O colecionador

Nivaldo Lemos
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Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ
5/2/2007 · 100 · 7
 

Era hábito que herdara não se sabe de quem – dizem que do pai, escritor – mas desde que me lembro tem essa mania de colecionar palavras. Primeiro as recolhia nos livros e revistas e jogava-as em caixas de sapatos que chamava de “palavrórios”, as quais tinha o cuidado de numerar para não se perder. Nelas misturava de tudo, dos mais cândidos adjetivos aos palavrões mais cabeludos, sem nenhum critério ético, moral ou etimológico – de substantivos psicologicamente complexos, como amor e Édipo, aos vocábulos mais banais, como sicrano ou beltrano, de verbos primordiais, como criar e nascer, a seus antípodas destruir e morrer. Naqueles pequenos baús improvisados de sentidos, conviviam democraticamente altas expressões do pensamento humano, como existência e filosofia, e palavras comuns, cotidianas mesmo, como sim, não, terra, grão.

Não passava um dia sem que o revisor Antônio Siqueira acrescentasse ao menos um étimo à sua coleção. Com o tempo, já não havia caixas que bastassem para guardar tantas palavras e elas passaram a ser colocadas onde coubessem – sobre a mesa de cabeceira, dentro de vasos, gavetas, na estante da sala e até em cima do guarda-roupa do quarto de visitas. Aquele amontoado de vocábulos – uns velhos, outros novos, uns ricos de significado, outros pobres – era seu orgulho. Aos que o chamavam de louco, ponderava que sua coleção tinha uma função preservacionista: se não recolhesse e guardasse as palavras do mundo, haveria um tempo em que não mais se teria o que dizer, por absoluta falta de palavras, dizia, deixando claro que o que para muitos era pura vesânia, delírio, doidice, para ele era uma possibilidade real, concreta.

Quanto mais o alertavam para o absurdo daquela mania, mais ele vasculhava o mundo em busca de vocábulos, usados ou inéditos. Passou a procurá-los em tudo que via, lia e ouvia: rádio, televisão, cartazes, muros, portas de banheiro, becos, bocas, botecos, bulas. Às vezes, de tão nova, a palavra praticamente nascia em sua mão – foi o caso de papamóvel, que recolheu casualmente de uma prova tipográfica que leu no jornal em que trabalhava, por ocasião da primeira visita do papa ao Brasil. “Ela ainda cheirava a tinta”, lembrava, sem esconder a emoção, o orgulho, pouco se lixando para o escárnio dos colegas. Assim era Siqueira, caçava palavras como quem caça borboletas, por achá-las mágicas, lindas, fugazes, mas essenciais. A diferença entre ele e um lepidopterista era que ele caçava os vocábulos não para espetá-los mortos em um quadro na parede, mas para preservá-los, livrá-los de uma virtual extinção que – não fosse ele, insistia – seria inevitável.

– A tecnologia está matando a palavra; os sentidos estão se perdendo num emaranhado de bits e bugs, de posts e pixels – filosofava hermeneuticamente, acrescentando – primeiro foi a fotografia, “uma imagem vale mais do que mil palavras”, lembram? –, depois vieram o cinema, a televisão e, finalmente, computador, internet, blogs e os chatos dos chats com seus smyles, emoticons, abreviaturas e fonetizações que mutilam os vocábulos: d+, tc, blz, kdvc, kero, axo, naum... Nunca a humanidade conspirou tanto contra a palavra, sentenciava o velho revisor, indignado, não sem alguma razão.

Siqueira definitivamente era um apaixonado pelas palavras. Não importavam quais ou o que queriam dizer, as colecionava. Aumentativos, diminutivos, conjunções, interjeições, verbos, advérbios, hibridismos, neologismos, adjetivos, substantivos, artigos, pronomes, o diabo que fosse Siqueira guardava em sua casa. E de todas cuidava com o mesmo carinho e dedicação, como se fosse ele o pai de cada uma.

Um dia acordou para arrumá-las nas caixas que guardava no armário do quarto e reparou que um de seus palavrórios estava com a tampa um pouco aberta.

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Nivaldo Lemos
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Marcos André Carvalho Lins
 

meu comutador travou quando estava fazendo o download, mas gostei até onde li, muito criativo.( a imagem também)
parabéns, nivaldo.
abs.

Marcos André Carvalho Lins · Recife, PE 3/2/2007 14:25
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Ilhandarilha
 

Nivaldo, que não te faltem palavras! Pelo seu delicioso conto, elas não hão de faltar.

Ilhandarilha · Vitória, ES 5/2/2007 21:11
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**Gabi**
 

Papis!!
Parabéns!! Mais uma vez, parabenizo-o pela qualidade de seu conto.
Ma-ra-vi-lho-so!
Te amo!!

**Gabi** · Rio de Janeiro, RJ 5/2/2007 22:03
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arlindo fernandez
 

salve Mestre!
eu conheci alguem que coleciona céu...
aqui no pantanal diriam "chover no molhado", mas vou repetir, adoro seus escritos,principalmente quando vc descamba pros lados do realismofantástico.
abraços

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 6/2/2007 09:35
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Nivaldo Lemos
 

Ilhandarilha, obrigado. Mas que nome é esse? Lindo! Uma referência a Vitória? Pois ele tem o aroma do mar, o gosto dos caminhos, dos descaminhos, e a saudade de lugares que nunca fomos, como passos em areias ancestrais. Uma beleza andarilha, Ilhandarilha.

Filha, minha amada, obrigado. Maravilhosa é você, minha obra perfeita, poesia de rimas ricas, mais linda ninfa entre todas, musa de meus sonhos. Beijos, te amo.

Arlindo, meu velho amigo pantaneiro, mais uma vez obrigado. Mas colecionar céu por aí deve ser coisa comum, usual, mania de quem coleciona tardes, pastoreia nimbos prenhas, toca flauta de elíseos desgarrados, espia o arrebol dos flamingos ou amansa vendavais no Baixo Taquari. Coisa trivial. Um abraço.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 6/2/2007 11:59
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analuizadapenha
 

oi... nem um pouco autobiográfico ou ...? rs ... um primor discorrer sobre nossas queridas "palavras" , sonoridade, encontros e desencontros. Bateu uma inspiração. Abraços

analuizadapenha · Natal, RN 7/2/2007 23:13
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Nivaldo Lemos
 

Que bom, Ana. De certa forma, tudo que escrevemos tem um pouco da gente, ou não? Obrigado pelo comentário.
Bjs

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 8/2/2007 10:42
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