“Existe um grande benefício prático em conhecer alguns fracassos bem cedo na vida.” Thomas Henry Huxley, zoólogo britânico (1825-1895)
Ela subia a trilha.
Seguia ofegante a voz dos colegas quase inaudível. Já não bastara a humilhação que sofrera lá em baixo, na cachoeira, quando dissera que esqueçera o biquíni. Agora, deixavam-na para trás. Suas pernas brancas e delgadas tremiam entre pedras e fendas, seu coração palpitava entre os minúsculos seios que abrigavam entre si um vale de suor.
De repente, deparou com dois caminhos. Por qual deles deveria continuar, o direito ou o esquerdo? Aguçou os ouvidos, tentando perceber de qual lado vinha o murmúrio da turma. Ouviu alguém caçoar – a magricela ficou para trás, a magricela ficou para trás...- seguido de uma gargalhada, mas não discerniu a direção.
Subitamente, um som de guizo ou de chocalho despertou-a de sua concentração: havia uma cobra no meio do caminho. Em suas retinas, brilhou a sinuosidade do animal viperino. Assustada, revezou-se entre as aulas de biologia e as de religião: “era triangular a cabeça da venenosa?...Porei inimizade entre ti e a mulher, tu lhe machucarás a cabeça e ela te machucará o calcanhar.” Esta última frase a fez recuar um pouco e, entre o movimento e o passo, subiu-lhe uma ventania, enroscando pelas pernas, levantando a saia de colegial que rodeava os membros tão finos. Num movimento rápido com as mãos, abrigou o tecidos entre as coxas. Lembrou-se, então, da crendice de sua avó: - é só torcer a saia que a víbora foge -. Embora fosse apenas menina, apertou o grosso tergal com os dedos trêmulos. A serpente ergueu-se. Ereta e com o prolongamento da língua, parecia maior. Nesse momento, sentiu uma imensa contração abdominal e, ao abrir os olhos, viu apenas a pequena calda, deixando o rastro entre os arbustos.
Suspirando aliviada, percebeu a mão ensopada de um líquido vermelho e viscoso. Com a cobra ainda brilhando nos olhos, deu meia-volta, desceu correndo a montanha e pulou no rio que a recebeu de braços abertos.
Wellington Pinto Coelho
Meu caro, que narrativa de fôlego. Bem retratas aqui de maneira metafórica o rito de amadurecimento feminino e o desejo e o medo do mesmo.
Parabéns mais uma vez
aguardo a votação para fazer jus ao seu escrito.
abraços
Que ótimo. A força do simbolismo colocada de forma admirável. Que agradável surpresa conhecer a sua literatura.
Parabéns mesmo.
Pobre menina, mergulhou para sempre no rio da vida e tornou-se mulher. Bravo!
Nic NIlson · Campinas, SP 10/7/2008 22:38
Depois de duas semanas ausentes do overmundo tenho essa deliciosa surpresa ao ter esse encontro.
Votado e divulgado.
Wellhington,
Impressionante!
Entre o medo e o alivio, o rito de passagem bem contado . Gostei
Votos e bjssss
Welhington,
Muito interessante esse conto.
Votado!
Uma composição: Pensamento bem feito, bem contado, completo
ao suscinto bem ao estilo "internet".
abraço
andre.
Poxa Welhington, foi muito bom o convite do Jurandir para conhecer sua literatura. Que texto maravilhoso. Esse desabrochar, cheio de simbolismo. Muito bom mesmo
Parabens.
Abraços
Olá Wellington,
Que belo texto.Gostei e votei com prazer!
Um abraço virtual,
Sílvia.BHG.MG.Brasil.
Wellington,
muito bom texto....gostei bastante, soube narrar o fato de forma metafórica, ao mesmo tempo clara!
Grande abraço,
leandro
Habitualmente faço travessias e caminhadas em trilhas. Já me deparei com algumas serpentes no meio da mata atlântica, mas no serrado nunca fui encarado por uma cascavel. Demais o texto, Wellington! Parabéns!
Fi Ribeiro · São Paulo, SP 25/5/2010 11:50Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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