Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

O Dinheiro e o Trabalho em Lupicínio Rodrigues

1
Marina Bay Frydberg · Porto Alegre, RS
22/7/2010 · 9 · 1
 

O Dinheiro e o Trabalho nos Sambas Dor-de-Cotovelo de Lupicínio Rodrigues

Marina Bay Frydberg

Mesmo não sendo o tema principal da obra de Lupicínio Rodrigues, este explorou os temas do dinheiro e do trabalho em sua obra, mas de forma menos explícita que muitos outros compositores de samba. O dinheiro e o trabalho que apareciam em sua obra estavam sempre relacionados com um dos elementos principais na sua produção musical: a mulher.
O dinheiro no Brasil é tratado de diferentes ângulos por diferentes autores, mas possui sempre um caráter depreciativo. Seja na literatura, seja na música ou em textos científicos a negação ao dinheiro faz parte da história do Brasil e da cultura brasileira. Não só a questão do dinheiro enquanto papel ou moeda é considerado sujo, mas a preocupação por dinheiro também é considerada algo de menor valor no Brasil. Simmel argumenta que:

O dinheiro é ‘vulgar’ porque é o equivalente para tudo e para todos; somente o individual é nobre; o que corresponde a muitas coisas corresponde ao mais baixo entre elas e reduz, por isso, também o mais alto para o nível mais baixo (SIMMEL, 1998: 31)

O dinheiro é visto na maioria dos casos de forma ambígua, como defendeu Olavo Bilac (1997) no seu julgamento do dinheiro. Para ele o dinheiro, de forma global, possui um lado bom, todos o amam e o desejam, mas também um lado mau, todos falam mal dele.
A visão que reduz o dinheiro a algo de baixo valor e que tudo que ele pode comprar também é reduzido a nada, está presente nas músicas de Lupicínio Rodrigues. O dinheiro nas músicas do compositor aparece com relação a três questões. A primeira é o uso do dinheiro para ajudar alguém, seja um desconhecido ou um amigo. A segunda forma é o dinheiro conseguido para a mulher, seja para sustentar a casa ou realizar seus caprichos. E a terceira relação com o dinheiro é a comparação da mulher a ele. Esta terceira relação aparece de forma explícita na música Dinheiro Falso.


Essa mulher parece dinheiro falso
Que faz mais força que eu faço
Pra passar e não passo
Eu tenho a minha vida
Mergulhada em desgosto
Acho que o fim dessa mulher
Vai ser comigo no posto
Mas quando eu compro
Uma camisa ela rasga
E o pior é que não paga
O estrago que fez
Vejam vocês
Vinte mil réis
Mais uma vez
Aí é que se vai
O meu dinheiro do mês
A dois por três


Nesta música a mulher é comparada ao dinheiro, o dinheiro é uma forma de simbolizá-la. Desta forma é atribuída a mulher - não só neste samba, mas em muitos que fazem este mesma comparação - uma série de características também atribuídas ao dinheiro. A mulher é chamada de suja, desprezível, mesquinha, vil, calculista, impura, mercadoria, degradada e falsa (OLIVEN, 1997, 2004). Já o homem é visto como provedor, enquanto a mulher é descrita como interesseira, consumista e traidora. Esta relação entre o homem provedor e a mulher consumidora é realçada na maioria das músicas de Lupicínio Rodrigues que tem como tema o dinheiro.
O dinheiro para a mulher aparece de duas formas nas músicas do compositor. Primeiro aparece como forma de presentear a mulher e, segundo, coloca a mulher como uma figura interesseira que só quer o dinheiro do homem. A primeira forma que utiliza o dinheiro como uma forma de presentear a mulher aparece na música Triste Regresso.


E eu que sonhava
Dormir no teu braço
Pra dá fim a este
Grande cansaço
Que a viagem que eu fiz
Me deixou...

Trazia presentes
Trazia dinheiro
Para dar a ela
Trazia saudade
De um amor que a distância
Ainda mais aumentou

Chorei igual uma criança perdida
Quando eu soube que a sua vida
Com a minha ausência mudou
Os presentes rasguei, joguei fora
O dinheiro que eu trouxe gastei
Com o meu grande amor
O que vou fazer eu não sei


