta pessoas presentes, também era um ato de guerra contra o ruído alheio. A boate, assim como o berro, vê no ruído a idéia de interferência, ou, mais do que isso, de estilhaçamento de algo que deve ser pleno, tão total quanto o silêncio. São a tentativa de invenção de uma jaula de som, colonização totalitária do ouvido. Resta ao ruído o grito de fuga. Ato desesperado em contra-berro. (...)"
Leia o texto na íntegra fazendo o download no link abaixo.
Que horas seriam vagas, amigo escriba?
As que o olhar cedeu lugar
Às imagens paridas pela trepidação?
Em vagas vêm os sons,
Vagas son les images
A tua figura criada / descoberta de que tudo dentro, parede, caixa, som, pessoa, da boate é uma instalação contra o berro é uma das mais... mais...
É tão ela que não cabe
nem descrevê-la nem dela descrer.
Pois é.
Gostei.
Pensando novamente sobre o que escrevi, acho que, se a boate é um berro contra o berro, só é assim para os olhos de alguns. O próprio personagem admite isso.
Alguns a vêem como repressão do berro. Mas outros, podem vê-la como poltrona confortável do não poder ser ouvido. Aliás, do nem sequer precisar falar.
Muito obrigado pelo comentário Adroaldo!
Exato!
Tanto quanto pode algo assim o ser.
Bom, como já disse antes em e-mail para o autor, adorei esse texto! E para mim, a boate caótica é exatamente essa poltrona confortável onde não é preciso dizer nada, onde (quase) nenhum comportamento é digno de muita atenção, onde podemos nos concentrar em nós mesmos, e esquecer dos outros.
Mas enfim, todo o texto tem umas coisinhas que eu adorei! Por exemplo:
"Via-se como um grande rascunho para os rolos de papel-biográfico que usava de remo para suas conversas do dia a dia."
"Havia passado por uma adolescência de poucos amores, e as diversas paixões platônicas, com que preencheu suas garrafas descartáveis de poesia nesse período, só serviram para fazer crescer dentro de si uma imagem de corpo humano que flutuava demasiadamente sobre a sua própria realidade para ser alcançado por seus dedos exageradamente sólidos."
Parabéns!
Abraços!
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