O Bolero e o Walkabout (Resenha Franny and Zooey)

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Caloan Walker · Salvador, BA
10/7/2010 · 14 · 6
 

Franny and Zooey
J. D. Salinger
Little, Brown and Company
ISBN-10: 0-316-76949-5
202 páginas


Após o último romance que li (“O lobo da estepe”, de Hermann Hesse), busquei uma leitura que me descentralizasse (além de “A identidade cultural na pós-modernidade”, de Stuart Hall). Incidentalmente, “Franny and Zooey” reluz aos meus pés, um de dois exemplares (ao menos em inglês) em toda a loja. Apostei, investi em Salinger sem medo de perder. Ganhei.

“Franny and Zooey”, publicado em capa dura em setembro de 1961 pela editora Little, Brown and Company (em New York); é uma junção de duas estórias publicadas na revista The New Yorker: “Franny” em janeiro de 1955 e “Zooey” em maio de 1957. Trata-se do casal mais novo dentre os sete irmãos da família Glass – Franny, 20 anos, aspirante a atriz, revoltada com os egos inflamáveis do meio acadêmico que freqüenta, é a primeira parte do livro e nos introduz à parte seguinte, Zooey, 25 anos, ator profissional, usa seu sarcasmo e humor ácido para criar um caos do qual só ele pode extrair a ordem na casa daquela família que, dos sete prodígios, perdeu dois: um, o mais velho, Seymour, por suicídio; o outro, Walt, um dos gêmeos, foi morto em guerra.

Com esses elementos, é natural pensar que é um romance de sofrimento, de fardo, ou algo muito sentimentalista, mas não é o caso. Talvez fosse, com outro escritor. Não quero dizer com isso que sou perito em estilismos literários ou um conoisseur da obra de J. D. Salinger. Tampouco sou um desses intelectualóides que lêem livros só pela grandeza do autor e fingem que estão sempre prontos para ir a um banquete de literatos da Londres do século XIX.

O primeiro livro que li de Salinger foi “The Catcher in the Rye” (“O apanhador no campo de centeio”, no Brasil), pois tinha lido um belo excerto dele no perfil do Orkut de um amigo e, ao visitá-lo em Curitiba, fomos comprá-lo (não o achava aqui em Salvador). Quem já leu sabe que não é livro de culto ou auto-ajuda, sequer tem a intenção de revolucionar a vida de alguém. Mas tem um forte apelo, pode ser até o que chamam de “leitura de formação do indivíduo”; tem uma fluidez narrativa e de diálogo que parecem denunciar sua autoria.

Essa fluidez, essa musicalidade no contar da estória, combina perfeitamente com a temática zen de “Franny and Zooey”. Nada nela é doutrinário, há apenas um debate sobre filosofias e literaturas de religiões como catolicismo e budismo, é também sobre como, onde e se a fé deve ser buscada.

É indiscutível que a música clássica, por sua complexidade, fica gravada em algum canto da nossa mente depois de ouvirmos. Creio que, da mesma forma, os livros realmente bons que lemos ficam impressos em nós mesmos após a leitura. Para celebrar minha leitura deste livro (não é o melhor de todos, mas é ótimo), escrevo esta resenha ao som do Bolero de Ravel, uma sinfonia que ouvi nos primeiros anos da infância (creio que aos 5 anos de idade) e que me acompanhou a vida inteira por ser uma extraordinária marcha que, ao meu ver, conta a história do Começo do Universo e tem em seu Fim a harmonia e o estrondo.

Sobre a obra

Resenha do livro "Franny and Zooey", do escritor estadunidense J. D. Salinger.

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informações

Autoria
Caloan Guajardo
Ficha técnica
"O Bolero e o Walkabout (Resenha de 'Franny and Zooey')" GUAJARDO, Caloan. 2010.
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Sujeito Escaleno
 

Camarada, quando da morte de Salinger, no início deste ano, uns bróders aqui de Sampa resolveram fazer uma uma homenagem a sua obra - digo a obra porque foi isso o que, muito acertadamente, aconteceu. Afinal, o cara já tinha morrido e não ia poder aproveitar o troço, e, mesmo que ainda estivesse vivo, não creio que aprovaria tanto alvoroço com seu nome - na Casa das Rosas (dê uma olhada na internet sobre o que é a Casa das Rosas e irá entender o por que de terem escolhido este espaço).
Foi uma parada muito bacana.

Ontem eu estava zapiando de canais na televisão e assisti a um trecho de um programa que está sendo reexibido na Tv Cultura: Confissões de Adolescente.
O episódio tratava de quando uma das pesonagens perde sua agenda, objeto que tinha como parte de sua existência física e moral.
Ela, em determinado momento, diz que queria morrer. Na sequência ela continua com a mesma ladainha e cita um pensamento do Holden, na parte que ele imagina que se morresse iam levar o seu corpo "para a droga de algum cemitério. Imaginei a minha avó e meus tios fazendo um escândalo. Quando a gente morre eles fazem o diabo com a gente" (aqui em livre adaptação de minha memória).

