Quando conseguiu o emprego de inventor de horóscopos e mensagens diárias de sorte, de Sordi pensou que não iria se abalar porque seu grau de ceticismo era alto. Era considerado suficiente para pretender a adivinhação. Só um verdadeiro cético, dizia ele a si mesmo, pode criar mensagens de sorte convincentes. A razão disso é clara: para ser convincente, a mensagem de sorte deveria ser tão bem fabricada que poderia ser real; mas o esmero que a produz também a desnuda. E a mensagem soa arbitrária e falsa, enquanto ressoa brilhosa e benevolente. São como algumas putas, essas mensagens diárias da sorte. E de Sordi sabia que se mantivesse seu jeito desconfiado poderia lidar com elas sem se contaminar. Determinou-se a não aceitar a esperança que entregava com as mensagens. Que surpresa ele teve quando começou a receber intrigantes mensagens não assinadas. “Prezado(a) criador(a) das mensagens diárias de sorte. Muito obrigado por tamanha precisão. Aprendi com você a prever o futuro.” A primeira mensagem, de Sordi ignorou, por uma questão de polidez consigo próprio. Recebeu, logo, a segunda. “Já sou capaz de prever a mensagem do dia seguinte. Tenho tentado por vinte dias e dá sempre certo. Obrigado.” Ele ficou inquieto. Passou a mudar na última hora o sentido das mensagens, invertendo palavras, trocando idéias. Malversou o arbítrio. “Começa a ocorrer algo estranho: quando recebo a mensagem, penso numa idéia, mas ao abri-la, adivinho as palavras de outra. Parece que o destino quer me enganar, mas eu sou mais esperto.” Passou a ser questão de honra para de Sordi. Sem perceber, ele perdeu todo o ceticismo que prevenia sua contaminação. Mas a sorte escrita para não se realizar é a sorte que se realiza. E as mensagens de resposta continuavam a chegar. “Já estou no sexto nível. Adivinho a adivinhação da adivinhação da adivinhação da adivinhação da adivinhação da sorte do dia. A vida é mesmo um mapa. Como eu lhe agradeço”. O limite chegou e a reação de de Sordi foi a mais previsível. Previu a morte de seu oponente desconhecido. Assim que enviou a mensagem, notou que a resposta havia chegado 27 segundos antes. “Perdão pelo que foi necessário fazer. Sei que não haverá mágoas entre nós quando, para você, acontecer o que já aconteceu.” Desmoralizado, de Sordi deu um golpe no computador, que foi a chão e se partiu. Saiu à rua para respirar. Parou numa padaria, onde o balconista guardava uma xícara limpa de um café não tomado por um homem de chapéu amarelo que deu bom dia e saiu andando de costas. Tentou virar-se para entender o que se passava. Um velho carregando uma criança apareceu repentinamente, e chamou sua atenção. Eles começaram a falar alternadamente. Primeiro o bebê, depois o velho. “Nós sempre ouvimos que em certa freqüência acontecia este estranho fenômeno chamado presente”, disse o bebê. “No futuro, estamos lançando iscas para encontrar a freqüência certa. Décadas à frente de esforço”, acrescentou o velho. “Mas foram erráticos e só o que conseguiram foi nos alcançar há séculos atrás, no passado”, rebateu o bebê. “Vocês são sempre assim? Já se conheciam? Quem são vocês?”, desesperava-se de Sordi. “Não somos sempre assim, mas temos que mudar quando muda a freqüência. Se já nos conhecíamos é uma pergunta que excede no direito a não ter sentido. E quem somos nós, somente você pode responder no presente. Se nós falarmos, desaparecemos”. Num instante, como deve ser com os estancados do presente, de Sordi entendeu o que se passava. “Eu previ a morte de vocês, vocês devem morrer hoje. Não sabia que eram dois, mas vocês devem morrer hoje. Morram agora diante de mim!” O bebê e o velho trocaram olhares e nada fizeram, nada disseram. Além de proibidos pelas injunções habituais de sua condição, estavam fascinados demais com o presente, fatos conhecidos disfarçados de incognoscíveis desfilando à sua frente, que espetáculo! Depois que de Sordi caiu morto, eles desapareceram sem serem notados. O homem de chapéu amarelo entrou na padaria, deu bom dia e pediu um café.
Criativo, inusitado. Bom de se degustar.
Saúde e Alegria...
Muito bom!!!
Iniciando sua votação com prazer!
Beijo no coração
Obrigado amigos Celina e W.Marques!
Fausto Oliveira · Rio de Janeiro, RJ 24/7/2008 14:45
Caramba! Inquietante, original e escrito com primazia. Muitíssimo interessante.
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 24/7/2008 20:15Obrigado Marcos e Nic, muito obrigado! abraços, vou conferir os trabalhos de vocês também.
Fausto Oliveira · Rio de Janeiro, RJ 24/7/2008 21:26
rsrs..quem somos? Podemos mudar de frequência? muito bom, Fausto.
Parabéns!
Fausto,
Belo conto, intrigante. Parece que o criador brincou demais com a criatura.
Bjsssss
Obrigado Compulsão Diária e Doroni!
Fausto Oliveira · Rio de Janeiro, RJ 25/7/2008 10:35
Fausto Oliveira · Rio de Janeiro (RJ)
O criador de sortes
Um texto muito bem bolado com fólego e assunto.
Deixa a gente refletindo.
Um Tema Agradável que foi bem trabalhado.
valeu.
Parabéns.
Muito merecimento.
Abração Amigo
Fausto, meus parabéns pelo texto reflexivo.
abraços e votos
Fausto, Seu texto levou-me a muitas reflexões pessoais.
Gostei.
Um beijinho doce mineiro,
com o VOTO CERTO,
Sílvia. BH.MG.Brasil
Sílvia .
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