O CIRURGIÃO INGLÊS
Estive recentemente no Pará e ouvi de um velhinho uma estória que me deixou estarrecido mas também me fez rir.
Ele é morador antigo da região de Altamira e o fato que vou narrar, segundo ele, aconteceu aí pela década de 1960. Era ainda um rapaz, mas já casado, quando o caso aconteceu.
Disse-me que um dia sentiu uma forte dor próximo ao umbigo, que foi crescendo e em pouco tempo o deixou puxando da perna direita. Ele morava um pouco retirado de um desses povoados que nascem e somem com a mesma rapidez com que o homem saqueia as riquezas das florestas. O lugar chegou a ter por algum tempo um hospital rudimentar. A sua mulher logo se alarmou, lamentando: “Ai que você morre e as onças vão comer nós tudinho”. Como era ribeirinho, pressionado pela mulher e o choro do filho único, pegou a canoa, colocou-os dentro e a duras penas, com o auxílio dos dois, remou para a cidade.
Foi bater no hospital, chegando lá esbaforido e manco, clamando por santos e remédios.
O único médico do lugar era um velho inglês, sir Scotch Butcher, cirugião do exército de sua majestade nas campanhas da África do Norte contra os alemães do general Rommel. Estava ali porque gostava de aventuras, era o que dizia. Dizia também que nos momentos críticos das batalhas da segunda guerra chegara a operar cerca de cem homens ao dia. Meio doido pelos percalços da guerra, não vacilava contudo em fazer um diagnóstico e muito menos em operar.
Recebeu-o à porta da construção de madeira desconjuntada e conduziu-o amparado até uma salinha com uma mesa de metal enferrujada e um catre aos pedaços. Diagnosticou rápido o seu caso, chamando imediato a enfermeira para o preparo do paciente.
Como era meio surdo, disse quase gritando, o que afligiu o pobre homem pelas caretas que fazia:
— Vamos tirar o apêndice — e saiu para a sala ao lado.
Quando voltou, já de avental, assustou-se por não ver mais o paciente. As explicações da enfermeira, também surpesa, não o convenceram.
— Me diga, cadê o coxo que tava aqui, mulher?
— Ele fugiu, doutor Butcher — e encolhia os ombros como a eximir-se de qualquer culpa.
— É impossível, aquele coxo não podia sumir assim tão rápido. Ele se arrastava quando chegou aqui... — e procurava desconfiado por trás dos velhos móveis.
Quando constatou que o homem não estava mais no hospital, depôs a faca sobre a mesa enferrujada e cuspiu longe o cigarro de palha que jogava nervosamente de um canto ao outro da boca. Esmorecido, sentou na cadeira e pôs as mãos sobre o avental com nódoas escuras de sangue, desabafando:
— Sabe, dona Perpétua, o Pará é um bom lugar, é sim. Corre por aqui muito dinheiro, tem muita diversão com mulheres e caçadas. Peixe se acha pra todo lado — e fez um gesto expansivo com a mão. — Mas, no duro, o que impede a gente de ganhar dinheiro são esses cabras frouxos que aparecem e somem como vaga-lume.
O doutor Butcher suspirou profundamente e se levantou. De relance, olhando a faca de dez polegadas sobre a mesa, se perguntou:
— Será que esses cabras têm medo de meu bisturi?
A enfermeira encolheu os ombros num gesto de escusas e solidariedade.
Depois que ele me contou essa história eu lhe perguntei:
— E o que o senhor fez com a apendicite?
Ele sorriu, explicando-me que ficara bom, simplesmente.
— Não devia ser mesmo ela, né?
— Mas o senhor correu esse risco, assim de graça?
Ele balançou a cabeça negativamente. Outra estória do doutor Butcher o assombrava e a todos os moradores do lugar.
— Um pobre homem anos antes chegara no hospital com os mesmos sintomas do meu caso. O doutor virou para ele, dando tapinhas nas costas, e disse: “Isso a gente resolve logo, logo. É só tirar o apêndice”. Cortou, mas depois constatou o erro e não houve como ludibriar o paciente. Teve que admitir o erro: “Era para cortar o apêndice, e cortei o pinto!” O homem entrou em desespero: “Doutor, o que vai ser de mim agora?!” Sir Butcher, consolando-o, disse: “Não haverá problema algum, você é um homem de sorte, ora bolas”. O coitado, chorando, gemeu: “Com tudo isso o senhor ainda diz que sou um homem de sorte?!” Ele confirmou com a cabeça e disse depois: “É sim, veja que cortei o pinto, tudo bem. Mas ficaram dois ovos, vai nascer outro pinto, não tenha dúvida”.
Depois de dar um suspiro de alívio, o velhinho que fugira do cirurgião inglês, segredou-me:
— Foi por isso que fugi de lá. Havia perdido os ovos tempos antes num acidente com a espingarda de caça.
jjLeandro
parabéns, Leandro.
fabuloso!!!
abraços,
Rsrsrs.
e muitos desses "Doutores" por aí exitem.
Aquele Abraço.
Um exelente texto.Nos vemos por ai em alguma fila rsrs,esse texto eu sei,acaba de ir para o banco.Um grande e sincero abraço.
clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 10/4/2008 20:02
Pois é Amigo JJ, achei muito interessante tua prosa.
Belo texto, bela Crônica.
Me fez lembrar que em conseqüencia de um acidente com arma de caça, nosso poeta Castro Alves, tão jovem perdeu a vida.
Bela prosa, cronica hilária, mas de certo modo a verdade,
há muito "açougueiro" doutor...
Bravo JJ Leandro.
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