Enfim, fiquei pensando no que diabos é que se passava pela cabeça do sujeito que escreveu este episódio para fazer uma citação dessa dentro de um contexto daqueles. Quer dizer, que tipo de público efetivamente assistia aquela droga para ele desperdiçar uma passagem tão cara nesta obra de Salinger com eles?
Acabei, como sempre, não chegando a lugar algum, o que também não deixa de ser um dado interessante sobre esta porcaria toda que estou escrevendo agora.

Enfim, o que eu ia dizer é o seguinte: tem um escritor espanhol, contemporâneo, chamado Enrique Vila-Matas, que escreveu um livro de nome "Bartlebye e Cia", saiu aqui no país pela Cosac&Naify, acho que em 2001.
O narrador do livro - bem como o próprio autor - é fanático pela obra do Salinger e faz uma análise ímpar do livro (análise ímpar? que merda de linguagem é essa que estou usando?... acho que tenho que dar um tempo com os jornais.).
Eu quase nunca leio o que me recomendam, mas vivo recomendando coisas para os outros lerem. Bem, não costumo confiar nos gostos das pessoas e não tenho essa veneta da minha pesonalidade como uma disfunção de caráter.
Mas, de qualquer forma, fica aí a recomendação para que leias o tal Vila-Matas. Não é o maior escritor espanhol da atualidade, mas é um dos melhores escritores do mundo atual.

Sujeito Escaleno · São Paulo, SP 10/7/2010 11:38
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Sujeito Escaleno
 

achei a passagem do livro:

“Aí pensei na cambada toda me metendo numa droga de cemitério, com meu nome num túmulo e tudo. Cercado de gente morta. Puxa, depois que a gente morre, eles fazem o diabo com a gente. Tomara que quando eu morrer de verdade alguém tenha a feliz idéia de me atirar num rio ou coisa parecida. Tudo, menos me enfiar numa porcaria dum cemitério. Gente vindo todo domingo botar um ramo de flores em cima da barriga do infeliz, e toda essa baboseira. Quem é que quer flores depois de morto? Ninguém.”

Sujeito Escaleno · São Paulo, SP 10/7/2010 11:41
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Caloan Walker
 

Filho, obrigado pelo comentário. Além de me deixar contente por não ser algo do tipo "Que texto bacaninha, passe lá no meu perfil e comente nos meus"; me apresentou a um autor novo. Já adicionei a uma lista de "Dicas de leitura".

Tampouco creio eu que o fato de você não ter o costume de ler o que outros lhe recomendam (mas recomendar aos outros) seja algo disfuncional ou falta de virtude.

Eu mesmo tenho meus métodos para chegar a um determinado livro e seguir por uma trilha desse ou daquele autor. Não leio porque amigos inteligentes falam dos "melhores escritores de todos os tempos" nem nada do tipo.

Pego um livro para ler se ele aparecer no meu caminho diversas vezes, mesmo que semioticamente. Contudo, sou como você: não costumo confiar no gosto das pessoas, especialmente quanto a filmes (a não ser que sejam MUITO parecidos comigo) ou a livros. Ainda assim, às vezes arrisco como uma espécie de Plano B: após ver os filmes que realmente quero e ler os livros que realmente têm algum significado em minha história - ou seja, quando estou "desimpedido".

Você escreveu bem e isso me seduziu, enquanto leitor, prendeu minha atenção apesar de "camarada" e "bróders". Confesso: respeito muito mais quem escreve bem e não considero isso uma falha, apenas uma característica.

Darei uma olhada nesse Enrique Vila-Matas quando puder e lhe direi o que achei.

Caloan Walker · Salvador, BA 10/7/2010 12:14
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Cintia Thome
 

MUITO BOM . ABS

Cintia Thome · São Paulo, SP 11/7/2010 14:32
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Doroni Hilgenberg
 

Legal a resenha.
Dá vontade de ler o livro
Tem escritores que conseguem deixar uma marca profunda, principalmnete quando transmitem uma mensagem que nos cativa, assim com o certos poetas e musicos.
Acontece que g osto nãos e discute e muitas vezes o que é maravilhoso para um não é tão especial para outros.
Uma questão de pontos de vistas distintos.
Eu por exemplo não gostei desse pensamento ( na passagem do livro de Vila- matas) de ser jogada no rio depois de morta. Nossa, o rio já esta tão poluido... E se houvesse uma segunda chance, estariamos oerdidos...
É preferivel ser velada nesse ritual que é como uma despedida. No entanto, o cemitério também me assusta.

bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 11/7/2010 15:03
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Doroni Hilgenberg
 

digo.. " perdidos"

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 11/7/2010 15:05
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