O dinheiro e os presentes aparecem nesta música como uma forma de agradar a mulher, só que foi inútil já que ela já havia o abandonado no tempo em que ele viajava.
O dinheiro é visto como uma forma positiva de presentear, ao contrário do que defende Monjaret (1998) que considera o dinheiro dado como presente uma forma impessoal de expressar sentimentos por alguém. Mas nas músicas de Lupicínio Rodrigues o dinheiro como presente não é visto desta maneira, pelo contrário, dado ao seu difícil acesso, ou seja, a dificuldade que é consegui-lo, dá-lo como presente é demonstrado como uma forma pessoal de homenagear alguém.
A mulher também está ligada ao dinheiro quando é este o único interesse que a liga ao homem. Quando não é o vínculo emocional que liga a mulher ao homem, mas o vínculo financeiro, por assim dizer, que faz a mulher trocar um homem por outro que lhe ofereça mais dinheiro. É o que foi cantado em muitas músicas de Lupicínio Rodrigues como em Quarenta Anos, dele e de Rubens Santos.


Eu já fiz quarenta anos
Já não sou moço nem bonito como tu
Minha cara não ajuda mais
Mas eu guardei uma nota no baú

Dinheiro é cara de homem
Pra coração de mulher
Quem tem dinheiro no bolso
Consegue tudo que quer
Tu com essa cara bonita
Vai ter que me desculpar
Mas o dono da boate
Não vai te deixar entrar
(Chega pra lá!)


Nesta música é cantada de forma explícita a valorização do dinheiro sobre qualquer outra característica que o homem possa possuir como, por exemplo, a juventude. E deixa muito claro que o que realmente importa a mulher para ela gostar de um homem é que ele tenha dinheiro.
O dinheiro também pode ser visto de maneira positiva, como por Bilac (1997), ele pode trazer descobertas, realizações, prazeres e amor. Este último é colocado em contraposição ao dinheiro na medida em que pode conseguir “comprar” amor, pode destruí-lo. Esta é uma temática recorrente no samba. O amor em contraposição ao dinheiro pode adquirir duas formas distintas. A primeira é a valorização do amor em detrimento ao dinheiro. Outra visão é de que não se consegue amor, nem amar, sem dinheiro. O dinheiro pode estar ligado à obtenção de prazer, mas está sempre em contraposição ao carinho e ao afeto.
Simmel (1998) argumenta que o dinheiro é o facilitador entre o homem e seu objeto de desejo, nos casos dos sambas de Lupicínio Rodrigues, a mulher. O dinheiro é assim, a instância de mediação que possibilita que quando o homem tenha dinheiro, seja capaz de alcançar o que ele queira.
Vangelista (2000) compara a noção de dinheiro na obra Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, e Os Ratos, de Dyonélio Machado e traz de forma histórica na primeira uma interpretação do caráter negativo não só do dinheiro como da forma de ganha-lo, o trabalho. A base da colonização do Brasil é uma das fontes de explicação utilizada em Raízes do Brasil para compreender o caráter coletor da sociedade brasileira, que desvaloriza o trabalho manual e de forma mais geral o trabalho como um todo. Conseqüentemente há uma desvalorização da forma de recompensa por este trabalho, o dinheiro. O dinheiro não possuía o mesmo valor simbólico que outros produtos não só como moeda de pagamento como de troca, pois representava a sobreposição do urbano sobre o rural, ainda predominante no Brasil e dotado de uma importância histórica na década de trinta, quando ambos os textos foram escritos. No Brasil o dinheiro é um bem de fácil e rápida circulação.
O dinheiro não aparece na cultura brasileira como fruto do trabalho, tanto na música quanto na literatura, ele vem de forma mais rápida através da malandragem ou do jeitinho, características consideradas típicas do brasileiro, ou mesmo através de roubos, pequenos furtos, jogos de azar ou empréstimos. Na maioria dos sambas das primeiras décadas do século XX o dinheiro não advém do trabalho, mas da sorte. Quanto mais se trabalha, menos se ganha. Quanto mais as mudanças econômicas acontecem no país, menos as populações de baixa renda usufruem dessas mudanças. Dinheiro permanece sendo para o povo artigo de luxo, sendo assim, eles elaboram esse não acesso ao dinheiro através da rejeição dele. Popularmente no Brasil dinheiro não traz felicidade. Mas nos sambas de Lupicínio ele pode trazer fortuna como na música Migalhas, em parceria com Felisberto Martins.


