Na maior pindaíba, em uma tarde quente, sofrendo com o chamado choque cultural, mudei de canal e passei a assistir ao programa de televisão mais popular do estado do Ceará, NA BOCA DO POVO.
Assim que eu havia chegado a Fortaleza, no ano de 1992, concedi algumas entrevistas para jornais e emissoras da região. Falando dos meus projetos. Em especial, o CURTA AO MEIO-DIA, projeto que me levara ao Nordeste.
A produção do NA BOCA DO POVO, estranhou quando eu solicitei uma poltrona no estúdio, alegando que em pé não dava entrevistas (Não sei da onde tirei aquilo naquela hora!).
Meio contrariados, pois seria o primeiro programa que o apresentador apresentaria sentado junto com o entrevistado, atenderam o meu pedido. Eu parecia um doutor com as pernas cruzadas falando dos problemas sociais e como amenizá-los com a cultura.
Bem, esta entrevista acabou resultando apenas no meu casamento com uma índia manaura que cursava faculdade de Direito na Terra do Sol
Ela havia ficado com muita vontade de assistir ao Show Circulado, do Caetano Veloso, no Theatro José de Alencar que o apresentador do NA BOCA DO POVO acabara de anunciar.
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Mas como eu disse lá no começo, era pindaíba mesmo a nossa situação! Sem dinheiro para nada!
O ingresso mais em conta custava R$ 60,00. Exatamente a metade de um salário mínimo da época. E eu, precisava agradar a minha indiazinha...
Como produtor, consegui facilmente falar por telefone com o responsável da produção do show.
Contei-lhe que em 1983, eu e um primo meu, saímos de Ramallah para assistir o que seria um grandioso show em Tel Aviv. Nada mais, nada menos, do que Caetano Veloso, Djavan, Elba Ramalho e Ney Matogrosso. Todos numa só noite, num mesmo palco que estava muito longe do Brasil!
O meu primo era, e é, 100% palestino. Na fisionomia, na cor da pele, no bigodinho, na maneira de se vestir e caminhar. É um luminoso ambulante com os dizeres: SOU PALESTINO. Por isso, foi barrado no portão que dava acesso ao show. De nada lhe adiantou aquele ingresso que custara uma fortuna. Palestinos não entravam naquele show.
Entrei sozinho no campo de futebol. Fui o primeiro a chegar ao estádio, quase junto com a Elba que chegava para a passagem de som.
E conclui a conversa ao telefone, dizendo que por conta do ocorrido naquele ano de 1983, agora eu estava cobrando aquele ingresso não aceito e tampouco reembolsado, que o meu primo perdera por puro racismo.
O produtor, depois de ouvir atentamente a minha história, anotou o meu telefone me prometendo retorno.
Não levou uma hora e o telefone de casa tocou. Do outro lado da linha, o produtor me disse:
Cara, a sua atitude e a sua história, são tão inusitadas que merecem 2 ingressos na primeira fila do show do Caetano.
Só não fiquei mais contente, por que o show estava meio devagar. Caetano parecia triste. Mas em compensação, a paixão daquela índia que sentava ao meu lado na primeira fileira do teatro, transbordava em suas mãos que seguravam a minha.
Meu primo deu muitas risadas quando lhe contei. Depois, pediu-me para cobrar dos outros três também.
Kais Ismail · Porto Alegre (RS)
Mestre e Poeta Amigo.
Maior Satisfação a sua Volta com um Trabalho tão lindo como este do,
..... O dia em que levei a minha indiazinha ao Theatro José de Alencar.....
Como Sempre Trabalho de Primeira em bom LUGAR.
Abração
Parabéns e Abração
Grande história Kais, que te valeram dois ingressos e a satisfação plena da tua Indiazinha.
abraços
KAIS
Você sabe mesmo como reivindicar seus direitos. rss rss
Coragem, persistência, sensibilidade... Sangue palestino correndo nas veias, com certeza.
LIndo
bjs.
Kaiss,
Pesquisando agora o norte da África e a África Egipicia, vejo
que o Mundo, as pessoas do Mundo não evolui (ram), aprofundou
a escravidão rumo aos lagos, ao oceano, às florestas. E o homem,
as pessoas marcados, rotulados - os que podem e os que não podem.
Porque o racismo é como a escrvidão Africana (negra) étinica, racial, multiereditária.
Muito oportuno o teu conto e a comparação com o índigena das américas. um abraço, andre.
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