O despertar de Adão - poema em prosa

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marcio rufino · Belford Roxo, RJ
2/10/2007 · 183 · 12
 


Outro dia ao acordar, imaginei-me no lugar de Adão. Mas não o Adão de Eva; não o Adão da árvore do fruto da ciência do bem e do mal; não o Adão da expulsão do Paraíso; não o Adão que gerou Caim e Abel. Mas o Adão de seu princípio. O Adão que sendo o começo de tudo, foi ele o próprio princípio do começo. E sendo ele seu próprio início, ainda sofria e se espantava com seu próprio desconhecimento de si e de tudo que lhe rodeava.

Falo do Adão que tinha acabado de despertar do primeiro sono gerador de sua vida, e sendo primeiro, também gerador da humanidade. Falo do Adão que acordou do sopro nas narinas e ao sentir-se barro fresco revestido em epiderme, se fragilizava e se confundia com aquilo que lhe era dado.

O impacto da dor do princípio das coisas e seu espanto é algo inigualável, pois ao acordar sentia a mim, meu colchão e meu lençol como terra pura. Eu era um Adão-Frankstein que desconhecia a mim e ao mundo e sendo me dado de presente, não sabia o que fazer com aquilo tudo. Que já nascia homem e sendo homem feito, recém-nascido, dado de presente de si para si, não sabia o que fazer com o primeiro dia, a primeira fome, o primeiro medo, a primeira sede, o primeiro desejo, a primeira raiva, a primeira manhã, a primeira manha, já que era eu o primeiro.

Não ser acostumado consigo mesmo e com o mundo causa um êxtase gozosamente insuportável. O susto das coisas em volta é algo fatalmente e irremediavelmente bom, pois a minha reação perante os livros, o guarda-roupa, o criado-mudo e os outros objetos do meu quarto deveria ter sido como a perplexidade de Adão perante as árvores, o rio, o mato, os bichos e o céu imersos na redundância física do momento que se exibia. Que é a reação do prazer em conhecer sem conhecer o prazer. O prazer inconsciente e desconhecido é um milhão de vezes melhor do que o prazer propriamente dito. Ainda mais quando se concebe e se pare a si próprio, sendo o seu próprio pai e sendo a sua própria mãe.

Cabia a mim, apenas, me agarrar ao primeiro andar e caminhar com bastante dificuldade até o banheiro, onde liguei a torneira e acolhi nas minhas mãos em conchas aquele outro ser sedutoramente desconhecido: a água. E o primeiro contato desta no meu rosto fazia tudo gradativamente se apagar. E do redemoinho que nascia do ralo, eu via escoar-se tudo: o sentido primeiro das coisas; a sensação primeira de tudo e o Adão que havia em mim.

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Marcio Rufino
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Elizete Vasconcelos Arantes Filha
 

Márcio,
Guardei para ler depois com mais calma.
Volto
Elizete

Elizete Vasconcelos Arantes Filha · Natal, RN 30/9/2007 17:02
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Marcos André Carvalho Lins
 

quem já não se sentiu assim um dia???
gostei demais!!!!
parabéns!!
abraços,

Marcos André Carvalho Lins · Recife, PE 1/10/2007 20:18
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carlos magno
 

olà amigo Marcio,

você está com um trabalho maravilhoso,sei lá quando que beleza de texto lindo cheio de criatividade. Isso é coisa pra gente ler e reler até não sei quando. Meus sinceros aplausos e abraços meu grande poeta.
Carlos Magno.

carlos magno · Rio de Janeiro, RJ 1/10/2007 20:35
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brigitte
 

Sentir o prazer nas mínimas coisas, como se tudo fosse a primeira vez, e a primeira vez, em todos os nossos momentos da vida, não se esquece: a primeira professora, o primeiro dia de trabalho, o primeiro dia de aula na faculdade, são sentimentos inigualáveis, indescritíveis...
Excelente texto. Me percebi nesse extase da primeira vez...
Abração

brigitte · Goiânia, GO 1/10/2007 22:12
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carlos magno
 

Olá amigo Marcio,

voltei para corrigir um erro de digitação. o texto correto é:
Você está com um trabalho maravilhoso, que beleza de texto cheio de criatividade. Isso é coisa pra gente ler e reler até naão sei quando.
Meus sinceros aplausos e abraços meu grande poeta.
Carlos Magno.

carlos magno · Rio de Janeiro, RJ 1/10/2007 22:41
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Saramar
 

Marcio, totalmente nonsense e maravilhosamente instigador.
Vou guardá-lo entre os meus favoritos pela beleza deste descobrir-se já sendo e mesmo assim, tendo que se construir.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 2/10/2007 00:28
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Roberta Tum
 

Márcio, gostei!
Está votado!
Um beijo!

Roberta Tum · Palmas, TO 2/10/2007 07:46
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Andre Pessego
 

Marcio, quando procurei o texto já havia saido da fila de votação, merecidamente claro. Mas o que eu merefiro é da conveniência, talvez, de um tempo mínimo, independente da votação.
- Do texto, acho que é por aí mesmo. Há uma série de indagações, a este respeito. o tal do primeiro é uma barra, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 2/10/2007 14:05
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BETHA
 

Márcio,
que bela reflexão sobre si mesmo, sobre o outro...o contato da água no rosto, o que se apagava, o que nascia, belas imagens.
Abçs de Betha.

BETHA · Carnaíba, PE 2/10/2007 16:36
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LAILTON ARAÚJO
 


AMIGO MÁRCIO...

Antes tudo...

Agradeço aos comentários no "Recanto das Letras"...

Demorei a escrever... Estava de férias!

Li o texto "O despertar de Adão".

Todos os homens são "adãos" dependentes de "evas"!

Evas-mães! Evas-rainhas!

Evas-bruxas! Ervas-daninhas! Errei (rsrsr)

Evas-madrinhas!

Gostei do "proseado"...

Bem criativo!

Coisa de "adão-escritor"...

E lidas por "adão-leitor"...

Parabéns! É diferente!

Abraços.

Lailton Araújo

LAILTON ARAÚJO · São Paulo, SP 6/10/2007 14:07
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Lígia Saavedra
 

Um pouco atrasada, não é Márcio.
Vc é um ótimo escritor. Seu texto limpo nos leva a querer encontra o final.
Gostei demais.
Parabens!

Lígia Saavedra · Ananindeua, PA 31/10/2007 20:52
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Robert Portoquá
 

Grande marcio!
Um texto e tanto de nos instigar a questionamentos...
Abçs.

Robert Portoquá · Adamantina, SP 2/11/2007 17:38
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