Quando amanheço
Sem pão e sem trabalho
Vendo no meu agasalho
Os remendos de outra cor
Nervoso sento na ponta da mesa
Quase a morrer de tristeza
A pensar no meu amor

Eu ao teu lado tive fortuna e carinho
Cantei qual um passarinho
Nos galhos do paraíso
Tive na vida um eterno sorriso
Infelizmente não quis
Para tornar-te uma perdida
E eu um infeliz

Às vezes no auge da aflição
Lembro-me de tua casa
Não pra pedir-te perdão
Pois não é justo que eu queira ser perdoado
Sabendo ser o culpado de toda nossa questão

A solidão quase me leva a loucura
De ir procurar a fartura que eu deixei no teu lar
Mas a chorar vejo na tua tristeza
Que eu não mereço as migalhas
Que caem da tua mesa


O homem da música amanhece sem trabalho e sem dinheiro e lembra que todo o período de felicidade e de fartura que ele teve estava ligado a uma mulher que ele abandonou e que não deve lhe dar nem migalhas. Mas a maioria das músicas de Lupicínio Rodrigues, e dos sambas em geral, coloca a mulher como o motivo que leva o homem a trabalhar: o homem trabalha para a mulher. Vejam em Triste História, de Lupicínio Rodrigues e Alcides Gonçalves.


Ontem
Quando eu vinha dos meus lados
Encontrei com um malandro
Tão triste o coitado!
Seu amor lhe abandonou
Um homem não chora, é verdade
Mas esse malandro chorou

Me contando a sua história
Tal qual como se passou
Disse-me que desta vez
Ele amava alguém
Por ela se transformou!
Fez-se um trabalhador
Que queria esta criança
Como uma nova esperança
Que o destino lhe entregou

E um malandro que cantava
Com mais sentimento
Fez com que ela lhe deixasse
No esquecimento
Hoje dá pena de ver
Esse homem sofrer
E chorar procurando esquecer
Seu penar


Esta música conta a história de um homem, um malandro, que mudou de vida e começou a trabalhar por causa de uma mulher, que no fim o abandonou. Ou o contrário disto, o homem que pede como demonstração de amor da mulher que ela vá trabalhar em seu lugar, em Prova de Amor.


Você diz que me ama de verdade
Mas nunca deu prova
Da sua sinceridade
E palavras nada podem resolver
Sou daqueles que querem ver para crer

Esta prova podes me dar assim
Deixa eu ficar deitado
E vai trabalhar pra mim
Que vantagem eu tenho
Em possuir o seu amor
Se eu que trabalho
Com o frio e com calor
Quem ama faz sacrifícios
Você pra mim nunca fez
Eu que pago as contas
Quando chega o fim do mês


Este é o homem provedor que sustenta a casa e a mulher e que cansado pede que a mulher vá trabalhar em seu lugar. O homem provedor entra em confronto com o homem boêmio que saí toda a noite para se divertir. Um não é o oposto do outro nas músicas de Lupicínio, só que a boemia torna a vida do provedor mais cansativa, ou vice e versa, como argumentaria o próprio compositor.
A relação entre dinheiro/trabalho e amor insere na discussão uma importante personagem que está sempre vinculado a ele: a mulher. A mulher é vista na música popular brasileira, segundo Oliven (1997, 2004), em relação ao dinheiro/trabalho de três formas distintas. A primeira é a mulher “Amélia” ou “Emília”, que nunca reclama e chega a sustentar o marido/malandro. A segunda é a dona-de-casa que sempre reclama da falta de dinheiro e pressiona o marido para buscar dinheiro, a maioria das vezes o mandando trabalhar. A terceira mulher é a piranha que só quer tirar o dinheiro do homem, explora-lo. A música Trabalho de Lupicínio e Felisberto Martins canta o segundo tipo de mulher, a dona-de-casa que exige que o marido trabalhe para poder trazer dinheiro para casa.


Trabalho! Trabalho! Trabalho!
Veja você se eu não tenho
Que falar (Edgar)
Trabalho! Trabalho! Trabalho!
Essa mulher sempre a me reclamar

Me põe tanto sobrenome
Pão, pão, feijão, café
Que meu verdadeiro nome
Eu já não sei como é

Arranjou um garotinho
Querido, muito querido
Mas pegou a mania
De me botar apelido
Qualquer dia me aborreço
E já sei como se faz
Me deito e não me levanto
E não trabalho mais


Nesta música a resposta do marido a tanta exigência é a ameaça de deitar e não levantar mais para trabalhar. Há, também, nas músicas de Lupicínio Rodrigues sempre o medo da traição, que lembraria um pouco a mulher piranha que deixa o marido enquanto ele vai trabalhar, como na música Honestíssima da Conceição, em parceria com Rubens Santos.


