O Diário de Frida H

Historianet
1
Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ
12/3/2007 · 58 · 3
 

“Vós, que surgireis da maré em que perecemos, lembrai-vos também, quando falardes das nossas fraquezas, lembrai-vos dos tempos sombrios de que pudestes escapar (...) quando chegar o momento em que o homem seja bom para o homem, lembrai-vos de nós com indulgência.”
Aos que vierem depois de nós
(Bertolt Brecht)


É DIFÍCIL CONDENAR OU ABSOLVER o passado quando rugas já desenham o tempo em nossa face e o acaso nos impõe a tarefa de reconstruir a vida apenas com fragmentos de memória. Foi esse o meu dilema ao receber pelo correio o pequeno livro de capa vermelha com o nome vazado em branco: O Diário de Frida H. Na embalagem não havia remetente, mas, fosse quem fosse, ser-lhe-ei eternamente grato, pois, mais que uma simples memorabilia, aquele presente apócrifo era a chave que me conduziria ao passado, onde parte de mim ainda aguardava reencontrar-se com sua própria história.

O livro começava com uma epígrafe do comunista tcheco Júlio Fuchik, que testemunhou o horror nazista durante a Segunda Guerra e o registrou no dramático Testamento sob a Forca: “Só vos peço uma coisa: se sobreviverdes a esta época, não vos esqueçais! Não vos esqueçais nem dos bons, nem dos maus. Juntai com paciência as testemunhas daqueles que tombaram por eles e por vós. Um belo dia, hoje será o passado, e falarão numa grande época e nos heróis anônimos que criaram a História. Gostaria que todo mundo soubesse que não há heróis anônimos. Eles eram pessoas, e tinham nomes, tinham rostos, desejos e esperanças, e a dor do último de entre os últimos não era menor do que a dor do primeiro, cujo nome há de ficar. Queria que todos esses vos fossem tão próximos como pessoas que tivésseis conhecido como membros da vossa família, como vós mesmos.”

O texto me sensibilizou e me arremessou ao dia em que tudo começou e quando o destino de Frida confundiu-se com o meu e o do país: 1o de abril. O Correio da Manhã estampava em letras garrafais a manchete “Fora!”. Mesmo eu, com pouco mais de vinte anos e nenhuma consciência política, não pude deixar de intuir a gravidade do que ocorria. A notícia que Frida leu era assustadora: "A nação não mais suporta a permanência do Sr. João Goulart à frente do governo. Chegou ao limite a capacidade de tolerá-lo por mais tempo. Não lhe resta outra saída senão entregar o governo ao seu legítimo sucessor. Só há uma coisa a dizer ao Sr. Goulart: saia.” O comboio de tanques e caminhões na rua sublinhou o sentido daquelas palavras, atropelando minha inconsciência e as esperanças de Frida, que fechou o jornal e recolheu-se em silêncio. O horror do pesadelo que se iniciava, todavia, só nos alcançou na tarde do dia seguinte, quando soldados armados cercaram a casa, na Tijuca, e bateram com truculência à porta, interrompendo o radiojornal em edição extraordinária que acabara de calar Dalva de Oliveira.

FAÇA DOWNLOAD DO ARQUIVO PARA LER O TEXTO COMPLETO

compartilhe



informações

Autoria
Nivaldo Lemos
Downloads
596 downloads

comentários feed

+ comentar
Ize
 

Querido Nivaldo,
dei totalmente por acaso com esse texto por aqui, e nem sei como estou conseguindo escrever essas palavras tamanha é minha emoção e tantas as lágrimas que a acompanham.
Justamente hoje, depois de ter lido seus comentários ao texto que fiz sobre O Reminiscências..., vim parar aqui e agora entendo perfeitamente porque vc compartilha de meu entusiamo por W. Benjamin.
Nunca tinha ouvido falar em Frida Hoffmann. Aliás, fui para a internet e não encontrei uma palavra que fosse sobre ela e seu companheiro Jonas.
Que história essa que vc desencava e oferece ao futuro que sobreveio àqueles tempos de barbárie da ditadura. Meu Deus, e pensar que Jonas foi vítima também dos horrores do Estado Novo.
Penso que vc deveria tornar a publicar essa colaboração aqui no overmundo. Não sei porque este é o primeiro comentário a este texto fundamental (dos mais fortes que já li por aqui) que vem reacender o passado para que ele nunca mais se repita. Esse diário (ele foi publicado?) é um apelo do passado que não pode ser rejeitado.
Meus sinceros agradecimentos por me apresentar a Jonas e a Frida, dando nome e rosto ao seu anonimato.
Um grande beijo
da Ize

Ize · Rio de Janeiro, RJ 18/12/2007 02:21
sua opinião: subir
Nivaldo Lemos
 

Ize, minha querida amiga,

fico muito feliz de que tenha gostado do Diário de Frida H, mas na verdade trata-se de um conto, entre outros que publiquei no Overmundo. Frida e Jonas são personagens fictícios, no entanto construídos em cima de fragmentos de minhas memórias pessoais e familiares. Ambos seriam na verdade uma homenagem aos(às) inúmero(a)s amigo(a)s que comigo conviveram naqueles anos sombrios - muitos dos quais foram "suicidadados" ou "desaparecidos" - e que deram à minha vida um significado bem maior, de participar na construção do mundo. É gratificante, principalmente, perceber que consegui imprimir verossemelhança à criação literária, a ponto de fazê-la crer na história como se fora fato (eu temia - até pela ausência de comentários - que minha imaginação fora longe demais). E receber comentário tão envaidecedor de alguém que tanto respeito, como você, me basta. E até me convence de que o texto tem alguma qualidade literária que possa até justificar sua republicação - possibilidade, aliás, que eu sequer conhecia. Por tudo, fico-lhe extremamente agradecido e - como não poderia deixar de ser - muito envaidecido, quase besta. A ponto de me atrever a lhe indicar aqui um poema sobre o mesmo tema crendo que você talvez possa também gostar.

Um beijo carinhoso.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 18/12/2007 11:24
sua opinião: subir
Ize
 

Você hein!? Me fez chorar por Frida e por Jonas. Mas boa literatura é assim mesmo. Sensibiliza à flor da pele. Meu Deus, sabe que respiro aliviada por eles não terem sofrido aquele horror das torturas. Ai, posso ir à praia agora sem culpa. È tão bom, mas tão bom que azar o de quem não leu. Uma coisa não entendi: como o texto foi publicado com menos de 60 votos? Tb não sei se pode ser publicado again. Mas valeria tentar.
Beijos
Qdo voltar da praia (yesssssss, estou de recesso) leio o poema.

Ize · Rio de Janeiro, RJ 18/12/2007 12:29
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados