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O direito de ser infeliz

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Bárbara "Akyra" Rocha · Belo Horizonte, MG
15/3/2009 · 37 · 3
 

(Originalmente publicado no Makaber Magie.)

Um dos últimos capítulos de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. relata uma discussão entre dois Alfa-Mais, o Selvagem e um Controlador Mundial. Quatro indivíduos que, por algum motivo, percebem as falhas no sistema.

Bernard Marx, um indivíduo cujos problemas físicos (altura incompatível com sua casta) levam a problemas psicológicos relacionados com a solidão e a felicidade.

Helmoltz Watson, engenheiro de emoções (escritor), percebe a falta de individualidade e emoções verdadeiras.

Mustapha Mond era um físico compromissado com a verdade, mas que escolheu defender a felicidade alheia e a manutenção do establishment em troca de uma vida de mentiras e renúncia à ciência.

John, o Selvagem, vive em dois mundos, sem pertencer a nenhum deles: filho da Beta-Menos Linda, ele foi isolado do convívio social na Reserva onde nasceu e foi criado; uma vez na civilização, não resiste ao conflito de ideias entre as duas sociedades, ora sentindo falta do isolamento, ora estranhando os costumes diferentes.

Bernard e Helmholtz se retiram da sala em determinado momento, depois de serem avisados de que serão enviados a uma ilha onde são enviados todos aqueles que por algum motivo não se adaptaram à civilização. Permanecem na sala Mustapha Mond e John, e eles conversam. Mustapha tenta explicar as vantagens do novo mundo, do soma, da coletividade amortecida, da falta de laços estreitados entre os indivíduos, da felicidade. John rebate os argumentos do Controlador, mostrando a artificialidade disso tudo, a falsa felicidade. Ao fim de tudo, John se decide pela infelicidade, ou seja, pela humanidade.

É próprio do ser humano essa infelicidade. Como ser pensante (faculdade que é abolida pelo condicionamento dos indivíduos no Admirável Mundo Novo), o homem passa por muitos questionamentos, pelos obstáculos. Tudo isso é retirado , e sobra apenas a distração e o consumo vazios de conteúdo etiquetado como felicidade. O indivíduo fica resumido a uma célula do corpo social; o corpo social sobrevive por si só e se prolonga indefinidamente como um organismo imortal, eterno. A felicidade é, então, uma prisão que garante a manutenção do establishment pelo controle psicológico e fisiológico do ser humano.

John, o Selvagem, por ter sido criado em outra sociedade, é capaz de perceber a artificialidade do sistema. Ele percebe a inumanidade dos indivíduos. Em suma, ele percebe os fantoches e os cordões. Não há ninguém manipulando os cordões. Eles se movem por si mesmos, de acordo com o contexto social. É nesses termos que John renuncia à felicidade em troca da humanidade, em troca da liberdade. A liberdade de ser humano e não uma célula do corpo social. A liberdade de sofrer, mas ser verdadeiro, carne e osso. Como isso não foi possível, a saída foi o suicídio, a fuga dessa posição de não ter lugar nenhum.

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Onivaldo Paiva
 

Tive a “felicidade” de entrar aqui para “assistir esta aula” de filosofia. O tema é profundo e me falta entendimento suficiente, no entanto, como não sou o sábio que se cala, entro no assunto com minha insensata “colher de pau”.
Os tempos em que vivemos parecem regidos por um Mustapha Controlador, e os Johns que percebem a “artificialidade disso tudo” estão amordaçados ou soterrados sob a imensidão de pasmados que se atropelam no afã de consumir este “soma”, esta “falsa felicidade” consumista. Como ratos nos multiplicamos aos milhões, e seguimos, cegos, na corrida para o precipício.
Só não creio que a saída seja o suicídio: esta seria uma fuga estéril. Há que existir outro caminho. É a minha esperança. Embora Albert Camus, um lúcido, que parece ter optado pelo suicídio, tenha afirmado que "toda infelicidade provém da esperança" eu espero e ao mesmo tempo concordo com a articulista: reservo-me o direito de ser infeliz, à parte do rebanho.
John é voz que clama no deserto.

Onivaldo Paiva · Uberlândia, MG 17/3/2009 01:38
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solares
 

Viver já é complicado, com amarras impossível.

solares · São Paulo, SP 17/3/2009 09:34
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Doroni Hilgenberg
 

Barbara
parece que eu assisti esse filme ou algo parecido
e é isso mesmo!
até porque a felicidade nunca será completa
Se para ser feliz precisarmos nos isolar do nosso mundo
e viver num mundo artifical, não valerá a pena né, não?
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 17/3/2009 12:38
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