Achei uma nêga na rua
E levei para o meu barracão
O nome da nega era Honestíssima da Conceição
Eu ia pro batente
E a nega fervia e fazia miséria
Eu briguei com toda a vizinhança
E cheguei a jurar que a nega era séria

Chamei um amigo
O Lupicínio que vocês conhecem
Pedi um conselho
Para uma história assim dessa espécie

Ele disse a resposta que estava em um samba que fez a capricho
Ninguém encontra uma nega que preste
Abandonada e jogada no lixo!


Mas muitas das mulheres cantadas nos sambas de Lupicínio Rodrigues são uma mistura da mulher tipo “Amélia” ou “Emilia” com o tipo piranha. Elas trabalham e são capazes de sustentar um malandro ou vagabundo, mas seu ambiente de trabalho geralmente é o bar (como proprietárias ou atendentes) ou as boates (como dançarina). As mulheres que trabalham em bar aparecem em duas músicas de Lupicínio Rodrigues a primeira como proprietária em Dona do Bar.


Se for para chorar
Se for para sofrer
Ver meu sonho tão lindo caindo
Querendo morrer
Se for para chorar
Se for para sofrer
Eu não vou entrar mais neste bar
Vou deixar de beber
Eu não vou, eu não vou
Porque os olhos da dona depois não me deixam sair
Se eu preciso ir pra casa mais cedo
Sei que vou chorar
Passo as noites rolando na cama e não posso dormir
Seus cabelos compridos de longe
Ficam a me acenar
Pra voltar em seu bar e beber uma nova ilusão
Assistir os fregueses ao entrar e sair lhe beijar
E voltar pra casa brigando com meu coração


E a segunda como atendente em Boneca de Doce.


Lá no bar aonde eu vivo
A tomar aperitivo
Na hora de descansar
Queria que você fosse
Ver a boneca de doce
Que tem pra nos despachar.

É tão meiga, tão mimosa
Um botãozinho de rosa
Que Deus deixou caminhar...
Quando com a gente graceja
Enfeita mais que a bandeja
Do mostruário do bar.

Sem nome
Quando os fregueses murmuram
Parece até que me furam
Com flechas o coração...
Pois tenho medo
Que algum rapaz atrevido
Me roube o anjo querido
Que eu tenho atrás do balcão.

E quando
Vou para casa sozinho
Sonhando pelo caminho
Penso loucuras assim:
Se eu fosse rico
E essa casa fosse minha
Essa linda bonequinha
Só despachava pra mim.


O que mais importa na mulher que trabalha nas músicas de Lupicínio Rodrigues é que mais que sustentar um homem, trabalhando geralmente em ambientes noturnos, elas são alvo de cantadas de muitos homens, o que deixa seus apaixonados enciumados. Como na música Rainha do Show, em parceria com David Nasser.


Sobe o pano
E apareces
Teu corpo lindo ofereces
A platéia a te saudar
Os homens loucos vibrando
Parecem lobos uivando
Famintos pra te abraçar
Mulheres já desprezadas
Contemplam enciumadas
Seus homens a te adorar
Só eu fico imaginando
Só eu estou calmo pensando
Como tu foste mudar

Assisto espantado e mudo
Este festival de carne
Do qual a estrela és tu
E a delirante platéia
Tudo tu ofereces
No show do teu corpo nu
Mas esta mulher divina
Que aos homens tanto alucina
Quando o povo vai baixar
Só eu revejo a menina
Que num portão, numa esquina
Eu ensinei a beijar


De forma menos explícita que em muitos sambas de outros compositores brasileiros da mesma época, os sambas de Lupicínio Rodrigues também rejeitam o trabalho. Como na música Carpinteiro em que comparando sua vida com a vida de Cristo o personagem da música não vê necessidade de trabalhar.


Oh! Por que me chama assim de vagabundo?
33 anos viveu Cristo neste mundo
E nesta idade trabalhou um mês
Querem saber o que ele fez?
Foi ser carpinteiro pra agradar seus pais
Achou pesado e não foi mais
Aí nunca mais teve outra profissão
Senão pregar a religião

Adão foi nesta terra o primeiro varão
Nunca pensou em trabalhar
Viveu no paraíso
No meio das frutas para comer sem cozinhar
Ainda pediu pra companheira pra lhe ajudar
Nem roupa quis pra não mudar!


