O corpo como objeto de manifestação cultural

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Shel Almeida · Bragança Paulista, SP
2/9/2009 · 2 · 0
 

Como entender o corpo? O que pensar de quem pratica nele modificações agressivas ou estranhas à chamada “normalidade”? Como julgar o que, de fato, pode ser considerado normal? Possivelmente nunca se chegará a um entendimento definitivo e incontestável do que é normal. No entanto, se for possível conseguir entender as motivações do outro, mesmo que estas não sejam agradáveis ao olhar, pode-se deixar de estranhar muita coisa. Tzvetan Todorov ajuda a pensar a respeito: “Podem-se descobrir os outros em si mesmo, e perceber que não se é uma substância homogênea, e radicalmente diferente de tudo o que não é si mesmo; eu é um outro. Mas cada um dos outros é um eu também, sujeito como eu. Somente meu ponto de vista, segundo o qual todo está lá e eu estou só aqui, pode realmente separá-los e distingui-los de mim.”
Especificamente sobre as modificações corporais geradas por tatuagens e piercings, muitas são as especulações em torno de questões que tratam, em geral, de quais seriam as motivações que levariam uma pessoa a fazer esse tipo de escolha. Para Toni Marques, não é possível determinar apenas uma causa ou efeito social, cultural ou artístico, capaz de levar uma pessoa a se tatuar. Para ele, não existe um mecanismo de compensação ou um sinal de regressão da personalidade de quem se tatua, conforme sugeriam estudos a respeito da psicologia da tatuagem realizados no último século. Nos dias atuais, cada pessoa tem o direito de se sentir bonita da maneira que quiser, mesmo que isso venha a agredir visualmente o outro. Marques vai além: “O sujeito adquire identidade se tatuando ou se tribalizando de qualquer forma, em ato ou pensamento. É a certeza mágica da identidade: tatuei-me, agora sou eu.”
Mesmo que não se perceba, as decisões a respeito do corpo são mediadas pelos valores sociais. Quando alguém faz uso de alguma modificação corporal, seja ela invasiva (aquelas que mudam irreversivelmente o corpo: tatuagens e piercings e escarificações, alongamento dos lóbulos, cirurgias estéticas e de mudança de sexo, implantes de próteses) ou não invasiva (aquelas que o organismo é capaz de regenerar: cortes ou alongamento de cabelos, maquiagens faciais, depilações, clareamento dental, no geral modificações estéticas) quer, de alguma forma adequar-se aos padrões vigentes para, de certo modo, fazer valer sua posição social. Cada indivíduo utiliza a modificação corporal de sua escolha para assim ser inserido em um grupo ao qual se identifica.
Com a popularização da tatuagem no início dos anos 80 e do piercing na metade dos anos 90, gerou-se um fenômeno associado à busca de novas mentalidades e conceitos sobre corpo e identidade. A partir de então um grupo de pessoas cada vez mais numeroso e diferente entre si, passou a utilizar esses tipos de modificações corporais. A esse fenômeno deu-se o nome de body art, ou arte corporal. Segundo Kênia Kemp: “[...] são tentativas de expressar ou afirmar identidades, auto-afirmação da individualidade, tentativas pessoais de facilitar o convívio social através do sentimento de auto-estima, investimento no capital físico para atender ao mercado da beleza. [...] os indivíduos que se julgam movidos por pretensas necessidades pessoais são na verdade um reflexo de condições culturais idênticas, pois são respostas de nossa época e, portanto, de uma mesma mentalidade que as permite surgir.”
Pode-se exemplificar o uso de intervenções corporais relacionadas à manifestação cultural, utilizando dois tipos de indivíduos: o da sociedade urbano-industrial e o da sociedade tradicional. O primeiro usa de seu corpo para expressar sua identidade. Para esse indivíduo, o corpo é produto e produtor da sociedade, podendo ser entendido como uma espécie de autodeterminação ou como símbolo de sua resistência às regras sociais. David Le Breton ajuda a entender melhor: “O corpo não é mais apenas, em nossas sociedades contemporâneas, a determinação de uma identidade intangível, a encarnação irredutível do sujeito, o ser-no-mundo, mas uma construção, uma instância de conexão, um terminal, um objeto transitório e manipulável suscetível de muitos emparelhamentos.
O corpo, dessa forma, torna-se mais um instrumento de expressão do indivíduo dentro do todo, que é a sociedade. Com a ajuda dele, cada um demonstra aos outros sua maneira de ver e reagir ao mundo, passa a se fazer entender não apenas gestualmente, mas utiliza suas pele e carne para informar aos demais seu entendimento sobre as coisas ao seu redor e sobre si mesmo. Diferentemente, o indivíduo inserido em uma sociedade tradicional, faz uso de seu corpo como mais um meio pelo qual representa sua relação com a natureza e a sociedade. Kênia Kemp ressalva que, independentemente do tipo de cultura a qual o indivíduo está integrado, o corpo é parte e expressão de sua condição de ser humano. Seus pensamentos trabalham como ordenadores do mundo que vê, e é seu corpo que possibilita suas relações com os demais indivíduos e com a sociedade em geral.A cultura, como outros fenômenos sociais, não pode ser entendida separadamente, já que tudo se interliga e se relaciona dentro da mesma lógica de cada sociedade. A tentativa de compreender o corpo é, portanto, a tentativa de compreender melhor a sociedade.
São justamente as diferenças em relação aos outros indivíduos que fazem com que cada um perceba sua identidade. O modo de lidar com o corpo não só ajuda a intensificar essas diferenças como também faz transparecer socialmente a condição de cada um. Intencionalmente ou não, são inscritos nos corpos dos indivíduos elementos sociais, como expressões, posturas e gestos ou interferências, adornos e indumentárias.
O fato de cada ser humano ser diferente entre si e, cada vez mais, ir em busca dessas diferenças é o que, contraditoriamente, faz com que todos sejam iguais. A percepção de que o outro, mesmo diferente de si, também reage aos meios sociais de maneira singular, como indivíduo que é, pode ajudar a delimitar o que é desigualdade e o que é preconceito. O corpo torna-se objeto de representação concreta do que, antes, era apenas subjetivo: o direito de cada um ser dono de si da maneira que é ou que pretende ser. Assim, em tese, cada sujeito passaria, indiscriminadamente, a ter direitos plenos sobre seu corpo, como (supostamente) tem também de sua mente e de seus sentimentos. Ao alcançar essa finalidade, seria um indivíduo único e completo.

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Ficha tcnica
Bibliografia

KEMP, Kenia. Corpo modificado, corpo livre? São Paulo: Paulus, 2005.
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