Eles reuniram o povo nas escolas e distribuíram merenda escolar como se almoço fosse: felizes,as pessoas simples da cidade reduzida a buracos e serviços inexistentes foram em ônibus de ar condicionado para casa.
Eles recrutaram centenas de estranhos para ocuparem os melhores cargos no serviço público: afoitos e insaciáveis cuidavam somente de contar os lucros nas licitações e distribuição de cargos do terceiro escalão.
Fizeram desfilar pela cidade uma carreta com uma faixa onde se lia “Remédios vencidos adquiridos pelo governo anterior”: o povo ligou o desconfiômetro e logo a verdade surgiu das cinzas dos lotes de medicamentos ainda dentro do prazo de validade.
Não contentes, eles compraram veículos de comunicação para propagandear aos quatro ventos que sabiam o que estavam fazendo: o povo, que sabia que eles não sabiam nem o que escreviam, embora tentasse, não conseguiu evitar de se deixar enganar, então...
Quando eles estavam perdendo o controle sobre o povo – que, esperançoso saiu pelas ruas a apoiar o candidato opositor – eles, sem dó nem piedade, pediram ajuda do exterior: eles realmente estavam aflitos e o povo se sensibilizou com a senilidade do velho patriarca, vindo de distantes plagas, e brindou-o com mais um século de existência.
Sempre que o velho patriarca visita a cidade, eles, em romaria, se vestem com as melhores vestimentas e, orgulhosos por terem Sua Digníssima Presença na cidade, desfilam em portentosos automóveis em fila indiana rumo ao Aeródromo: compenetrados, os habitantes, acenam de suas janelas, solícitos, à passagem da comitiva oficial.
Aos poucos, a vergonha não deixou mais que os habitantes sequer se mirassem nos espelhos: eles, então, por decreto, determinaram a apreensão de toda e qualquer superfície onde se refletisse qualquer tipo de imagem – principalmente a deles, pois faltava-lhes coragem para encararem-se a si mesmos.
Grandes quantidades de alimentos vinham de outras regiões do continente a preços astronômicos: eles só produziam para consumo local e o preço era tão absurdo, como absurda era a existência da ralé.
Lotes de roupas usadas eram distribuídas à população: era o refugo das caríssimas vestes compradas a preço de ouro em grandes lojas de departamentos do continente, muitas das vezes, esburacadas, carcomidas, incompletas, enfim, vestes de andrajos.
Epidemias dizimaram a população em poucos meses e os sobreviventes jaziam em casas de saúde onde não existia a mínima condição de acolher desventurados e somente alguns renitentes profissionais ali ficavam a lhes prestar amparo e socorro adequado.
A cidade, aos poucos, ficou deserta, desnutrida, sorumbática: eles disseram que aquilo ia passar, que a população não entrasse em pânico que logo tudo voltaria ao normal.
Eles saíram de férias por um longo período – os poucos habitantes nem se deram conta de que estavam sendo abandonados.
“A primavera encheu de flores as ruas, as praças, os monumentos, as lápides no cemitério municipal.
O verão foi o mais quente que jamais tinham visto.
O outono salpicou de folhas secas o chão estéril onde planta nenhuma nascia e só pedras se via.
O inverno, além de frio intenso, trouxe tempestades e furacões que destruíram tudo à sua frente.
As noites eram mais longas e o Sol quase não queria mais surgir por trás das longínquas montanhas recortadas no horizonte.”
Quando não havia mais gente na cidade,
eles vieram em uma aeronave reluzente e grande o suficiente para acomodar todos eles, seus serviçais, suas famílias e animais exóticos de estimação;
ambulâncias equipadas com recursos de última geração;
eles realmente trouxeram o progresso e os últimos recursos para o desenvolvimento tão esperado...
quando não havia mais gente na cidade.
Puxa pepê mattos, que texto bonito, tem este teu conto da dcidade fantasma. parabéns pela ilustração também. O retrato da cidade com traços bem definidos e as cores em perfeita harmonia. Abraço do amigo .
Carlos Magno
Ok, Carlos. Obrigado pelos elogios. Puxa, gostaria tanto que isso tivesse 100% de ficção nestas minhas linhas. Infelizmente, aqui a realidade se misturou com a ficção. Mas, se eu te disser que esse é o substrato da literatura, então não temos motivos para ficarmos entristecidos. Um pouco do que pus nesse texto colhi dos noticiários de minha cidade. É a vida que se imiscui na arte... Poderia ser diferente? Abraços
Pepê Mattos · Macapá, AP 8/5/2007 16:56Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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