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O documentário "Uma noite em 67"

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ratner · Porto Alegre, RS
9/8/2010 · 1 · 0
 



Fui ver no sábado, no Unibanco Arteplex, o documentário "Uma noite em 67", que centra foco no terceiro festival da música popular da TV Record. O certame foi um divisor de águas, principalmente porque nele surgiu o Tropicalismo, com Caetano Veloso acompanhado dos Beat Boys interpretando "Alegria, alegria", e Gilberto Gil ao lado dos Mutantes mostrando Domingo no Parque. Ao mesmo tempo, os representantes da bossa nova engajada estavam com toda carga, apresentando belíssimas canções. Eu havia lido um artigo na revista Bravo sobre o filme, que me instigou bastante a logo vê-lo. Realmente é um documentário muito legal, pena que as cenas tenham sido gravadas em preto e branco (isso, por óbvio, porque não foram gravadas coloridas) e não tenham sido "colorizadas", ainda que artificialmente, ao contrário do que acontece na revista, em que as fotos estão beeeeeeemm coloridas. O aspecto visual, trazido pelas roupas com combinações de cores um tanto heterodoxas dos tropicalistas, era um dos mais importantes elementos de sua novidade, e se encaixava direitinho no espírito da nova mídia que era então a televisão. Diferentemente dos artistas da Era do Rádio, o visual passava para a linha de frente nas prioridades dos artistas que pretendiam se lançar no meio musical. Outra grande ênfase do filme foi o destaque para a junção de guitarras elétricas com a música brasileira feita pelos tropicalistas (embora a bossa nova já tivesse feito isto, mas não com o uso do rock, e sim com a influência do jazz, e o próprio pessoal da Jovem Guarda, por exemplo, com The Pop's e Eduardo Araújo). As letras da tropicália, que remetem também ao visual e ao cinematográfico, além de muitas vezes se valerem da técnica da colagem - artifício tão caro aos artistas plásticos de vanguarda dos anos 60 -, revelam-se de alto teor poético, e têm parentesco também com a crônica do Brasil pós-64. É enfocada também no filme a tão falada e pouco vista (eu, por exemplo, nunca havia visto a cena inteira) "violada no palco", quando o cantor/compositor Sérgio Ricardo, incomodado com as vaias que não lhe permitiam sequer ouvir o grupo de apoio e a orquestra acompanhante, desistiu de terminar de cantar a sua "Beto bom de bola" e quebrou o violão em pleno palco, atirando-o na platéia. O apresentador Blota Jr., atônito, aparece em seguida tentando saber da pessoa que levou o violão na cabeça (presume-se que tenha sido na cabeça) se estava tudo Ok, se não tinha se machucado. Gozado que Sérgio Ricardo, talvez para disfarçar o nervosismo e a ira, estava rindo pouco antes de entrar no palco. Antes de começar a cantar a música, fez um discurso, tentando, em vão, calar o público. Mas o mais legal é que em entrevista atual, que faz parte do filme, Sérgio admite ter tido um acesso de raiva, mas não se arrepende de seu procedimento. Também há depoimentos de jurados como Sérgio Cabral, e de concorrentes como Nelson Motta. Chico Buarque, em seu depoimento "nos dias atuais", parecia estar meio "mamado", com a língua enrolada, e não disse nada de muito relevante, mas tentou a todo custo desfazer-se da imagem de "bom moço" que a direção da Record tentou lhe atribuir - conforme o depoimento do diretor Paulinho Machado de Carvalho. O gozado é que nem Chico, nem Caetano, ouvido logo a seguir, sabem tocar atualmente as canções "Roda Viva" e "Alegria, Alegria", tão significativas em suas trajetórias. Edu Lobo, vencedor do concurso com a sua maravilhosa "Ponteio", também falou. Aparece, ainda, Roberto Carlos, falando sobre a sua participação, revelando que era convidado apenas para cantar, sendo que o pessoal da Record queria mostrá-lo como um intérprete que podia cantar outras coisas além da jovem guarda. Falou também do samba que apresentou, "Maria, carnaval e cinzas".

É bem interessante ver o documentário para ficarmos a par de alguns aspectos que nos eram desconhecidos ou nebulosos. Por exemplo, a direção da TV almejava transformar o concurso numa espécie de "telecatch" - a gente falava telequéti (um "boxe" de exibição que era muito popular nos anos 60, aqui em Porto Alegre era super famoso o "Ringue 12", apresentado na TV Gaúcha) -, e por isso tentava, a grosso modo, atribuir papéis aos intérpretes: o bom moço, o bandido, o contestador, etc. Este tipo de armação ou de "produção" por baixo dos panos que havia nos certames, e da qual ficamos a par em face do documentário, sem dúvida esmaece o romantismo e a autenticidade com os quais costumamos imaginar como as coisas rolavam nos anos 60. Da mesma forma, a famosa passeata contra a guitarra foi uma jogada da emissora para criar, junto ao público, e artificialmente, um confronto entre a jovem guarda e a MPB, ao qual, talvez inadvertidamente, talvez não, alguns músicos envolvidos aderiram. Em grande parte, era só o aprofundamento do showbizz no Brasil, a cultura de massas reestruturando-se e transportando-se do rádio para a grande nova mídia, a televisão. De outro lado, vê-se bem que os festivais não eram um concurso em que músicos desconhecidos escreviam suas canções e eram selecionados devido unicamente aos seus méritos. Claro que tinham enorme mérito e qualidade, mas a realidade é que, de um modo geral, os cantores e compositores que participavam, de alguma forma já eram conhecidos da organização do festival, sendo "convidados" a inscrever músicas e a interpretá-las. Portanto, o "QI" sempre funcionou, tanto quanto hoje. E não é de se duvidar se no resultado final não havia nestes festivais alguma forma de "marmelada", seja via "jabá" de gravadoras, por pressão direta das emissoras de tv sobre o júri, ou outras formas de pressão por parte de produtores e músicos. Era, como disse o diretor Paulinho Machado de Carvalho - de certa forma para nossa decepção - apenas um programa de televisão, que acabou tomando uma dimensão maior em face do período político que o país atravessava, pela novidade da mídia televisiva e pela propaganda que a indústria de discos fazia dos artistas que até hoje estão na berlinda. Na verdade, a capacidade de divulgação oferecida pelos festivais era tão forte que muitos dos participantes viraram os "barões", os "capas pretas" da indústria cultural brasileira, pois a sua influência se faz sentir até hoje, sempre no "front line" de nossa mídia. Daria para pensar até se Caetano, Chico, Gil, entre outros, não superaram, se não em popularidade, pelo menos em termos de reconhecimento, os próprios ídolos da Era do Rádio. Tomara que, em face do documentário, seja lançado algum dia um dvd com a íntegra do festival, para que possamos examinar mais cuidadosamente o panorama geral e o trabalho dos demais concorrentes. Parabéns aos diretores Renato Terra (que não é aquele cantor de bem-te-vi, hit dos anos 80) e Ricardo Calil pela excelente película.

Sobre a obra

O texto fala do documentário "Uma noite em 67", focalizado no festival de música da TV Record.

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rogério ratner
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