Ele colecionava navios
No recorte de sua janela.
Passava dias e noites
À espreita dos apitos
De chegada ou de partida
Na captura da presa.
Prendia-os um a um
Com o alfinete do tempo
No mural onde construía a si mesmo
Com os fragmentos
Da sua solidão.
ele colecionava navios
Ah, que beleza de poema sobre solitários. É diferente quem gosta de momentos de solidão daqueles que se agarram ao passado idealizado.
Compulsão Diária · São Paulo, SP 11/10/2008 16:46
belas imagens, palavras precisas!
C.E.P · Rio de Janeiro, RJ 11/10/2008 23:34
CD, li uma vez um conto de um escritor português - não lembro o nome - que era a história de um cara que tinha um método (na primeira pessoa). O método dele consistia em transformar tudo em números, somas, divisões, subtrações e multiplicações. Acho que com esse poema, além de falar da solidão, ou dos necessários momentos de solidão, falo do método - no sentido do conto que lembrei aqui. No fundo, por mais estranho e doentio que me pareça, acho que é necessário um método. É como estabelecer uma estrutura, um esqueleto onde podemos apoiar a nossa construção. Sei lá, mil coisas... heheh
CEP, precisão é meta, não é característica. valeu.
Grande, Ilha. Não acho nem estranho , nem doentio. Método porque a vida chega antes da razão . Não sei qual é o escritor. Gostaria de ler o conto. Números ~sao meu pesadelo;)) quem sabe lendo alguma coisa assim eu melhoro?
ilha...seu poema é lindo.
solitário e intenso...
tão pequeno e capaz de resumir uma vida...
beijos
Ilha,
Belo poema sobre a solidão. Uma janela como metáfora e navios idem, bom pra refletir, um pouco melancólico e gostoso de ler.
beijos
Ilha,
volto depois de longa ausência e encontro seu Colecionador de navios a me acenar do cais e, não resisto, aceno-lhe de volta cheio de falegria de lhe saber cada vez mais poetisa. Amei seu poema com gosto de saudade e sal. Amei. Parabéns. Beijos.
Desculpe-me: onde escrevi falegria leia alegria, óbvio. Acho que foi a emoção do poema. Bjs.
Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 13/10/2008 18:53
Gostei bastante. Imagens muito belas.
Sucesso.
Votado.
CD, o conto a que me referi é do Herberto Herbert, escritor português, e se chama Estilo. Começa assim:
"Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende? a nossa vida apresenta-se ali como algo... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar tudo muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é a maneira subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? De uma dessas tremendas abstrações que servem para tudo." (...)
Bom, não é?
Giovani, Cristiano, Samuel e CEP, muito obrigada pela leitura.
Nivaldo, fazem falta aqui seus escritos!
Poxa, Ilha que maravilha! Excelente escritor. Essa tentativa de ordenar o caos interno pelo externo e vice-versa. E as imagens tão fortes. luz que levanta massa de sombras!! Estilo (método?) para ordenar. A vida é desordem sim! A morte é imóvel, grau zero de excitação. tudo em ordem na morte.
Ilha, se é bom??!!
Ah, Ilha isso é ótimo. vou procurar o livro e o escritor. Valeu. linda, beijo e todo sucesso que vc merece. Muito obrigada.
Corrigindo: o nome do autor do conto é Herberto Helder. O livro de onde foi tirado o conto citado é "Os Passos em volta".
beijos
mais sobre ele aqui.
Ilhandarilha · Vitória, ES 14/10/2008 12:03
Ilha, para além da lindeza gratuita do poema, me tocou o que vc disse sobre o método do colecionador. Mais ainda depois de ler o trecho do conto. Estou precisando urgentemente dar ao acontecimento excessivo de minha vida a arrumação da coleção rs rs rs. Vc já leu Palomar de Italo Calvino? Se gosta do método como apoio para sua construção, é indiscutível que vai amar o livro. O Sr Palomar é um metodólogo e tanto.
Bjs
Vou procurar o livro de H Helder.
Ize, vou procurar o sr. Palomar! O Calvino é uma falha cultural minha (heheh) Nunca li nada dele, e sei o que estou perdendo. Na verdade, minha cabeça ultimamente anda meio O Samba do Mestrando Louco... Estou lendo tanta coisa ao mesmo tempo que já nem sei quem disse o que de quem! No momento, procuro desbravar a semiótica figurativa do Greimas. Vixi! Acho que vc iria gostar das categorias que ele usa na análise da imagem - imanência X manifestação - (acho que também gostarei, assim que entender! por enquanto, bato na trave!).
beijos
Ah, falando em metodólogo, resolvi finalmente conhecer os escritos de Kant. E descobri que o cara não é tão chato de galochas quanto sugere a sua biografia.
Ilhandarilha · Vitória, ES 15/10/2008 22:16Ilha, minha cabeça estava relativamente arrumada com autores do campo da Comunicação e da Semiótica que vêm me ajudando a entender como as gerações que nasceram na "civilização da imagem" se relacionam com o conhecimento e com a cultura. Um verdadeiro salamelê de cuia para quem até há pouquíssimo tempo atrás estudava essa relação com base na lógica da cultura letrada. E aí vem vc e me apresenta esse Greimas (é Julien Greimas?). Claro que fui atrás dele e quase colapsei. Credo, não sei se ainda tenho tempo pra entender a teoria dele, mas que parece interessante não há dúvida. Kant eu revisitei recentemente pra entender porque o conceito de experiência em Benjamin se opõe ao dele. Tb não tive muitos problemas, embora a leitura tenha sido superficial. Acho que somos meio doidas rs rs rs
Ize · Rio de Janeiro, RJ 15/10/2008 23:14
heheheh. A semiótica bagunça tudo, mesmo, na sua tentativa de organizar! O Julien Greimas é osso! Mas a minha orientadora é apaixonada por ele e tive que mergulhar na crítica genética do cara. No Brasil tem um grupo muito interessante que usa o cara como base de suas pesquisas. Eu ainda estou no beabá da coisa, tateando no escuro. Mas já deu pra sentir uma vontade de mergulhar no lance (embora ainda ache a semiótica estruturalista demais pra minha subjetividade bagunçada). Mas fazer o que? a gente precisa de um método, né? Uma faca só lâmina, como diria o João Cabral.
Pinço aqui uma frase do Greimas, do texto que estou lendo (semiótica figurativa e semiótica plástica) onde ele fala das especificidades do texto figurativo (ou plástico) em relação ao texto verbal: "o olhar nunca é ingênuo nem a intuição jamais é pura".
beijos
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