Estes dois temas, dinheiro e trabalho, que de início pareciam inexpressivos na obra de Lupicínio Rodrigues, em uma análise mais minuciosa de suas músicas se transformaram em algo importante, significativo. O dinheiro e o trabalho aparecem de forma semelhante a outros sambas da mesma época, mas ao mesmo tempo sua rejeição não é assim tão grande e prioritária. A primeira relação, e a mais importante, que se dá com o dinheiro e o trabalho é a mulher. A mulher liga não só estes dois elementos entre si - é preciso trabalhar para ter dinheiro para agradar a mulher - mas também os liga a outros elementos importantes na obra de Lupicínio Rodrigues, como a noite e a boemia - a mulher que trabalha na noite e que sustenta o boêmio.
O dinheiro permanece, nas músicas de Lupicínio Rodrigues, tendo um caráter ambíguo. Ao mesmo tempo em que é bom, mediador entre o homem e seu desejo, o dinheiro também é sujo e menos importante se comparado a boas amizades. Afinal, um bom amigo empresta dinheiro quando se precisa, paga bebida em festas na noite e não vai oferecer dinheiro para ganhar a sua mulher. Mas que o dinheiro ajuda com as mulheres e na boemia, isso Lupicínio nunca negou em suas narrativas musicais.
Já o trabalho é visto de uma forma um pouco diferente que em outros sambas da mesma época. Enquanto nestes há uma direta e explícita rejeição ao trabalho, nos sambas de Lupicínio Rodrigues isto não aparece tão fortemente. Mais que uma negação ao trabalho, as suas músicas trazem, ou pelo menos transparecem, a dificuldade de conciliar trabalho e vida doméstica com boemia e vida noturna. Uma torna a outra mais difícil de ser vivida. A não ser quando é a mulher que trabalha para sustentar a boemia do homem, mas para isto o homem paga com muito ciúmes e alguma chance de ser traído.
Lupicínio constrói uma narrativa em que tanto no trabalho quanto no dinheiro é para a mulher que se trabalha e se ganha dinheiro – para conquista-la – ou é por causa da mulher que se trabalha e se ganha dinheiro – para não a perder. O personagem Lupi, construído pela sua narrativa musical, trabalha e ganha dinheiro com o único objetivo de poder amar.

Referências Bibliográficas

BILAC, Olavo. O Dinheiro. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1997.
FRYDBERG, Marina Bay. Lupi, Se Acaso Você Chegasse: Um Estudo Antropológico das Narrativas sobre Lupicínio Rodrigues. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) - Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2007.
MONJARET, Anne. L’argent des cadeaux. In: Ethnologie Française. Vol. 28, nº 4, 1998.
OLIVEN, Ruben George. O Imaginário na Música Popular Brasileira. In: BRITO, Joaquim Pais, CARVALHO, Mário Vieira de, PAIS, José Machado (orgs.). Sonoridades Luso-Afro-Brasileiras. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2004.
OLIVEN, Ruben George. O Vil Metal: o Dinheiro na Música Popular Brasileira. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais. São Paulo, Ano 12, nº33, 1997.
SIMMEL, Georg. O Dinheiro na Cultura Moderna. In: SOUZA, Jessé e OËLZE, Berthold (orgs.). Simmel e a Modernidade. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1998.
VANGELISTA, Chiara. Papel-moeda / Papel engraxado: o dinheiro nas relações sociais. Uma leitura de Os Ratos e Raízes do Brasil. In: PESAVENTO, Sandra Jatahy (org.). Leituras Cruzadas. Diálogos da História com a Literatura. Porto Alegre, Editora da UFRGS, 2000.

Sobre a obra

Este artigo busca explorar dois temas aparentemente não presentes na produção musical do sambista Lupicínio Rodrigues: o dinheiro e o trabalho. Lupicínio Rodrigues é conhecido como o poeta da dor-de-cotovelo, ou seja, de cantar as desventuras do amor. Todavia em sua obra também aparece a relação do dinheiro e do trabalho, temas clássicos nos sambas. Mas o dinheiro e o trabalho estão sempre vinculados ao tema maior da obra de Lupicínio Rodrigues, a mulher. É por causa dela e para satisfazê-la que o homem trabalha e busca o dinheiro. Mas a mulher também pode ser a causadora da perda tanto do trabalho quanto do dinheiro. Para Lupicínio Rodrigues tanto a mulher, quanto o dinheiro e o trabalho, podem ganhar características positivas ou negativas dependendo do contexto musical em que esteja inserido.

compartilhe



informações

Autoria
Marina Bay Frydberg
Downloads
86 downloads

comentários feed

+ comentar
O
 

Marina, uma viagem no lotação do Samba ao enconto Dela e... cheio do Cascalho.

O"Silva · Belo Horizonte, MG 26/7/2010 20:18
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Revista Overmundo nº 6: esquentando as turbinas!

A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados