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O dia em que Deus se suicidou

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Ana Beise · Porto Alegre, RS
4/3/2007 · 19 · 1
 

As nuvens formavam desenhos, hora ali outra aqui em um magnífico quase pôr do sol há muito tempo não visto. Deus olhava do céu sua criação. Estava na beira de uma nuvem a contemplar seu trabalho de milênios tão bem feito.
- Hoje o homem descobriu a essência da vida.
São Pedro o olhou de canto e deu de ombros.
- Escondi por tanto tempo e para que? Pra um dia vir um ser qualquer, insignificante como aquele e me desmoralizar diante da Terra!
São Pedro acendeu uma cigarrilha e ofereceu outra a Deus que aceitou prontamente.
- Mas ainda há tanto para eles descobrirem...
- Ora! Não seja tolo... De que adianta descobrir o resto se o principal já esta ai, para todos verem e discutirem?!
- Nós podemos fazer...
- Não, não adianta matar ninguém. Nem fazer o tempo voltar. Lembra o que aconteceu quando o Nero chegou aqui? Transformou isto num inferno! E Júlio Verne? Queria por que queria olhar o centro de tudo, sem falar em outros tantos, Platão, Nietzche, Dostoievski, Carrol, Morrison... E aquele brasileiro desgraçado que até hoje fala errado! Juro que ele só faz aquelas músicas pra me provocar! Não adianta fazer nada. Mais cedo ou mais tarde haverá um outro que descobrirá tudo e nos fará ficarmos aflitos. Lembra do Einstem com sua maldita teoria? Pra ser bem sincero, até hoje não entendo aquilo direito.
- Senhor, não adianta se desesperar...
Deus ergueu sua mão em gesto que fez com que o Santo se calasse, girou nos calcanhares e caminhou lentamente até seu trono. Sentou e pôs-se a pensar onde tinha errado. Teve tanto cuidado ao criar seu planeta perfeito, a água, o ar, o fogo e a terra, a dose certa de amor, a dose certa de ódio. Os animais, a comida, o sexo. Até na guerra havia pensado! “Onde errai, onde?” Foi até seu bar e serviu-se um copo de vinho, aquele que havia ganhado de Baco, estava guardando-o para uma ocasião especial, chegou à hora. Nem quando mataram seu filho se sentira tão triste.
Ao ver a cena São Marcos se aproximou:
- O Senhor já vai beber de novo?
Deus nem lhe deu atenção, fez de conta que era com Judas que estava ali perto e deu um longo gole em seu copo.
- Um verdadeiro néctar dos deuses. Baco que sabe o que é bom!
Voltou ao seu trono levando a garrafa consigo. Sentou-se e ligou a TV. Sintonizou em Londres onde uma grade conferencia sobre a essência da vida estava sendo realizada.
- Olha, olha só! Esta tudo certo! Esse cara é um gênio, descobriu tudo. Quem eles são, de onde são e para onde vão. Terráqueos malditos! Sabem que posso matá-los com um estalar de dedos e mesmo assim continuam a me desafiar. Reles mortais, vejam o que faço!
Deus estalou os dedos e pum, explodiu o Krakatoa. Estalou os dedos novamente e pam, derreteu geleiras que provocaram um enorme tsumani que acabou com o Alaska e o litoral Norte Americano e quando ia estalar os dedos pela terceira vez São Marcos o segurou.
- Senhor. O Senhor esta bêbado. Não é nenhum fim do mundo.
Já com a voz grogue Deus respondeu:
- O fim chegará quando eu quiser, pode ser agora.
- Senhor, perdoe.
- Perdoar?! E eu sou lá de perdoar?!
São Marcos olhou para Deus e se calou, não haviam argumentos capazes de persuadir aquele ser. Deus recostou-se no trono e adormeceu.
Ao raiar de um novo dia, Deus acordou com uma dor de cabeça esfuziante. Ao se levantar tropeçou na garrafa de vinho e quase caiu, “diabos!”. Dirigiu-se lentamente até a beirada de sua nuvem e olhou para a Terra. Viu os estragos que havia feito na noite passada, estalou os dedos e os desfez.
- De que adianta? De que adianta?

Continua...

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Ana P. Beise
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Antonio Brás Constante (Escritor maluco)
 

Este só pode ser o tal Deus do antigo testamento. rsrs.. tendencioso e mau-humorado. rsrs. Muito bom, hoje me banqueteei em vários de seus inúmeros textos. Parabéns por todos eles. Eu vou me valer de sua palavra preferida e dizer que eu ACHO o seu dom para escrita maravilhoso. Grande abraço. ABC

Antonio Brás Constante (Escritor maluco) · Canoas, RS 9/12/2010 05:04
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