o circo de novo

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BETHA · Carnaíba, PE
30/9/2007 · 136 · 18
 

O CIRCO DE NOVO


A cidade acordava em sua calma natural, parecendo um bichinho preguiçoso. O barulho afinado dos pássaros cortava o silêncio e espalhava-se nas calçadas das ruas, das escolas, do jardim da infância e na areia ainda branca do velho Rio Pajeú. As moças caminhavam até o açude com suas latas, pondo em dia as fofocas e as notícias do domingo. E mesmo na volta, com aqueles pesos em suas cabeças, ainda tinham ânimo para falar, falar...
O circo chegou! Alegria geral, pois a cidade mudaria por um tempo.
Um palhaço perna-de-pau comandava o show e puxava o coro: “Hoje tem espetáculo?” E a criançada respondia em gritos: “Tem, sim senhor!” “Às oito horas da noite?” “Tem, sim senhor!” “Pompeu, Pompeu!” “Tua mãe morreu!” “Ela tem, mas eu não digo.” “Carrapato no umbigo!” Aquele senhor, o palhaço, a quem as crianças obedeciam cegamente, me fascinava. Eu queria ver seu rosto por trás da maquiagem, mas só conseguia ver o brilho dos seus olhos, que eu interpretava como se fosse sempre de felicidade, pois era isso que o palhaço era pra mim: uma figura feliz e encantadora.
A magia continuava com seus personagens a desfilar pelos meus olhos: as rumbeiras, os animais amestrados com seus domadores, a mulher de barba (que feio!), os rapazes bonitos a conquistar as mocinhas cheias de sonhos e já com desejos de fugir com o circo e quem sabe, pertencer àquela família de nômades e experimentar novos mundos e novas aventuras.
O circo também trazia tragédias. Lembro-me que minha irmã acompanhou o circo pelas ruas sem a permissão de minha mãe. Ah, mas que surra levou, coitadinha! Ainda hoje, minha mãe nem gosta de falar nisso. Mas é que ela era danadinha, largou a lata da cabeça, machucou o dedão do pé e saiu correndo feito louca atrás daqueles artistas do picadeiro.
À noite, outro problema. “Moças de família” só iam ao circo acompanhadas. Outras paqueravam os galãs e ganhavam bilhetes. Rapazes sem dinheiro levantavam os arames que formavam a cerca ao redor do circo e faziam também suas acrobacias para ingressar naquele universo encantado. Em seguida, levantavam a lona e entravam. Às vezes, eram pegos pela camisa e eram expulsos com as vaias da platéia.
E a magia começava: as piadas e brincadeiras do palhaço, as mágicas que eu tentava entender, a dança daquelas rumbeiras cheias de brilho e de meias finas e os famosos dramas e comédias: “A louca do jardim”, “O ébrio”, “A escrava Isaura”, “O casamento do palhaço”...
Era sempre assim: o circo chegava, encantava e , de repente, ia embora. Levava seus encantos, a graça do inusitado, às vezes levava até alguém da cidade . Mas deixava também. Deixava as saudades e as lembranças com que me apego agora, tanto tempo depois, mesmo sabendo das verdades cruas de quem mora no circo... de quem é circo pobre como os que visitaram minha terra.
Hoje conheço alguns truques dos mágicos (não sei pra quê!), não admiro muito os corpos daquelas bailarinas, às vezes tão desajeitadas, não vejo mais no brilho dos olhos dos palhaços apenas alegrias, nem aprovo o sofrimento dos animais para brilharem no palco. Sei também que muitos desses artistas da lona trabalham diariamente para sobreviver, dando espetáculos por um ou dois reais. A realidade por trás das cortinas é, muitas vezes, triste, mas esses heróis do circo controlam seus medos e seus problemas para nos encantar.
Por isso amo o circo em sua simplicidade.
Hoje, eu canto e compreendo a canção que Zedantas, compositor de minha terra, fez para eternizar esta arte que perpassa gerações: “Eu gosto do circo somente em saber/ o que vovô viu meu neto vai ver/ o velho no circo menino se sente/ recorda o passado olhando o presente/ nada de novo no circo acontece/ o circo é criança que nunca envelhece.”


