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O Conto do Palhaço

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Cadu Canellas · Niterói, RJ
12/6/2009 · 4 · 2
 

Há tempos, como um berrar intenso, silenciosas vozes ouviam-se da irmandade a condenar-me pelo que me propunha ser em altivez. As considerações a serem feitas por mim contrapõem-se a uma estrutura profunda enraizada há muito, pela demasia que é ser humano. O silêncio da arbitrariedade que se propagava a meu encontro era refletido como um espelho fraudador; permanecia calado. Confundo-te caro leitor? Decerto que não, pois os olhos infantis que me seguem devaneiam no arco-íris do existir. É exatamente ai que fui sentenciado e livre de qualquer indulto que me houvesse dado. Se por assim nos entendemos caro amigo, quero lhe contar algo que me aconteceu há alguns muitos poucos anos atrás num pequeno distrito de uma cidadela imperial ao cume das gélidas montanhas da Guanabara. Antes, porém, devo frisar que o acontecimento foi apenas um lampejo do futuro clarão a dar-se forma. Uma centelha a me parir ao eixo do inconsciente. Faleci da ferida mortificante e contemplei o mistério do desabrochar da rosa. Enclausurado numa escura cela descanso nas asas pairantes de um beija-flor. Da vida, tudo quero, e bem sei que de tudo nada tem. Sou paciente, desde o parto, tenho incessantemente amado minhas perguntas sem desejar delas imediatas respostas. Ao indizível, só o tempo com murmuras. Tintas, escritas, cenas, a exemplo, vivem nos dizendo silente a doce reticência infinda.
Das tintas, um quadro centrava-se na parede pintando-me de mistérios. Sempre tão disperso, despercebi o transcendentalismo daquele objeto. Aconteceu na primeira fitada depois de anos pendurado ali. Sentado no sofá, só me dei conta quando a programação saiu do ar. Inclinei-me para cima do programador, entintei-me no colorir misterioso do nada. Avistei o ontem, me vi carrosseando com meus antigos irmãos, com meu finado migo. Esquecidas cores lembraram, atearam a fantasia de viver.
Senti um cutuque; era advogado meu irmão caçula; a transposição pro aqui. Respirou, perguntou: - Que raios de manchas são essas? Semblanteei-me. Assustei-me. Desconfiei. Corri ao banheiro e reprisei minhas máculas coloridas no reflexo. Lavei-me um tanto abundante, esfregando-as. Calado, semanas pintadas permaneci. Os vizinhos – assustados - olhavam no amanhecer da caminhada. Alguns falavam em doença feia de belas bolinhas. Enclausurei-me num raio de vivenda por longos dias. Medo e raiva das manchas me enchiam. Se nem os clínicos diagnosticavam as minhas discórdias, estaria prestes a dar o último alento? Nada me doía, mas tomando tino esvaeci.
Meus irmãos continuaram por seus trilhos, mãe não dava aceno de preocupação, só quieta, vidente. E no silêncio dos dias imergi na literatura de minha vida e emudeci do mundo. De coloridas ficaram pretas, traçadas por letras no âmago de cada escuro núcleo. Estremeci, prossegui. Era eruptivo de lavas incessantes. Fui tomando forma; as pretas clarearam de novos tons trançados. Por tempos se perduravam, às vezes eram fugidias. Mas as manchas negras assustavam os olhos abertos.
Meses e anos à frente, e já não tinha mais sentidos, já não jazia por aqui, mas dos que me rodeavam, parentes cortejavam-me, só sentia a presença de mamãe. Irmão caçula não conseguia entender. Por vezes, testemunhou a transição das manchas em seu caráter mais sublime e no calafrio ósseo desejou o desbotamento. Com o tempo já não me encarava mais, nem olhada de canto ou relance. Foi-se da morada nossa para outro espaço quando intuiu. O outro não alardeou manifesto nem bom nem ruim, meu crime de existir já havia prescrito. E mãe durante o tempo todo acompanhou calada.
Por dias e noites acostumaram-me a ser estranho que já esquecia o que é ser humano. Mas quando lembrava, atuava; por acaso, decidi, com todas as juntadas economias, pagar para que me fizessem um circo. Todos criticaram, diminuíram, previram o fracasso. Coisa com coisa já diziam, eu não dizer. Deveria segui-los? Desbotando, as cores se foram.

***********************************************************

Eis que no entardecer dos anos o momento esperado. Da platéia apenas mãe. Fui o palhaço; mãe sorriu holofoteando meu ser. Enfim o clarão. Era o espetáculo. Fui o dançarino, equitador, equilibrista, acrobata, no vale-tudo de outro sorriso. Teria esquecido a razão? Corri ao imaginário, me joguei aos malabarismos como principiante de vida. Das cansadas pernas corri como criança e as bolinhas incessantes davam vida. Era um misturar homogêneo de cores irradiando a despedida de mais um ciclo. Foi um suspiro. O último. E das bolinhas pretas um sorriso.

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Autoria
Carlos Eduardo dos Santos Canellas
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Cláudia Campello
 

poetico, interessante,,,,,,,mas confuso.
nao entendi o ...contexto.....o enredo!
(talvez seja a hora......entao volto!)

bjsssssss;)

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 14/6/2009 06:06
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Cadu Canellas
 

Cláudia, penso que não há uma maneira de manisfestar o espírito da morte através de palavras. Toda a análise, por melhor que seja, terá sua limitação, pois trata de algo que possui um quê de inexplicável. A literatura se aproxima da morte por tocar essas forças caóticas que engendram a vida. Por isso a confusão.
Com efeito, um texto que trata de um tema inaudito como a vida e a morte, não poderá apresentar-se tão nítida e claramente. Os lances vitais desse palhaço é turvo, é complicado. Tente explicar a vida e a morte para uma criança que venha lhe perguntar. Sentirá uma enorme insuficiência e se renderá a dar uma resposta tão vaga quanto esses temas. Assim se constitui tudo o que se venha falar sobre o assunto. Nem os "melhores" são tão suficientes e todo o labor de um argumento só causa mais insuficiência. A ideia que fazemos desses temas são profundas experiências que vivemos ao longo de nossos vidas. Nada nos exprime tão bem esses temas quanto nossas experiências. Vida e morte estão tão imbricadas que não conseguem se reconhecer como entidades diferentes: o dualismo se unifica. Morrer é só mais uma forma de manifestação vital. No entanto, quando a morte se manifesta tão cruel e subitamente (casos de assassinatos e acidentes), as pessoas acabam associando-a tão somente a algo fúnebre e encaram-na como um ato de vida estrangeiro. O ser que a aceita, entende que a morte é múltipla, é a surpresa de uma alegria e de uma tristeza. Apercebe-se que a morte tanto destrói quanto renova, impedindo a continuidade de algo que por lei é renovável. Essa lei é a lei da vida. Não há artigos, nem parágrafos e lhe faltam os incisos, porém está expressa e segui-la é estabelecer um pacto com a vida.

Cadu Canellas · Niterói, RJ 14/6/2009 16:50
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