Outro dia ao acordar, imaginei-me no lugar de Adão. Mas não o Adão de Eva; não o Adão da árvore do fruto da ciência do bem e do mal; não o Adão da expulsão do Paraíso; não o Adão que gerou Caim e Abel. Mas o Adão de seu princípio. O Adão que sendo o começo de tudo, foi ele o próprio princípio do começo. E sendo ele seu próprio início, ainda sofria e se espantava com seu próprio desconhecimento de si e de tudo que lhe rodeava.
Falo do Adão que tinha acabado de despertar do primeiro sono gerador de sua vida, e sendo primeiro, também gerador da humanidade. Falo do Adão que acordou do sopro nas narinas e ao sentir-se barro fresco revestido em epiderme, se fragilizava e se confundia com aquilo que lhe era dado.
O impacto da dor do princípio das coisas e seu espanto é algo inigualável, pois ao acordar sentia a mim, meu colchão e meu lençol como terra pura. Eu era um Adão-Frankstein que desconhecia a mim e ao mundo e sendo me dado de presente, não sabia o que fazer com aquilo tudo. Que já nascia homem e sendo homem feito, recém-nascido, dado de presente de si para si, não sabia o que fazer com o primeiro dia, a primeira fome, o primeiro medo, a primeira sede, o primeiro desejo, a primeira raiva, a primeira manhã, a primeira manha, já que era eu o primeiro.
Não ser acostumado consigo mesmo e com o mundo causa um êxtase gozosamente insuportável. O susto das coisas em volta é algo fatalmente e irremediavelmente bom, pois a minha reação perante os livros, o guarda-roupa, o criado-mudo e os outros objetos do meu quarto deveria ter sido como a perplexidade de Adão perante as árvores, o rio, o mato, os bichos e o céu imersos na redundância física do momento que se exibia. Que é a reação do prazer em conhecer sem conhecer o prazer. O prazer inconsciente e desconhecido é um milhão de vezes melhor do que o prazer propriamente dito. Ainda mais quando se concebe e se pare a si próprio, sendo o seu próprio pai e sendo a sua própria mãe.
Cabia a mim, apenas, me agarrar ao primeiro andar e caminhar com bastante dificuldade até o banheiro, onde liguei a torneira e acolhi nas minhas mãos em conchas aquele outro ser sedutoramente desconhecido: a água. E o primeiro contato desta no meu rosto fazia tudo gradativamente se apagar. E do redemoinho que nascia do ralo, eu via escoar-se tudo: o sentido primeiro das coisas; a sensação primeira de tudo e o Adão que havia em mim.
Márcio,
Guardei para ler depois com mais calma.
Volto
Elizete
quem já não se sentiu assim um dia???
gostei demais!!!!
parabéns!!
abraços,
olà amigo Marcio,
você está com um trabalho maravilhoso,sei lá quando que beleza de texto lindo cheio de criatividade. Isso é coisa pra gente ler e reler até não sei quando. Meus sinceros aplausos e abraços meu grande poeta.
Carlos Magno.
Sentir o prazer nas mínimas coisas, como se tudo fosse a primeira vez, e a primeira vez, em todos os nossos momentos da vida, não se esquece: a primeira professora, o primeiro dia de trabalho, o primeiro dia de aula na faculdade, são sentimentos inigualáveis, indescritíveis...
Excelente texto. Me percebi nesse extase da primeira vez...
Abração
Olá amigo Marcio,
voltei para corrigir um erro de digitação. o texto correto é:
Você está com um trabalho maravilhoso, que beleza de texto cheio de criatividade. Isso é coisa pra gente ler e reler até naão sei quando.
Meus sinceros aplausos e abraços meu grande poeta.
Carlos Magno.
Marcio, totalmente nonsense e maravilhosamente instigador.
Vou guardá-lo entre os meus favoritos pela beleza deste descobrir-se já sendo e mesmo assim, tendo que se construir.
beijos
Marcio, quando procurei o texto já havia saido da fila de votação, merecidamente claro. Mas o que eu merefiro é da conveniência, talvez, de um tempo mínimo, independente da votação.
- Do texto, acho que é por aí mesmo. Há uma série de indagações, a este respeito. o tal do primeiro é uma barra, andre.
Márcio,
que bela reflexão sobre si mesmo, sobre o outro...o contato da água no rosto, o que se apagava, o que nascia, belas imagens.
Abçs de Betha.
AMIGO MÁRCIO...
Antes tudo...
Agradeço aos comentários no "Recanto das Letras"...
Demorei a escrever... Estava de férias!
Li o texto "O despertar de Adão".
Todos os homens são "adãos" dependentes de "evas"!
Evas-mães! Evas-rainhas!
Evas-bruxas! Ervas-daninhas! Errei (rsrsr)
Evas-madrinhas!
Gostei do "proseado"...
Bem criativo!
Coisa de "adão-escritor"...
E lidas por "adão-leitor"...
Parabéns! É diferente!
Abraços.
Lailton Araújo
Um pouco atrasada, não é Márcio.
Vc é um ótimo escritor. Seu texto limpo nos leva a querer encontra o final.
Gostei demais.
Parabens!
Grande marcio!
Um texto e tanto de nos instigar a questionamentos...
Abçs.
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