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Autoria
Betha Mendes
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BETHA
 

A FESTA DO COMPOSITOR ZEDANTAS ACONTECE EM CARNAÍBA, NA ÚLTIMA SEMANA DE SETEMBRO. ESTE ANO É A XIV E TEM COMO TEMA "ZEDANTAS E O CIRCO NÃO ENVELHECEM", CUJA INSPIRAÇÃO VEM DA MÚSICA "O CIRCO", GRAVADA POR IVON CURI.
DURANTE O EVENTO, AS ESCOLAS REALIZAM OFICINAS LITERÁRIAS E A ESCOLA DE MÚSICA MAESTRO ISRAEL GOMES OFERECE OFICINAS DE MÚSICAS COM MÚSICOS DE SÃO PAULO(PROVETA), RECIFE(SPOK E MÚSICOS), CACÁ MALAQUIAS(DA CIDADE, MAS MÚSICO EM SÃO PAULO).
O TEMA SERVIU PARA MORADORES DA CIDADE RESGATAREM SUAS MEMÓRIAS DE CIRCOS QUE VISITARAM A CIDADE.
A FOTO É DE UMA CASA SENDO ORNAMENTDA COM O TEMA DO CIRCO.
INFELIZMENTE, NÃO CONSEGUI EDITAR O TEXTO COMPLETO.
ABRAÇOS DE BETHA.

BETHA · Carnaíba, PE 27/9/2007 15:44
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anamineira
 

Betha, lindo o Circo de Soleur, mas o da sua infância me encantou pela emoção, alegria, sonhos que tanto te envolveu. Também lembro de alguns circos que passaram por minha terra quando era criãnça. Volto, tá! Beijos,

anamineira · Alvinópolis, MG 27/9/2007 16:11
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Sérgio Franck
 

Betha, bonita, tenho tanta saudade do circo...

bjo.

Sérgio Franck · Belo Horizonte, MG 28/9/2007 08:38
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BETHA
 

Oi, Ana,
como é bom reviver e ser feliz com as lembranças do circo.
Obrigada e volta mesmo, tá?
Abçs de Betha.

BETHA · Carnaíba, PE 28/9/2007 09:08
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BETHA
 

Franck, querido,
têm saudades que são iguais, a do circo é uma delas, por mais que os circos sejam diferentes...
Abçs de Betha.

BETHA · Carnaíba, PE 28/9/2007 09:09
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Marluce Freire Nascasbez
 

Betha,


Os circos passaram e nunca levavam minhas lembranças...


Os circos de palhaços de caras pobres, de perucas "descabeladas"; de leões sem dentes, de jubas idênticas as perucas dos palhaços; dançarinas de corpos "Deus tome de conta" e os homens e rapazes da cidade babando, nunca viam mulheres de biquíni ( as dançarinas:“rumbeiras”) rsrs A coberta do circo cheios de buracos ( Deus queira que não chova!) Uns macacos "rabugentos", uns cachorrinhos tomados pelos mesmos "rabugens" dos macacos. Mas, tudo tão lindo tão sem igual! Nunca vi em nenhum circo que já fui palhaços arrancarem sorrisos tão verdadeiros... Já fui em grandes zoológicos e não encontrei nenhum leão dos que vi nos circos que vi aqui, parecia que aqueles leões eram tomados pelo sentimento dos seus companheiros de circo, eles olhavam para nós com olhos de gente... E a solidariedade do povo da cidade era tanta que circo já saiu de minha cidade de lona nova! Rsrsrs E os habitantes da cidade davam água aos circenses, trocavam conversas, doavam móveis para apresentações das cenas do circo... E ainda havia palhaço que roubava coração de mulher...

Acho um encanto essas pessoas de vidas nômades que não sei ao certo se "trocam" sorrisos por pão... Acredito que tudo funcio(nava) muito mais era por amor! (27/08/07)


Betha, colei meu comentário no texto de Laírton PÃO, CIRCO e AMOR achei tão gostoso o que falei do circo que acabei repetindo! Desculpe a réplica é que meu encantamento pelo teu texto foi idêntico ao encantamento pelo texto de Laírton!

PARABÉNS!

Um aBRAÇO, Marluce


Marluce Freire Nascasbez · Carnaíba, PE 29/9/2007 16:22
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marcio rufino
 

Hoje tem marmelada? Tem sim senhor!
Hoje tem a bela Betha nos encantando com sua prosa deslumbrantemente poética? Tem sim senhor!

Bjs!!!

marcio rufino · Belford Roxo, RJ 29/9/2007 19:27
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Felipe Henrique
 

Beta sabes que sou seu fã...como é bom reviver a magia do circo.
um beijo de Felipe Henrique, e um bom final de senama... thau.

Felipe Henrique · Mesquita, RJ 29/9/2007 22:36
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Felipe Henrique
 

votadíssimo.

Felipe Henrique · Mesquita, RJ 29/9/2007 22:37
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Cintia Thome
 

Ah! Betha
Todos os palhaços dentro de mim e de você!
O Circo vive e deve viver...
Arrelia , Carequinha e Pimentinha...
A criança tem esse direito!
Betha...Texto ímpar, votado

Cintia Thome · São Paulo, SP 30/9/2007 07:09
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BETHA
 

MARLUCE, MÁRCIO, FELIPE E CÍNTIA,
obrigada por se envolverem nas minhas memórias sobre o circo.
Os agradecimentos demoraram por problemas com a internet, me desculpem. Bjs de Betha.

BETHA · Carnaíba, PE 1/10/2007 10:20
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Noelio Mello
 

Betha.
Belissimo texto, Betha. Nossas almas aceleradas agradecem essa encantadora viagem.
Beijos
Noélio

Noelio Mello · Belém, PA 1/10/2007 10:24
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BETHA
 

Noélio,
encantada e agradecida.
Abçs de Betha e das alegrias do circo.

BETHA · Carnaíba, PE 1/10/2007 10:39
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Andre Pessego
 

Ah! Betha, boniteza de Carnaiba, desse Pernambuco.
No meu lugar, conheci um circo cujo corpo artístico, melhor
técnico-artístico eram de extamente tres pessoas, sim (3), o palhaço "Contra-Peso"....... e feliz iniciativa.
- Assim que cheguei em Sáo paulo na década de 1970, Ivon Curi
estava cantando (de graça, diziam) num circo em Sto. Amaro. No
dia que fui houve um acidente, não compareceu, alguém do circo
cantou Zé Dantas, um sucesso. um abraço, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 1/10/2007 15:37
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BETHA
 

Olá, André,
que bom partilhar dessas memórias com vc, e conhecer esse fato curioso sobre o grande Zedantas.
Obrigada e abraços de Betha.

BETHA · Carnaíba, PE 1/10/2007 17:40
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Frazão Brother
 

Betha,
Viajei no seu texto e fui parar no meu circo de infância, onde certa vez cantei para não pagar ingresso. Enquanto cantava, envergonhado, olhava as estrelas pelos buracos da lona (e o palhaço insistia em dizer: "a lona é veia, mas us buraco é novo" rss

Frazão Brother · Anastácio, MS 3/10/2007 00:16
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carlos magno
 

Adorei o teu Circo, amiga Betha. Me troxe muitas recordações do meu tempo de crança. Meus sinceros aplausos e beijos amiga.
carlos Magno.

carlos magno · Rio de Janeiro, RJ 3/10/2007 20:55
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BETHA
 

FRAZAO E CARLOS,
o mais gratificante dos textos de memória é que as nossas memórias passam a ser também dos outros. Obrigada, amigos.
Abçs de Betha.

BETHA · Carnaíba, PE 5/10/2007 15:33
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